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Doleiros viram notícia com Lava Jato; afinal, quem são e o que fazem?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Natalia Gómez

Colaboração para o UOL, em Maringá (PR)

20/05/2018 04h00

Doleiros estão todos os dias na mídia em meio a escândalos milionários envolvendo políticos brasileiros, pois são eles que escondem o dinheiro obtido de forma criminosa. Isso costuma ser feito por meio de envio de dinheiro para o exterior sem nenhum tipo de registro, e dá prisão de dois a seis anos e multa.

Mas nem todo doleiro é associado a crimes políticos tão escandalosos quanto os investigados pela operação Lava Jato, da Polícia Federal. Para ser chamado de doleiro, basta atuar no mercado de câmbio sem ter a autorização do Banco Central e sem o devido registro das operações.

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Personagens cada vez mais conhecidos do público, os doleiros são profissionais especializados no complexo mercado de câmbio, que muitas vezes atuam também no mercado formal, usando operações legais para encobrir suas atividades no mercado paralelo.

Para isso, contam com uma ampla rede de contatos que operam por meio de trocas de favores e desenvolvem uma clientela fiel e cativa ao longo dos anos, que conta com a confiança de ambas as partes para fazer as suas operações.

Atuam também em casas de câmbio normais

Diferentemente do que se pode imaginar, eles não se escondem, mas estão também no mercado formal de câmbio, dentro de casas de câmbio, corretoras de câmbio e agências de viagens, segundo profissionais do mercado de câmbio consultados pelo UOL.

Da mesma maneira, o famoso doleiro Alberto Youssef, primeiro delator da Lava Jato, operava em sua casa de câmbio em Brasília, dentro de um posto de gasolina.

“Hoje, parte das casas de câmbio regularizadas faz um grande volume sem ser registrado, sem apresentar o CPF ou declarar a origem de recursos”, afirma Lucas Rech, sócio da casa de câmbio Ideal, em Porto Alegre (RS). Ele diz que, na região Sul, próximo à Tríplice Fronteira, muitos doleiros trazem quantidades grandes de dólar dos países vizinhos para vender ao cliente final no Brasil ou a casas de câmbio legalizadas.

Caixa 2 até em empresas de turismo

Outro exemplo são profissionais que atuam legalmente no mercado de câmbio oficial e do turismo, mas possuem um caixa 2 para quem deseja operação sem nota. “Na verdade, eles próprios preferem, pois é por onde realizam seus maiores lucros”, declara o diretor da assessoria de câmbio GC Prime Câmbio Inteligente, Gustavo Candiota.

Em várias regiões do país, empresários de agências de viagens oferecem pacotes turísticos e câmbio oficial, mas também atuam como doleiros de confiança para clientelas locais.

Transferência internacional de dinheiro sem registro

Além da compra e venda de moeda em espécie, uma transação comum do mercado paralelo de câmbio é a transferência internacional sem registro, que é conhecida informalmente no mercado como “dólar-cabo”.

De acordo com a Associação Brasileira das Corretoras de Câmbio (Abracam), os profissionais que praticam atividades ilegais não estão em um setor específico e costumam migrar entre diferentes operações ao longo do tempo.

“Eles vão criando alternativas para alimentar o mercado informal e procuram fazer o fluxo de moeda, mas não em algum segmento específico. Se veem alguma brecha, eles vão entrar”, afirma Wilson Nagem, presidente da entidade.

Compra de dólar no câmbio negro era comum

Embora essa profissão ilegal nunca tenha chamado tanta atenção como agora, ela já foi muito mais comum nos anos 1980, quando a classe média tentava se proteger da inflação guardando dólares em casa e não existia cartão de crédito internacional para as viagens no exterior.

Naquela época, a atividade dos doleiros era mais comum e menos controlada.

“Hoje, não há tanto isso de comprar com o doleiro 'Zé da Esquina'. Ele se regularizou ou saiu do mercado. Os que se regularizaram fazem as operações registradas e também as sem registrar, então, ele não é visto como o doleiro dos anos 80, mas ainda faz o serviço sem registrar a operação”, afirma Rech.

Segundo Nagem, muitos doleiros que atuavam naquela época continuam no mercado. Uma evidência disso é a operação Câmbio, Desligo, deflagrada no início deste mês para prender 53 pessoas, que teve entre seus alvos personagens como Dario Messer, considerado um dos maiores doleiros do país desde a década de 1990, e agora está foragido.

“Muitos presos nesta operação já são conhecidos do poder Judiciário, fizeram delação e voltaram para o mercado”, afirma Nagem.

Dinheiro de doleiro pode ser falso e ligado ao crime

As empresas que atuam dentro da lei no mercado de câmbio têm comemorado a exposição do assunto do câmbio ilegal na imprensa, como a prisão de doleiros nas operações da Polícia Federal, segundo o presidente da Abracam. “Quando acontecem essas ações policiais, é ótimo para nós, porque evita concorrência desleal e mostra que as autoridades estão atuantes”, afirma.

Embora seja considerado normal por algumas pessoas, comprar moeda no mercado negro envolve riscos, como a compra de cédulas falsas e o envolvimento com dinheiro que é utilizado em atividades de tráfico, sonegação e outros crimes.

As operações de câmbio no Brasil devem ser feitas exclusivamente por meio de instituição bancária ou agente autorizado pelo Banco Central. A lista está disponível no site do Banco Central.

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