Ibovespa se inclina à correção do petróleo e cai 1,01%, aos 125,6 mil pontos

Em perda de sustentação desde o começo da etapa vespertina, o Ibovespa encerrou esta quarta-feira no menor nível desde o último dia 24, e operou abaixo dos 126 mil pontos em boa parte da tarde, refletindo hoje em especial a queda de Petrobras (ON -2,38%; PN -3,60%, mínima do dia no fechamento), alinhada à acentuação da correção dos preços do petróleo após a divulgação semanal dos estoques dos Estados Unidos.

Assim, o índice encerrou em baixa de 1,01%, a 125.622,65 pontos, bem mais perto da mínima (125.614,35), do fim da tarde, do que da máxima (127.537,55) do dia, em que saiu de abertura aos 126.906,70. O giro ficou em R$ 22,8 bilhões nesta quarta-feira. Na semana, o Ibovespa cai 2,00% e, nas quatro primeiras sessões de dezembro, recua 1,34%. No ano, sobe 14,48%, alavancado por alta de 12,54% em novembro.

Ao longo da tarde, a virada observada na maior parte do setor metálico (Vale ON -0,66%, Gerdau PN -0,04%, CSN ON -0,29%), a despeito do avanço de 2,76% no preço do minério de ferro no mercado futuro de Dalian (China), colocou pressão extra sobre o Ibovespa, em dia já bem negativo para as duas ações de Petrobras, com a queda em torno de 4% para os preços do petróleo, que lançou a referência americana, o WTI, abaixo de US$ 70 por barril pela primeira vez desde junho.

A correção vista nos preços da commodity foi ampliada após o Departamento de Energia (DOE) dos Estados Unidos divulgar avanço acima do esperado para os estoques de gasolina e destilados do país, apesar de recuo nos de barris de petróleo.

Para piorar, o sinal único dos grandes bancos foi negativo, com BB (ON -2,14%) ainda à frente da correção e Santander (Unit -1,54%) no piso do dia no encerramento. Na ponta perdedora do Ibovespa nesta quarta-feira, destaque para São Martinho (-4,44%), BRF (-4,34%), PetroRecôncavo (-4,33%) e Prio (-3,99%), logo à frente da preferencial de Petrobras (-3,60%). No lado oposto, Hypera (+6,03%), Pão de Açúcar (+3,92%), Raízen (+2,89%) e CVC (+2,79%).

O diretor presidente do GPA, Marcelo Pimentel, afirmou hoje que os rumores sobre a empresa virar uma corporation - que afetaram o preço das ações especialmente ontem - não passam de especulação. "Houve movimento de choque e isso fez impacto na ação, mas não há nenhuma relação com uma movimentação específica", disse Pimentel, em evento com investidores, em São Paulo. Ontem, as ações chegaram a subir 14%, em meio a fortes rumores de que a empresa teria recebido proposta para virar uma corporação sem controle definido, como parte da estratégia de saída do controlador, o Casino, da América Latina.

Por sua vez, o diretor financeiro do GPA, Rafael Russowsky, disse hoje que o movimento de ontem do mercado, que provocou alta no preço das ações da empresa, foi uma cobertura de 'short', de aluguel de ações, que nada tem a ver com supostas propostas na mesa para a companhia virar uma corporation, reforçando as palavras do presidente do GPA, ditas mais cedo.

Para a Ativa Investimentos, as ações do GPA e do Carrefour (+2,33% no fechamento) foram impulsionadas pelos novos guidances. A primeira empresa manteve a projeção de entregar margem Ebitda entre 8% e 9% em 2024, enquanto a segunda anunciou, ontem, novas projeções de vendas, animando o mercado, apesar de o Citi considerar as projeções "conservadoras" e um risco negativo às suas estimativas.

No quadro mais amplo, para além do ajuste no petróleo e do noticiário corporativo, o Ibovespa não conseguiu acompanhar fatores favoráveis a uma progressão da exposição a ações, com o dólar e os juros futuros em baixa na sessão, em dia de alívio na curva de juros doméstica em linha com o que se viu também nos Treasuries, ante sinais de que a política monetária dos Estados Unidos tende mesmo a se afrouxar nos próximos meses.

Tal percepção dovish sobre a orientação dos juros de referência na maior economia do mundo foi reforçada, hoje, por dados mais fracos sobre o mercado de trabalho americano, referentes à geração de vagas no setor privado em novembro, da ADP, que corroboraram a mais recente leitura de outra métrica sobre o emprego, a do Jolts, que captura o ritmo de giro da mão de obra e é acompanhada de perto pelo Federal Reserve. Na sexta-feira, será a vez do relatório sempre mais aguardado, o payroll de novembro, com dados como a criação líquida de vagas, a taxa de desemprego e, em especial, a evolução do ganho salarial médio.

"A visão de fim do ciclo de alta nos juros de referência também é corroborada por falas mais dovish suaves das autoridades monetárias, tanto nos Estados Unidos como na Europa, mesmo entre os membros mais proeminentemente hawkish rigorosos na condução da política monetária", observa em nota a Guide Investimentos.

A percepção mais favorável sobre os juros no mundo tem levado casas de investimento a rever suas projeções para o Ibovespa no fim do próximo ano: enquanto Inter e XP colocam target a 142 mil pontos para o fechamento de 2024, a Guide prevê avanço ainda maior, em direção a 155 mil pontos. Todas essas marcas, se confirmadas, serão inéditas, considerando a referência histórica em vigor para o Ibovespa, há dois anos e meio. Em 7 de junho de 2021, o índice foi aos 130.776,27 pontos naquele encerramento e, no intradia, chegou a 131.190,30 pontos, também em nível recorde.

As previsões foram feitas neste começo de dezembro, quando o Ibovespa vinha de ganho de 12,54% em novembro, no que foi o maior avanço para o índice da B3 em três anos. Nesta virada para dezembro, com a gordura acumulada no mês anterior, o Ibovespa tem encontrado certa dificuldade para levar adiante o rali que elevou o nível do índice em dólares ao longo de novembro, refletindo também o ingresso de recursos estrangeiros no período.

"As bolsas, aqui e no exterior, começaram o dia em tom positivo, mais animador pela manhã, muito em linha com o otimismo em torno da expectativa de corte na taxa de juros nos Estados Unidos já para o começo do próximo ano, o que dava impulso também ao petróleo e contribuía para o desempenho do mercado brasileiro, com a B3 em alta na abertura", diz Helder Wakabayashi, analista da Toro Investimentos.

"As taxas dos Treasuries de 10 anos têm caído bastante, o que resulta também em fechamento da curva de juros doméstica. Tudo confluía para uma ótima performance da Bolsa, hoje, que acabou sendo frustrada, à tarde, pela queda expressiva do Brent, derrubando o bloco das ações de petróleo na B3", acrescenta o analista, observando que o setor financeiro também "apanhou" na sessão, em meio às discussões ainda em andamento sobre o futuro do JCP (juros sobre capital próprio), que costuma ser distribuído com frequência pelo segmento aos respectivos acionistas.

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