Petrobras limita perda após reunião Lula-Prates; Ibovespa cai 0,26%

Após quatro altas consecutivas, o Ibovespa conseguiu defender a linha dos 125 mil pontos na sessão, ainda que em viés negativo desde a abertura do dia. Em margem estreita, entre 125.059,77 (-0,71%) e 125.957,06 pontos - uma variação de pouco menos de 900 pontos da mínima à máxima -, o índice da B3 fechou em leve baixa de 0,26%, aos 125.626,03 pontos, com giro financeiro a R$ 22,6 bilhões. Na semana, ainda sobe 0,68%, com ganho no mês de 11,03% e, no ano, de 14,48%.

Com avanço de quase 2% nos preços do minério de ferro na China (Dalian) na terça-feira, Vale (ON +2,42%) voltou a ser destaque como ontem, acumulando ganho de 4,93% nessas duas primeiras sessões da semana. Em recuperação, "as altas recentes no minério de ferro na China têm trazido fluxo comprador para as ações de Vale e demais empresas do setor", diz Matheus Sanches, sócio e analista da Ticker Research. Dessa forma, CSN Mineração (+2,60%), Bradespar (+2,51%), Vale e Gerdau (+1,65%) ocuparam o topo do Ibovespa na sessão, junto de Marfrig (+1,93%).

Além disso, "alguns bancos internacionais têm elevado a recomendação para Vale, de 'neutra' para 'compra', o que também traz fluxo para o papel, assim como a data para dividendos, hoje", diz Lucca Ramos, sócio da One Investimentos.

A Vale confirmou os valores dos proventos a serem pagos em 1º de dezembro, de R$ 1,565890809 por ação como dividendos e R$ 0,765770758 por ação como juros sobre o capital próprio (JCP), totalizando R$ 2,331661567 por ação. Os valores tinham sido comunicados no dia 26 de outubro e não sofreram alteração porque não houve mudança do número de papéis em circulação. As ações passam a ser negociadas 'ex-direito' a partir de amanhã.

Por outro lado, a outra gigante das commodities, Petrobras, cedeu terreno nesta terça-feira devido a preocupações em torno da permanência, ou não, de Jean Paul Prates no comando da estatal, em meio ao que seriam pressões no governo quanto à orientação da empresa. Hoje, Petrobras ON e PN caíram, respectivamente, 0,99% e 0,65%, moderando as perdas após a reunião de Prates com o presidente Lula.

"A semana, mais curta nos Estados Unidos com o feriado de Ação de Graças na quinta-feira, tende a ser tranquila. Mas, no plano doméstico, há muita atenção sobre a possibilidade de troca na Petrobras, com a eventual saída do Prates", diz Rose Duarte, analista da Toro Investimentos. "O governo busca que a Petrobras gere mais contratações na construção de embarcações para a própria empresa e retome atuação em fertilizantes, em que o Brasil ainda depende muito da importação do insumo para o agro", acrescenta.

Outro ponto de pressão sobre Prates - que esteve reunido com o presidente Lula e ministros, em Brasília, nesta tarde - teria relação com a política de preços para os combustíveis. "Não acreditamos que seria tomada uma medida drástica, como mudar o comando da Petrobras, por pouca coisa. Rumores sobre alterações no cargo são bem frequentes, e esse deve ser mais um desses casos", observa o analista Mateus Haag, da Guide Investimentos, com o argumento de que a diferença entre os preços internacional e doméstico está bem reduzida no momento.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que participou de reunião no Palácio do Planalto com Prates, disse que, no encontro, tratou-se de discutir o cronograma de investimentos da Petrobras. Também estiveram presentes os ministros Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). Questionado se houve discussão sobre preço de combustíveis, Haddad negou. "Foi tratado de cronograma de investimento", afirmou ao retornar ao Ministério da Fazenda.

Depois da reunião, Prates também negou ter havido pedido do governo para baixar os preços dos combustíveis. "Isso não funciona assim, não existe pedido nesse sentido", disse o presidente da Petrobras. "Seguramos um tempo, com estabilidade, em período de muita oscilação", acrescentou.

Além de Petrobras, outro carro-chefe do Ibovespa, o setor de grandes bancos, também encerrou o dia predominantemente em baixa, à exceção de Banco do Brasil (ON +0,71%). Na ponta perdedora do índice, Magazine Luiza (-6,58%), MRV (-5,74%) e Eztec (-5,06%). "A abertura na curva de juros resultou em um movimento maior de correção nas ações de menor liquidez, as small caps, e também nas de varejo, que vinham em recuperação nas sessões anteriores, com o Ibovespa em ajuste natural hoje após tantas altas", diz Ramos, da One Investimentos.

Destaque na agenda desta terça-feira, tanto o Ibovespa como os índices de ações em Nova York operaram com pouca volatilidade até a divulgação, no fim da tarde, da ata da mais recente reunião de política monetária do Federal Reserve - e assim se mantiveram, uma vez conhecido o teor do documento, sem surpresas.

Os dirigentes do Federal Reserve avaliaram, na ata, que a posição atual da política monetária já está restritiva e que será apropriado mantê-la assim por "algum tempo". Observaram também que as condições financeiras foram apertadas "bastante" nos últimos meses, o que pressiona a atividade e a inflação, apesar de a extensão ser incerta. Alertaram que mais aperto na política monetária pode ser apropriado, caso o ajuste da inflação se mostre insuficiente. E indicaram que, apesar de a inflação ter moderado no último ano, segue alta, de forma que são necessárias mais provas de que esteja desacelerando para a meta de 2%.

Para o BMO Capital Markets, a ata do Fed foi "cautelosamente hawkish" - em particular, o trecho que reforça o compromisso de juros restritivos "por algum tempo".

Aqui, "no cenário político, uma boa notícia é que a tese de manter o déficit zerado em 2024 vem ganhando adesões, e só será alterada, se necessário, ao longo do ano. Com isso, inevitável será o contingenciamento de despesas, previsto entre R$ 22 bi e R$ 23 bilhões", aponta Julio Hegedus Netto, economista da Mirae Asset. Assim, as atenções devem se voltar, com o tempo, às áreas do orçamento federal que podem ser mais afetadas.

O relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2024, deputado Danilo Forte (União-CE), quer blindar o agronegócio de eventuais bloqueios de gastos no próximo ano. Dentre as áreas listadas pelo relator estão o Seguro Rural, verbas da Embrapa ligadas à pesquisa e ao desenvolvimento, defesa agropecuária e assistência técnica e extensão rural, que são ligadas ao Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). "Muitas vezes a safra não pode esperar", disse Forte, durante apresentação na sede da Frente Parlamentar do Empreendedorismo (FPE).

Em entrevista coletiva na tarde de hoje para apresentação do Boletim Macrofiscal, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, afirmou que o objetivo de zerar o déficit primário em 2024 não é um "capricho", e que a meta deriva do entendimento da equipe econômica de que é possível recompor a base fiscal do País sem distorcer o sistema tributário.

Também nesta tarde, durante participação em evento em Brasília, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reiterou haver "possibilidade grande" de a inflação ficar dentro da meta neste e no próximo ano. "A inflação está convergindo, os dois últimos boletins de projeções do mercado foram bons, os núcleos de serviços tiveram comportamento bom. Preços administrados mostraram um pouco de volatilidade, mas isso está relacionado ao preço do petróleo", disse.

Ele mencionou também que a continuidade da queda da Selic não deve afetar o câmbio. De acordo com o presidente do BC, o diferencial de juros no Brasil ainda é bastante elevado na comparação com a taxa dos Estados Unidos, que está perto de suas máximas históricas.

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