Para FMI, inflação na maior parte das economias deve completar trajetória de queda rumo à meta

Diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva expressou nesta segunda-feira, 6, confiança ao comentar sobre as projeções econômicas da instituição para este ano. A autoridade afirmou que a inflação deve completar trajetória de queda rumo à meta na maior parte das economias, ao mesmo tempo que o crescimento econômico global segue resiliente.

Contudo, Georgieva revelou que está preocupada com a possibilidade de outro choque atrapalhar a direção da economia global, por exemplo, uma distorção nos preços de energia.

E apesar da perspectiva "positiva", o FMI ainda projeta um crescimento global mais fraco pelo resto da década, de 3%, em comparação a previsões pré-pandemia, que previam avanço de 3,8%.

Os comentários ocorreram durante painel da Conferência Global de 2024, promovida pelo Milken Institute.

Comércio global

A diretora-gerente do FMI estimou ainda que a fragmentação do comércio pode custar entre 0,2% a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) global, dependendo de como os países lidarem com a imposição de sanções internacionais. Segundo ela, "há resistência dos países em adotar um senso comum" com base nos benefícios da cooperação e do comércio multilateral.

"A seguridade da cadeia de suprimentos tem que ser levada seriamente e, por isso, alguns custos são justificados. O que argumentamos é que há grande diferença na escala de perda entre 0,2% a 7% do PIB global, então precisamos tomar essas decisões com mais sabedoria", afirmou Georgieva.

De acordo com a autoridade, a imposição de sanções por determinado país gera 75% de probabilidade de retaliação pelo outro. "Não acredito que o comércio global será completamente cortado e desintegrado, mas enfrentará obstáculos e desvios de rotas, ampliando tempo e custo dos deslocamentos de bens", apontou.

Georgieva defendeu que para resolver esses problemas e ampliar a prosperidade do crescimento global, é necessário aumentar a cooperação entre os países.

A diretora-gerente do FMI projeta que mercados emergentes que possuem negociações com diversas partes do mundo, como a Indonésia, devem se beneficiar e ter desempenho melhor do que outras regiões, aproveitando também o impulso de inovações tecnológicas e da transição verde.

China

Kristalina Georgieva afirmou ainda que a instituição está trabalhando com a China para aumentar o consumo doméstico e melhorar a confiança dos consumidores, enquanto o país tenta remodelar sua economia.

"A China está numa encruzilhada, enfrentando envelhecimento demográfico, junto a um modelo de crescimento que não funciona mais no contexto atual da economia global e um time econômico que ainda está se adaptando às mudanças", listou Georgieva.

Entre as medidas sugeridas pelo FMI, a autoridade afirmou a China adotou medidas para orientar a economia para o consumo doméstico e melhorar a confiança do consumidor, mas que "ainda enfrenta dificuldades em mudar da política econômica conhecida para o desconhecido."

Outros conselhos do FMI abordaram uma maior abertura dos mercados para ampliar a resiliência e a resolução completo dos problemas no setor imobiliário, o que, para Georgieva, é essencial para restaurar a confiança das famílias e permitir retomada sustentável do fluxo de gastos com consumo.

EUA

A diretora-gerente do FMI observou que o ritmo atual da dívida fiscal dos Estados Unidos não é saudável no longo prazo e pode trazer prejuízo para outros países. No evento, a autoridade também ponderou sobre os benefícios da economia norte-americana para a resiliência do crescimento global.

"É custoso manter esse nível de dívida fiscal e é difícil trazer argumentos para justificar a ampliação dos gastos", criticou Georgieva, destacando que o envelhecimento populacional é um dos desafios que dificulta o processo de consolidação fiscal. "A resposta é que é possível e há espaço para fazer uma correção fiscal."

Segundo a autoridade, o financiamento do déficit fiscal por meio de empréstimos pode passar a transmitir seus impactos para mercados emergentes e empresas americanas ao ampliar a valorização do dólar, por exemplo.

Para Georgieva, a força do dólar pressiona particularmente economias da Ásia, onde os juros básicos estão comparativamente mais baixos. Sobre a viabilidade de intervenções cambiais, a autoridade evitou comentar sobre um país específico, mas afirmou que economias "precisam lidar com os riscos" desse cenário.

Questionada sobre as dinâmicas cambiais do Japão, a diretora-gerente do FMI ressaltou é característico do país o comprometimento com a flexibilidade cambial para manter a estabilidade financeira. Georgieva reiterou ainda que a instituição não interfere nessas decisões e que conversará diretamente com o Japão sobre medidas cambiais "somente se for necessário".

Por outro lado, a autoridade ponderou que "há razões para comemorar o desempenho econômico dos EUA". Georgieva apontou que o país tem sido um bom exportador de energia e também de caminha para completar trajetória de queda da inflação rumo à meta de 2% do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), além de um "mercado de trabalho resiliente e extremamente forte, que, apesar de contraditório, tem se mostrado bom para a economia".