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Próximo presidente enfrentará pior crise econômica da história do Equador

08/04/2021 20h24

Daniela Brik.

Quito, 8 abr (EFE).- Em um complexo cenário nacional de queda de 7,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020 em meio à pandemia de covid-19 e uma dívida de quase US$ 70 bilhões, o próximo presidente do Equador vai enfrentar o desafio de driblar a pior crise da história do país ou aprender a conviver com uma falência técnica até que a economia comece a se recuperar.

Com visões e propostas econômicas muito diferentes, os dois candidatos que vão participar do segundo turno no próximo domingo (11) são Andrés Arauz, aliado do ex-presidente Rafael Correa, e o conservador Guillermo Lasso.

"Sem dúvidas, a de 2020 foi a crise mais grave de todas desde que temos registros históricos", afirmou o professor da Faculdade de Economia da Universidade Central do Equador (UCE) John Cajas-Guijarro durante o seminário virtual "A economia equatoriana está à beira do naufrágio?", organizado pela Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO).

PIOR CRISE DA HISTÓRIA.

Embora as previsões apontassem uma queda de mais de 10% do PIB do Equador em 2020, o ministro de Economia e Finanças, Mauricio Pozo, revelou na semana passada que o recuo foi menor, de 7,8%, graças às "políticas contracíclicas" colocadas em prática.

No entanto, Cajas-Guijarro lembrou que em 1999, ano da pior crise econômica que o Equador tinha vivido até então e que forçou milhares de pessoas a emigrar, a queda do PIB foi de 6,8%, motivo pelo qual os dados atuais "permitem medir a crise".

Outro indicador que reflete o duro golpe causado pelo novo coronavírus foi a redução da renda per capita, que em 2020 foi de US$ 5,5 mil anuais, o que segundo o professor se deve à estagnação que a economia equatoriana vem sofrendo há anos.

O emprego formal também apresentou queda, e apenas 30,8% dos trabalhadores tiveram uma renda mensal superior a um salário mínimo (US$ 400) em dezembro de 2020.

No entanto, os números que mais preocupam são os referentes à dívida pública, que cresceu rapidamente no último ano.

"Em 2020, a dívida externa foi de US$ 45 bilhões, e a total de US$ 63 bilhões em números absolutos, a maior da história recente do país", afirmou Cajas-Guijarro.

O ministro da Economia, por sua vez, reconheceu em entrevista à Agência Efe que, quando a pandemia começou, "o país estava passando por uma crise prolongada: não tinha reservas fiscais, nem internacionais, nem margem de manobra orçamental e precisava de verbas adicionais (para a saúde)".

Pozo substituiu Richard Martinez, que esteve à frente da gestão da crise financeira até fechar a lacuna fiscal com a ajuda de agências multilaterais, das quais o Equador obteve empréstimos de mais de US$ 8 bilhões. Além disso, o país refinanciou e adiou juros com o apoio de credores.

Nesse sentido, o ministro explicou que o próximo governo terá uma dívida de menos US$ 2 bilhões de juros anuais, "com uma estrutura em que 42% é dívida com organizações multilaterais, ou seja, em condições muito mais vantajosas".

Apesar disso, como um todo, a dívida crescerá "para cerca de US$ 70 bilhões", o que representa um aumento de cerca de US$ 15 bilhões em comparação com a de 2017, quando o atual presidente, Lenín Moreno, tomou posse.

VERBAS PÚBLICAS.

Os impactos da covid-19 não resultaram só no aumento do desemprego e da pobreza, mas também perpetuaram problemas estruturais, segundo a professora da Faculdade de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE) Nora Fernández.

A acadêmica também relembrou o conceito de "necropolítica" como uma visão hipócrita do capitalismo para argumentar que o país vive seu "momento mais crítico", porque "o Estado tem cortado verbas públicas destinadas a áreas vitais como a educação e a saúde".

De acordo com Fernández, a estagnação do mercado de trabalho e a queda do preço do petróleo causaram uma piora das condições que afetam especialmente as mulheres e os habitantes de zonas rurais, o que agravou "não só a fragilidade econômica como a social".

Por sua vez, o professor e pesquisador Hugo Jácome, da FLACSO, defendeu que a estagnação da economia equatoriana, embora faça parte de um processo conjuntural muito acentuado pela pandemia, é consequência de "fatores estruturais" da economia nacional.

Entre outros elementos, ele destacou que o Equador é um exportador primário, o que faz com que "seus fluxos de circulação sejam voláteis e dependentes dos preços internacionais".

Além disso, ele ressaltou a "histórica asfixia fiscal" e alegou que, seguindo a lógica dos detentores da dívida pública, as condições sociais passem a estar subordinadas ao seu pagamento, causando enormes abismos socioeconômicos.