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Copom: Corte de juros é consenso, extensão do atual ciclo de queda é dissenso

29/10/2019 17h49

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central iniciou nesta terça-feira (29) a reunião de dois dias de política monetária para avaliar novos rumos da gestão da moeda nacional. Há consenso entre os economistas de nova rodada de corte da taxa Selic, dando continuidade ao atual ciclo de afrouxamento monetário iniciado na reunião de julho, quando a taxa básica de juros foi reduzida de 6,5% ao ano para 6%.

O tamanho da redução em 50 pontos-base prosseguiu na reunião seguinte em setembro, com a taxa Selic chegando a 5,5% ao ano - o menor patamar da história recente – e deve continuar agora na reunião de outubro. "Há uma parcela menor apostando no corte de 75 pontos-base", aponta José Pena, economista-chefe da Porto Seguro (SA:PSSA3) Investimentos, que também projeta redução de 0,50 ponto percentual nesta reunião e mais 50 pontos-base em dezembro, com uma possibilidade de um corte de 25 pontos-base na primeira reunião de 2020.

A maior divergência reside na extensão do atual ciclo de afrouxamento monetário. As apostas dos economistas consultados por Investing.com Brasil para o fim da flexibilização variam para uma Selic entre 4% e 4,75% ao ano, com manutenção da taxa do final do ciclo até o fim de 2020. E há uma análise dissonante, que prevê início do ciclo de alta da Selic a partir de agosto do ano que vem. Mas todos cravam corte de 50 pontos-base nesta reunião.

Retomada gradual e vacilante da atividade econômica, projeções cadentes da inflação oficial, inflação andando de lado em setembro e outubro e aprovação da reforma da Previdência abrem espaço para o Banco Central continuar com a política monetária estimulativa.

"A expectativa de inflação para 2019 e 2020 está abaixo da meta", aponta Rafael Leão, economista-chefe da Parallaxis, explicando que há espaço para o Banco Central colocar uma política monetária mais estimulativa por causa de índices inflacionários comportados. "Os núcleos da inflação estão se desacelerando", prossegue o economista, que prevê mais um corte e encerramento do atual afrouxamento monetário na reunião de dezembro.

De acordo com o último Boletim Focus divulgado na última segunda-feira (28), a projeção para o IPCA no encerramento de 2019 é de 3,29%, ante 3,26% na semana anterior, ficando abaixo do centro da meta de 4,25% e dentro da margem de tolerância de 1,5 ponto percentual. Enquanto para o ano que vem a aposta é que a inflação oficial feche em 3,60%, contra 3,63% na semana anterior, também abaixo da meta de 4% estabelecido para o ano que vem.

Os últimos índices inflacionários referentes a setembro e outubro apresentaram bom comportamento e acenderam um sinal de alerta quanto à fragilidade da recuperação econômica. Isso porque o IPCA de setembro registrou deflação de 0,04%, a menor variação para o mês em 21 anos, enquanto o acumulado em 12 meses apresentou alta de 2,89%. Já o IPCA-15 de outubro, que mensura o nível de preço na primeira quinzena do mês, apresentou uma alta de 0,09% e acumulado de 12 meses em 2,72%.

"A taxa de câmbio a R$ 4,05/US$ durante a última reunião parecia limitar o espaço para queda dos juros muito além dos 5% [na avaliação do Banco Central]", afirma nota do Itaú (SA:ITUB4) a clientes assinada pelo economista-chefe Mario Mesquita. Na avaliação do banco, tal nível da taxa de câmbio não seria impedimento para novos estímulos, mas aponta que o Copom avaliava intensificação de riscos de repasse cambial aos preços naquele momento.

De acordo com o Focus, a mediana para o dólar tanto para o fim deste ano como para 2020 é de R$ 4,00. "Há um ano o dólar estava a R$ 3,75, chegou a R$ 4,20, e pouco mudou a inflação", avalia Leão da Parallaxis, explicando que há espaço para o Banco Central para atuar de forma pragmática, pois a moeda americana voltou ao nível de R$ 4 e importadores e empresas dependentes de matéria-prima proveniente do exterior vão ter uma recuperação de margem, pois não repassaram a alta do câmbio para os preços devido à elevada capacidade ociosa segurar a alta dos preços.

"Está longe de haver aceleração inflacionária", analisa André Mulller, economista-chefe da AZ Quest Investimentos, que aposta em mais uma redução de 50 pontos-base em dezembro e uma de 0,25 ponto percentual na primeira reunião de 2020, fechando o ano que vem em 4,25% ao ano. A avaliação de Muller está atrelada à lenta recuperação da economia brasileira, o que não pressiona o núcleo de inflação devido à elevada capacidade ociosa, reiterando que a inflação corrente está bem abaixo da meta.

No último Focus, as estimativas para o PIB em 2019 tiveram uma leve alta, indo de 0,88% para 0,91%. Para 2020, houve manutenção nas projeções em 2,00%.

"Melhora da atividade não significa riscos significativos de pressão inflacionária", diz o Itaú (SA:ITUB4), que projeta a Selic a 4% no fim de 2020, com mais um corte de 50 pontos-base em dezembro e dois cortes de 0,25 ponto percentual nas duas primeiras reuniões de 2020. Na avaliação do banco, a queda do juro real neutro permite "estímulos monetários adicionais para que a economia passe a ter uma recuperação mais robusta", além de reiterar a ausência de risco de inflação de demanda mesmo que a atividade retome ritmo acima do esperado.

Perspectiva diferente de pressão inflacionária tem a economista Giulia Coelho, da 4E Consultoria. "A reforma da Previdência já é estimulativa e vai haver recomposição de lucro das empresas para aumentar a margem", explica Coelho, que não considera adequado o atual ciclo de corte de juros. A economista da 4E difere do consenso de mercado de juros entre 4% e 5% no fim do próximo ano. Após realizar mais um corte de 0,25 ponto percentual na reunião de dezembro, o Copom deve iniciar a restrição monetária com uma alta de 0,50 ponto percentual em agosto do ano que vem, elevando a Selic para 5,25%, na avaliação de Coelho.

Os outros economistas concordam com os estímulos proporcionado pela aprovação da reforma da Previdência no Senado, por elevar a confiança do empresário por ter limitado o crescimento da dívida pública para os próximos anos. No entanto, o Copom deve continuar a apontar a necessidade de continuação da agenda de reforma para diminuir o risco de pressão inflacionária por causa de uma eventual frustração com o equilíbrio das contas públicas. "Vai entrar discurso de controle de despesas obrigatórias e, caso não seja feito, corre o risco de shutdown da máquina pública", avalia Leão da Parallaxis.

Por fim, o cenário externo deve continuar benigno na avaliação do Banco Central, avalia analistas do BTG Pactual (SA:BPAC11), que também apostam em Selic a 4% no final de 2020. Para Pena, da Porto Seguro (SA:PSSA3) Investimentos, houve um início de estabilização da atividade econômica global, que parou de apresentar desaceleração. "Até há 1 mês havia risco nada desprezível de queda acentuada", avalia o economista, que não vê retomada do crescimento global após essa estabilização.

A diminuição dos riscos globais é decorrente do início do entendimento entre EUA e China no campo comercial, mas longe de resolver a disputa entre os dois países definitivamente. "[Pequeno entendimento] ajuda a diminuir o grau de incerteza por um tempo", avalia Pena. Outro evento geopolítico que contribuiu para melhora do ambiente global foi o Brexit, cujas chances de uma saída sem acordo, desordenada do Reino Unido da União Europeia diminuiu. "Pior cenário é cada vez menor, mas não dá para saber", diz Pena, recomendando cautela.