Para IBGE, leitura é de estabilidade no varejo; juros e crédito seguram vendas

A perda de fôlego mostrada pelo comércio varejista no segundo trimestre já vinha de meses anteriores, uma vez que o bom resultado do primeiro trimestre deste ano estava calcado no resultado de janeiro, último mês em que mostrou avanço expressivo, alta de 4,1% nas vendas, avaliou Cristiano Santos, gerente da Pesquisa Mensal de Comércio no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O volume vendido pelo varejo caiu 0,2% no segundo trimestre de 2023 ante o primeiro trimestre do ano. O setor, porém, tinha registrado uma expansão de 1,9% no primeiro trimestre de 2023 ante o trimestre imediatamente anterior. Para Santos, a leitura para o desempenho do segundo trimestre é de estabilidade.

"Essa estabilidade do segundo trimestre, nem avanço nem queda, já vem de algum tempo", disse Santos.

O pesquisador diz que a principal explicação para a perda de fôlego continua sendo o acesso mais restrito ao crédito, diante dos juros elevados. "Isso tem segurado o crescimento (do varejo) nos últimos meses", afirmou.

Outro fator que tem prejudicado o desempenho do comércio é o fechamento de lojas de grandes redes varejistas, que afetam, sobretudo, o segmento de outros artigos de uso pessoal e doméstico, que inclui as lojas de departamento. No entanto, o fenômeno também impactou as vendas das atividades de vestuário e calçados de móveis e eletrodomésticos.

"São grandes cadeias que tiveram fechamento de lojas físicas por conta de questões contábeis que têm ocorrido", justificou Santos.

Na direção oposta, o setor de supermercados foi beneficiado pela deflação de alimentos e pelo pagamento da antecipação do 13º salário.

Já o pacote do governo que incentivou descontos para a aquisição de automóveis populares impulsionou vendas de veículos, turbinando as vendas do varejo ampliado. O volume vendido pelo comércio varejista ampliado - que inclui as atividades de veículos, material de construção e atacado alimentício - cresceu 1,2% em junho ante maio. As vendas de veículos saltaram 8,5% no período, devido a aquisições feitas tanto por locadoras quanto por consumidores pessoa física.

"Foi um fenômeno mais global, mas um pouco mais ligado à pessoa física também, justamente ligado a esse desconto (via incentivo do governo)", explicou Santos.

O programa de descontos para carros populares fez as vendas de veículos superarem em junho o nível pré-pandemia pela primeira vez desde a crise sanitária: após o avanço ante maio, as vendas estavam em junho 4,3% acima do patamar pré-pandemia, de fevereiro de 2020.

No segundo trimestre, as vendas do varejo ampliado cresceram 1,7% em relação ao primeiro trimestre, depois de um avanço de 3,7% no trimestre anterior.

Quanto ao início do ciclo de cortes na taxa básica de juros, Santos pondera que a transmissão até o varejo "é uma cadeia longa e bastante complexa".

"Uma vez que você tem queda na taxa básica de juros, isso não vai refletir imediatamente naquilo que os bancos e outras instituições de crédito ofertam ao cliente", disse ele.

Santos lembra que o impacto do afrouxamento monetário "não acontece imediatamente", mas sim provoca um "efeito de médio e longo prazo".

O pesquisador acrescenta que ampliar "o acesso ao crédito aumenta a capacidade de consumo", mas que questões como inadimplência, propensão à poupança e pagamento de dívidas também são elementos que influenciam o destino da renda das famílias.