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Concessionária pede reavaliação de garimpo de ouro perto de Belo Monte

Norte Energia apontou "conflito entre as atividades e risco de implantação de atividade minerária em conjunto"" - Lalo de Almeida/Folhapress
Norte Energia apontou 'conflito entre as atividades e risco de implantação de atividade minerária em conjunto'' Imagem: Lalo de Almeida/Folhapress

André Borges

Em Brasília

26/03/2022 12h53Atualizada em 26/03/2022 12h54

A concessionária Norte Energia, dona da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, enviou um pedido ao governo do Estado, para que seja reavaliado o projeto de mineração de ouro da companhia canadense Belo Sun, que pretende transformar uma região localizada a poucos quilômetros da barragem da hidrelétrica no maior garimpo industrial do Brasil.

O Estadão teve acesso a um ofício que a Norte Energia enviou na semana passada à Semas (Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade), órgão do governo paraense responsável por licenciamento ambiental no Estado.

No documento, que também foi encaminhado ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e à Funai (Fundação Nacional do Índio), a dona de Belo Monte alerta que estudos já realizados "apontam conflito entre as atividades e risco de implantação de atividade minerária em conjunto com a operação da UHE (usina hidrelétrica) Belo Monte".

Apesar de haver uma série de "efeitos cumulativos e sinérgicos entre os projetos de mineração e hidrelétrico", o processo de licenciamento do "Projeto Volta Grande", da canadense Belo Sun, é tocado pela Semas (Secretaria do Estado de Meio Ambiente do Pará), enquanto a hidrelétrica de Belo Monte foi licenciada pelo Ibama.

Há anos, o Ministério Público Federal em Altamira questiona o rito de licenciamento.

A própria Norte Energia alertou, em 2013, que tinha preocupação com eventuais impactos que a mineração possa gerar em sua estrutura.

O processo de extração de ouro previsto para a região inclui o uso constante de explosivos, durante anos de atividades. A Belo Sun já negou que haja riscos de abalos sísmicos. Procurada pela reportagem, a Norte Energia não se manifestou sobre o assunto.

A Semas liberou, em 2014, a licença prévia do projeto de mineração nas margens do Rio Xingu, uma autorização que atestaria a sua viabilidade ambiental, desde que cumpridas determinadas exigências.

Em 2017, a secretaria emitiu a licença de instalação para o Projeto Volta Grande, permitindo a montagem da infraestrutura para a exploração efetiva do ouro, mas uma decisão judicial suspendeu seus efeitos.

Na emissão das duas licenças, foi exigido que a Belo Sun apresentasse documentos e estudos sobre os impactos do projeto na área da usina.

Resposta

Procurada, a Belo Sun Mineração declarou que desconhece o conteúdo do ofício da Norte Energia.

A mineradora afirmou que, "nos últimos três anos, manteve um diálogo técnico com a Norte Energia e compartilhou informações atualizadas sobre o licenciamento do Projeto Volta Grande, seja por solicitação da Norte Energia e por iniciativa própria".

A empresa informou que as atualizações dos projetos técnicos e sociais são submetidas regularmente ao órgão licenciador, que concluiu a consulta e o Estudo de Componente Indígena com as comunidades locais e que "continuará a promover o Projeto Volta Grande de maneira consciente, dialogando com as partes interessadas, seguindo todas as leis e regulamentos aplicáveis e respeitando as comunidades tradicionais e locais".

A Semas declarou, por meio de nota, que o processo de licenciamento ambiental de Belo Sun está suspenso por decisão judicial, desde 2017.

O procurador-regional da República, Felício Pontes, disse que a Norte Energia reconhece agora aquilo que ribeirinhos e indígenas têm alertado há uma década.

"A região mal consegue lidar com a estrutura da usina e seus impactos. Dois projetos de grande dimensão naquela região é algo simplesmente insuportável", disse.