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Vinho brasileiro é eleito 5º melhor do mundo, mas concursos são confiáveis?

Do UOL, em São Paulo

A notícia de que um espumante brasileiro foi eleito o quinto melhor vinho do mundo pela Associação Mundial de Jornalistas e Escritores de Vinhos e Destilados (WAWWJ) foi bastante comentada por especialistas e pelo público em geral.

O Casa Perini Moscatel, da vinícola Perini, produzido na Serra Gaúcha, foi o espumante mais bem posicionado do mundo. Além do prêmio, chamou atenção o preço cobrado pela garrafa, segundo informado pela vinícola: R$ 43,50.

Após a divulgação, alguns conhecedores relativizaram a importância desses concursos, afirmando que os rótulos famosos e tradicionais não participam da disputa. Por exemplo, o colunista da "Folha" Luiz Horta elogiou a bebida e a produção brasileira de espumantes, mas disse que "não existe melhor vinho do mundo".

Afinal, esses concursos são confiáveis? O UOL ouviu dois especialistas.

'É que nem concurso de miss'

Arthur Piccolomini de Azevedo, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo, afirma que concursos do tipo são "marketing" e "bobagem". Assim como Luiz Horta, ele diz que não existe "o melhor vinho do mundo".

"É que nem concurso de miss. Aquela mulher que está lá é a mulher mais bonita do mundo? Não é, né? Com vinho, funciona do mesmo jeito", diz.

Ele elogiou o espumante da vinícola Perini, mas disse que o rótulo está longe de ser o quinto melhor do mundo.

"Esse vinho é ótimo, dentro da sua perspectiva, dentro do grupo de vinhos moscatel", diz. "Mas está muito longe de ser o quinto melhor vinho do mundo. Muito longe. A distância daqui para a lua para ser o quinto melhor vinho do mundo."

'É como prêmio de melhor jogador do mundo'

REUTERS/Ruben Sprich

Edegar Scortegagna, presidente da Associação Brasileira de Enologia, defende a realização de concursos e diz que são confiáveis, mas ressalva que só competem os vinhos inscritos, e muitas vinícolas optam por ficar de fora.

"É relativo falar o 'melhor vinho do mundo'. É o melhor entre os que estão competindo", afirma. "É como o prêmio de melhor jogador de futebol do mundo. É o melhor dos que estão competindo ali. Pode ser que tenha um atleta com potencial gigante, mas desconhecido, que não participa." 

Ele afirma que participa de concursos como jurado, e que a Associação Brasileira de Enologia promove concursos nacionais e internacionais.

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Grandes vinhos ficam de fora

Azevedo questiona os concursos justamente porque as vinícolas mais renomadas do mundo não têm interesse em participar e não inscrevem seus rótulos. Portanto, grandes vinhos ficam de fora da avaliação.

"[Na lista] não tem um grande bordeaux, um grande borgonha, um grande champanhe", afirma o especialista, citando regiões francesas famosas por seus vinhos. "Dos vinhos mais caros do mundo, quantos estão nessa lista? Nenhum."

"Fica uma amostra extremamente diminuta do universo do vinho. Os vinhos de melhor qualidade não estão contemplados, porque não entram [na disputa]", diz.

Vinícolas vendem mito e glamour

Getty Images

Segundo Scortegagna, essas vinícolas escolhem não participar porque não vendem apenas o vinho.

"[Elas] não têm interesse porque não vendem só vinho. Vendem mito, vendem história, vendem glamour. Claro que esses vinhos têm qualidade, mas não interessa isso [ganhar concursos] para elas venderem", afirma. "E pode ser que, se enviarem, em algum momento podem perder para uma vinícola desconhecida."

Ele diz, ainda, que muitas escolhem não participar por questões de mercado, já que o público que querem atingir não liga para concursos.

"Outras vinícolas não estão nem aí para isso porque a faixa de consumidor que ela quer atingir não quer comprar vinho pela nota. Ele compra porque conhece a vinícola, porque conhece o histórico, sabe como se elabora o vinho lá", afirma.

Uma delas é a gaúcha Luiz Argenta, onde Scortegagna é enólogo. Ele diz que a vinícola tem uma política de não participar de concursos por ser "de nicho". "É uma vinícola pequena, só atinge nicho, [um cliente] que não está em busca de pontuação, de crítico etc.", afirma.

Métodos de avaliação são bons?

Kirsty Wigglesworth/AP

Além de questionar a ausências de muitos produtos renomados, Azevedo critica a metodologia de muitos concursos. Ele afirma que já participou de premiações como jurado, mas que não aceita mais convites.

"Uma vez fui jurado em um concurso no Chile. Os caras me deram 60 amostras [de vinho para provar] de manhã e 60 amostras à tarde. É humanamente impossível avaliar com técnica", conta.

Scortegagna diz que nunca recebeu tantas amostras nos concursos em que participou. "Existem vários tipos de concursos, mas, nos que conheço e participo como jurado, não se degusta mais do que 25, 30 vinhos por dia", diz. Para ele, esse número é "tranquilo" para fazer análises.

O enólogo diz, também, que os concursos de que participa e os organizados pela Associação Brasileira de Enologia seguem normas metodológicas da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) e da UIOE (União Internacional dos Enólogos), para garantir que sejam confiáveis e justos.

Ele diz que não conhece especificamente a organização da lista ou a metodologia da WAWWJ, mas elogia a vinícola Perini. Azevedo, porém, critica a lista da WAWWJ.

O ranking é elaborado com base em vários concursos mundiais de bebidas. Dependendo da importância desses concursos e a posição que os rótulos ocuparam, os vinhos recebem pontos. Esses pontos, somados, determinam a lista da WAWWJ.

Essa diversidade de concursos usados para comparar vinhos, inclusive de tipos diferentes, é criticada por Azevedo. "Os concursos são diferentes, os jurados são diferentes, as circunstâncias [de avaliação], diferentes."

Comprar premiados ou não?

Getty Images

E o consumidor leigo, como fica? Scortegagna defende que o prêmio é um bom parâmetro na hora de comprar uma garrafa, quando não se conhece o assunto com profundidade.

"Um vinho ruim não vai ganhar um prêmio, isso é certo. Independentemente de onde for", afirma. "Um vinho bom, ótimo, que estiver premiado, o consumidor pode comprar tranquilamente da prateleira do supermercado que não vai ter problema nenhum."

Ele diz, porém, que existem "outros vinhos de excelente qualidade que não têm nota" em concursos.

Para Azevedo, os concursos podem estabelecer um "relacionamento meio neurótico com o consumidor", que fica buscando vinhos premiados. Segundo ele, muitas vezes, as lojas passam a cobrar mais caro depois que os vinhos ganham prêmios.

"A gente briga muito para que as pessoas provem todos os vinhos sem preconceito. Tem que ter mente aberta, diversidade", afirma.

Como Faz? Quatro maneiras para abrir um vinho sem saca-rolha

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