Abelhas sem ferrão da Amazônia viram atração turística para a Copa

Afonso Ferreira

Do UOL, em São Paulo

  • Alberto Araujo/UOL

    João Fernandes, dono da Amazomel, ampliou a produção com a ajuda da população ribeirinha

    João Fernandes, dono da Amazomel, ampliou a produção com a ajuda da população ribeirinha

De olho na Copa do Mundo de 2014, o meliponicultor (criador de abelhas sem ferrão) João Fernandes, 27, fechou uma parceria com o hotel Ariaú Towers, em Manaus (AM), uma das sedes do próximo mundial. Ele vai montar um meliponário (criadouro de abelhas sem ferrão) com uma loja no hotel para que os turistas possam ver as abelhas e comprar produtos derivados do mel.

Segundo Fernandes, a parceria beneficiará os dois lados. O hotel ganhará um atrativo turístico e ele, um novo ponto de venda e de divulgação de suas mercadorias. A expectativa é de que o meliponário fique pronto até o final deste semestre.

"O mel da abelha sem ferrão é um produto regional da Amazônia e os turistas apreciam bastante. É um mel mais cobiçado do que o da abelha com ferrão e o preço de venda é seis vezes maior", diz. O mel produzido por abelhas sem ferrão custa, em média, R$ 60 o quilo. Além do mel bruto, o empreendedor comercializa produtos derivados –como xaropes, xampus e sabonetes– com marca própria, a Amazomel.

O tipo de abelha criada por Fernandes só existe na região amazônica. O regionalismo torna o produto mais raro e valorizado.

"O mel da abelha com ferrão é como se fosse a cerveja e o da abelha sem ferrão, a champanhe. Um é popular e o outro é originário de uma região específica e mais difícil de ser encontrado", diz a coordenadora do Grupo de Pesquisas em Abelhas do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Gislene Zilse.

As receitas dos produtos da Amazomel foram elaboradas por uma farmacêutica da incubadora de negócios do Ifam (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas), na qual a empresa está em fase final de incubação. O envasamento também é feito no laboratório da instituição.

Empresário ajuda famílias ribeirinhas

Outras parcerias já rendem resultados positivos para o empreendedor. Fernandes é parceiro de pelo menos 25 famílias que vivem às margens do rio Amazonas e seus afluentes.

O meliponicultor deixa algumas colmeias com as famílias ribeirinhas, dá um treinamento para elas tomarem conta das abelhas e ele mesmo faz a coleta do mel. Ao final do processo, Fernandes ainda compra toda a produção dos ribeirinhos.

"A reprodução das colmeias fez meu sítio ficar sem espaço para criar mais abelhas. Com a parceria eu aumento minha produção e gero renda para estas famílias", declara.

De acordo com o empreendedor, a maioria dos ribeirinhos era extrativista ilegal. Eles entravam na mata e derrubavam árvores para retirar o mel das colmeias. Em seguida, vendiam o mel com preço abaixo do mercado. "Hoje, eles têm uma renda maior sem causar impacto no ecossistema".

Fernandes afirma que ele mesmo coletou as primeiras colmeias de árvores que eram derrubadas por madeireiros. Mas, depois de frequentar cursos de apicultura e com a experiência na incubadora de empresas, ele se conscientizou e agora atua como um multiplicador do conhecimento.

O empreendedor também trabalha com abelhas africanizadas, conhecidas por serem bastante agressivas e possuírem ferrão. O mel destas abelhas forma uma segunda linha de produtos com preços mais acessíveis.

2 milhões de abelhas operárias

A quantidade de abelhas "trabalhando" para a Amazomel impressiona. Segundo o criador, em cada colmeia vivem entre 4.000 e 6.000 abelhas.

Somadas as colmeias que possui no sítio, as das famílias ribeirinhas e as de produtores associados, o total de abelhas operárias pode chegar a 2 milhões. Juntas, elas produzem cerca de 250 quilos de mel por mês.

Em fase final de incubação, Fernandes quer montar um laboratório próprio e transferir todo o trabalho feito na incubadora para o sítio.

Com a estrutura, o empreendedor terá condições de pedir o Selo de Inspeção Federal, emitido pelo Ministério da Agricultura, e colocar seu produto nas prateleiras das farmácias. Até o momento, a venda é feita apenas em feiras artesanais e no próprio sítio.

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