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"Única saída era fechar": Covid desafia negócios brasileiros na Espanha

27/10/2020 16h40

Jorge Salhani, Madri, 27 out (EFE).- Daniela Beteli já havia morado na Espanha de 2003 a 2013. Depois de alguns anos no Brasil, resolveu retornar a Madri, buscando a mesma qualidade de vida que tinha antes, e abriu uma confeitaria, negócio em que já tinha anos de experiência, sem grandes dificuldades.

Cerca de 90% dos clientes dela eram turistas, contou Daniela à Agência Efe, já que a confeitaria ficava em uma região central da capital espanhola, perto de diversos hotéis. Vendia, principalmente, coxinha, pão de queijo e bolos recheados. Sucos naturais e açaí também eram bem populares.

O estabelecimento, porém, teve uma vida útil bem curta. Cinco meses após a abertura, teve que fechar as portas devido à pandemia do novo coronavírus.

"De repente não tínhamos mais ninguém para atender", disse.

A Espanha, no mês de março, entrou em estado de emergência na tentativa de conter a pandemia. A mobilidade urbana se restringiu apenas a atividades de extrema necessidade, como ir ao supermercado ou à farmácia. Neste período, também, o governo fechou as divisas entre as comunidades autônomas e as fronteiras com outros países, o que resultaria no pior verão da história para o turismo espanhol.

Sem clientes, a única saída, segundo Daniela, era encerrar o negócio: "não tínhamos fôlego financeiro", afirmou. O alto investimento - reformas, documentação, regulamentações - foi assolado pela pandemia e o que resta, de acordo com ela, é um sentimento de tristeza.

Registrada como autônoma na Espanha, Daniela considera que esses trabalhadores sentem mais a crise, porque estão à mercê de suas próprias condições financeiras. No momento, ela aguarda o término da pandemia para poder, talvez, abrir outra confeitaria.

Em entrevista à Efe, a vice-presidente da Federação Nacional Espanhola de Trabalhadores Autônomos (ATA), Celia Ferrero, avaliou que os autônomos têm passado por meses "duríssimos". Ela acrescenta que muitos deles tiveram que fechar seus negócios sem a certeza de que poderão se sustentar e sem saber como enfrentar a crise, cujos impactos ainda são desconhecidos.

Incerteza é pelo que está passando, também, Rose Maloka, que mantém um bar em Madri há 20 anos. O bar é brasileiro - tem cachaça nas prateleiras e está decorado com mensagens de apoio aos povos indígenas e à população negra.

A última vez em que uma caipirinha foi servida por Rose, entretanto, foi no dia 8 de março, depois das manifestações do Dia Internacional da Mulher, quando ela organizou em seu bar, que também funciona como associação cultural brasileira, um evento para celebrar a data.

Duas semanas depois, o país entrou em estado de emergência. Rose soube da obrigatoriedade de fechar seu negócio enquanto estava de férias, no Marrocos. Quando voltou à Espanha, encarou a notícia com incredulidade: "eu não fecho, eu abro!", exclamou.

Ela conta que a finalização das atividades não foi imediata. Não houve tempo para planejar o fechamento nem medidas intermediárias, como a redução da capacidade.

Antes de ter sido declarado o confinamento na Espanha, quando países como China e Itália já haviam colocado em exercício determinações mais duras contra a Covid-19, o fluxo de pessoas no bar seguia normal, segundo Rose, levando em consideração que ainda não existiam medidas restritivas relacionadas à mobilidade por parte do governo.

Os 15 dias iniciais de fechamento se transformaram em meses, e o sentimento inicial de surpresa - um tanto traumático - agora é de dor. O dia de São Cosme e Damião não foi celebrado. Também não haverá homenagem a Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro. Seria a 17ª comemoração.

Rose ainda não tem previsões de quando poderá reabrir. No início de junho, em uma primeira tentativa de reabertura de estabelecimentos - a chamada "nova normalidade" - o Ministério de Saúde espanhol autorizou o funcionamento de casas noturnas e bares com um terço de sua capacidade total nas cidades que estavam em uma fase avançada de contenção do vírus. Houve, entretanto, um retrocesso no desconfinamento desse setor, e bares como o de Rose tiveram que permanecer sem clientes.

Ainda que pudesse, abrir o local com um número de pessoas reduzido seria "completamente inviável", analisa Rose, uma vez que seu estabelecimento tem uma capacidade de apenas 28 pessoas - o que é "absurdo" de pequeno, diz.

Desde o início da pandemia, mais de 40 mil bares e restaurantes na Espanha encerraram suas atividades, de acordo com a organização Hostelería de España. A previsão é que a cifra possa aumentar a 85 mil estabelecimentos em razão das novas restrições para conter o mais recente avanço do coronavírus. Com esse dado, a entidade prevê que haverá um corte de 1,1 milhão de postos de trabalho até o fim do ano por conta da pandemia - 400 mil já não existem.

Celia Ferrero, da associação de autônomos, destaca que, entre esses trabalhadores, os que sentiram com maior força a crise foram os donos de pequenos negócios de lazer noturno, iguais aos de Rose Maloka. Outros profissionais prejudicados com a mesma intensidade pela pandemia foram os feirantes, os organizadores de eventos, os taxistas e os que trabalham com lazer infantil, de acordo com a vice-presidente da ATA.

A organização destaca que muitas pessoas não conseguem receber os auxílios econômicos do governo ou o recebem tardiamente. Por essa razão, defende uma política de "impostos zero" aos autônomos que não tiveram nenhuma renda devido à crise sanitária.

TRABALHADORES BRASILEIROS NA ESPANHA.

Mais de 98 mil brasileiros viviam na Espanha em janeiro de 2020, segundo dados do o Instituto Espanhol de Estatística (INE), sendo 63% mulheres e 37% homens. A comunidade autônoma que registra o maior número de brasileiros é a Catalunha, com mais de 23 mil pessoas - 16,4 mil em Barcelona. Em seguida estão Comunidade de Madri, Andaluzia, Comunidade Valenciana e Galícia.

De acordo com o Ministério do Trabalho, Migrações e Segurança Social da Espanha, havia 30.853 trabalhadores brasileiros no país no mês de agosto de 2020 - 5,5% do total dos trabalhadores procedentes da América Latina.

Flávio Carvalho, sociólogo e escritor brasileiro que vive na Catalunha, comentou à Efe que a população brasileira que deixa o Brasil se sente forçada a fazê-lo, principalmente pelas sucessivas crises sociais, econômicas e políticas que o país enfrenta.

No mês de março, quando a Espanha entrou em estado de emergência pela pandemia de coronavírus, o país registrou cerca de 2,5 mil trabalhadores brasileiros menos, cifra 8,2% inferior que a de fevereiro. Desde então, há um aumento progressivo desse valor.

A quantidade é bastante inferior quando comparada a outros países latino-americanos, como Venezuela, que tem mais de 75 mil trabalhadores na Espanha, e Colômbia, com mais de 81 mil.

Em agosto de 2019, a Espanha chegou a um máximo de 32.480 trabalhadores brasileiros. Pode-se observar uma tendência de aumento ao longo dos anos: em 2013, por exemplo, o número de pessoas do Brasil empregadas na Espanha era quase 36% menor.

A crise causada pela Covid-19 destruiu mais de 1,4 milhão de empregos na Espanha, segundo Julimar da Silva Bichara, professor do Departamento de Estrutura Econômica e Economia do Desenvolvimento da Universidade Autônoma de Madri. Desses, 28,6% eram de pessoas estrangeiras e 5%, de latino-americanas.

O sociólogo Flávio Carvalho ressalta que se deve olhar além dos dados oficiais, uma vez que há muitos brasileiros que trabalham na informalidade e outros que não apresentam a devida documentação e, portanto, não são contabilizados nesses números.

Ele avalia que, com a pandemia, os grupos mais vulneráveis, neste caso a mão-de-obra imigrante, acabam sendo os mais prejudicados: eles enfrentam, por parte um sistema de exploração, a diminuição de seus salários, a precarização de contratos de trabalho e redução em seus direitos.

RECUPERAÇÃO.

O mercado de trabalho espanhol deve se recuperar de maneira lenta, segundo o professor Julimar Bichara, da Universidade Autônoma de Madri.

Antes de enfrentar a Covid-19, a Espanha ainda tentava se recuperar do baque econômico de 2008, que obrigou muitos estrangeiros a retornarem a seus países, principalmente pela dificuldade de encontrar trabalho. Para o futuro, Bichara prevê uma previsão "ruim, bastante ruim".

Por sua vez, o sociólogo Flávio Carvalho ressaltou que as oportunidades, que são "piores e mais precárias" desde 2008, são cada vez mais escassas considerando a atual pandemia.

"Nunca saímos daquela crise", afirmou.

Por outro lado, há pessoas que não foram tão abaladas pela crise - e, em número ainda menor, as que foram, de alguma maneira, até beneficiadas. Cerca 2,8% das empresas relataram à Confederação Espanhola da Pequena e Média Empresa (CEPYME) que a pandemia não as afetou e 1,3% que os efeitos foram positivos ou muito positivos.

O caso de Luciana Monteiro se encaixa nesse quadro. Formada em gestão comercial, ela retornou a Madri - após haver voltado ao Brasil por conta da crise de 2008 - querendo sair da rotina administrativa. Escolheu seguir no ramo da estética, do qual sempre gostou.

Após algumas experiências que considera "frustrantes" em salões de beleza, ela resolveu abrir o seu próprio negócio. Decidiu deixar o local onde trabalhava no dia 13 março. O dia seguinte, porém, redefiniu o rumo de seu empreendimento: foi nesse sábado que o governo espanhol declarou, a nível nacional, o estado de emergência.

Luciana, que já estava vendo de alugar uma sala para poder trabalhar, teve que interromper seus planos. Nos três meses que ficou parada, durante a quarentena - "uma experiência complicada", considera - resolveu que atenderia a domicílio após o fim do confinamento.

Durante a fase de reabertura, começou a divulgar seu serviço e logo conseguiu clientes. Ela estima que 95% do trabalho que realiza agora é indo até a casa dos clientes.

"O pessoal não quer ir mais a centro de estética, ficar lá esperando", já que isso supõe, segundo Luciana, um maior risco de contágio.

Apesar de levar bem seu negócio, Luciana opinou que os profissionais de estética ainda não vem uma recuperação próxima. "A visão panorâmica não é muito otimista", disse, referindo-se à falta de apoio econômico ao setor e aos trabalhadores autônomos.

Não houve tanto faturamento durante o verão, a melhor época para sua atividade, mas ela se considera otimista para o próximo: "estamos tentando aguentar esse inverno".

Para o professor Julimar Bichara, empreendimentos como o de Luciana, liderados por pessoas estrangeiras, "influenciam de maneira positiva no mercado de trabalho espanhol, aumentando o seu dinamismo e produtividade".