BC japonês encerra ciclo de oito anos de juros negativos

O banco central do Japão elevou nesta terça-feira, 19, as taxas de juros pela primeira vez desde 2007. Assim, o país volta a ter juros acima de zero, encerrando um período de esforço agressivo para estimular uma economia que há anos luta para crescer. Em 2016, o Banco do Japão tomou a medida não convencional de reduzir os custos de empréstimos para abaixo de zero, numa tentativa de estimular empréstimos e impulsionar a economia estagnada. A decisão tomada ontem encerra, assim, um ciclo de oito anos de taxas negativas.

Juros negativos - que os bancos centrais em algumas economias europeias também adotaram - significam que os depositantes pagam para deixar seu dinheiro com um banco. Mas a economia do Japão começou recentemente a mostrar sinais de crescimento mais forte: a inflação, após anos de baixa, acelerou, consolidada por aumentos maiores que o habitual nos salários. Esses são sinais de que a economia pode estar a caminho de um crescimento mais sustentado, permitindo que o banco central aperte a política de taxa de juros, anos após outros grandes bancos centrais terem elevado suas taxas rapidamente em resposta a um aumento na inflação.

Porém, mesmo após a alta de ontem, as taxas de juros no Japão estão longe das de outras grandes economias desenvolvidas do mundo. A taxa-alvo do Banco do Japão foi elevada para uma faixa de zero a 0,1%, quando antes era de menos 0,1%. O banco disse em comunicado ter concluído que a economia estava em um "círculo virtuoso" entre salários e preços, significando que os salários estavam subindo o suficiente para cobrir o aumento dos preços, mas não tanto a ponto de reduzir os lucros das empresas. A principal leitura da inflação no Japão foi de 2,2% anual em janeiro, segundo dados mais recentes disponíveis.

O banco central também abandonou política por meio da qual comprava títulos do governo japonês para balizar as taxas de mercado, incentivando empresas e famílias a tomar empréstimos baratos. O banco vinha relaxando lentamente a política ao longo do último ano, resultando em maiores rendimentos dos títulos conforme as perspectivas de crescimento do país melhoravam. O banco central disse ontem que as taxas de juros negativas e outras medidas que havia adotado para estimular a economia "cumpriram seus papéis".

Recorde na bolsa

Em muitos países, o aumento na inflação tem atormentado consumidores e formuladores de políticas. Mas no Japão - que, com frequência, enfrentou a deflação, que prejudica o crescimento -, o recente aumento nos preços foi bem recebido pela maioria dos economistas. O mercado de ações japonês, impulsionado pelo otimismo na economia e reformas corporativas que favorecem os acionistas, atraiu grandes somas de recursos de investidores ao redor do mundo, ajudando o índice Nikkei 225 a quebrar um recorde que durava desde 1989.

O Nikkei subiu ontem ligeiramente após o anúncio do Banco do Japão. O fim das taxas de juros negativas, que deverá ajudar a fortalecer a moeda do país, é visto pelos investidores como mais um passo importante na recuperação do Japão. "É mais um marco na normalização da política monetária no Japão", disse Arnout van Rijn, gerente de portfólio da Robeco, que criou e gerenciou o escritório asiático da gestora de fundos holandesa por mais de uma década. "Como seguidor de longo prazo do Japão, isso é muito significativo."

As apostas em um aumento nas taxas de juros foram impulsionadas neste mês depois que a Confederação Sindical Japonesa, a maior associação de sindicatos do país, disse que seus 7 milhões de membros receberiam aumentos salariais que, em média, ultrapassariam 5% neste ano, o maior aumento anual negociado desde 1991. Isso se somou a um aumento médio de salários de cerca de 3,6% em 2023. Antes que os resultados das negociações salariais fossem anunciados, os investidores esperavam que o banco central esperasse mais tempo para elevar os juros.

O Banco do Japão visa uma inflação anual de 2%, e a taxa no país está há quase dois anos nesse patamar ou acima disso. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.