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Bolsonaro e Trump têm mais ideias diferentes ou parecidas na economia?

Arte/UOL
Trump Bolsonaro Imagem: Arte/UOL

Vinicius Pereira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

01/11/2018 04h00

Durante a campanha presidencial brasileira, foram destacadas pela imprensa internacional as semelhanças entre o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), e o presidente dos EUA, Donald Trump. Bolsonaro foi até chamado de "Trump tropical".

Mas, para além da retórica do confronto e antissistema, da fala sem rodeios, do enfrentamento com a mídia e do uso das redes sociais utilizados por ambos, Bolsonaro parece um pouco distante de Trump em suas propostas sobre a condução econômica, na avaliação de especialistas.

Isso porque, enquanto Trump promete priorização da indústria nacional e geração de emprego local por meio de barreiras tarifárias e do retorno dos investimentos aos EUA, Bolsonaro prefere o liberalismo, a diminuição do Estado brasileiro, a facilitação do comércio internacional e a redução de barreiras tarifárias como forma de o país recuperar um crescimento satisfatório.

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Trump adotou políticas contra importações

Eleito com o mote "Make America Great Again" (Faça a América Grande Novamente), Trump tinha um discurso protecionista enquanto candidato. Ou seja, ele prometia uma proteção da indústria e do comércio local em detrimento do exterior, utilizando a taxação de produtos importados como forma de garantir uma vantagem aos produtos fabricados nos EUA.

Como presidente, Trump está se mantendo fiel ao discurso do candidato. Não à toa o governo americano iniciou uma guerra comercial com a China -um dos países que mais vendem aos EUA.

Nesse meio tempo, os americanos já anunciaram penalidades de cerca de US$ 450 bilhões em retaliações e aumento de tarifas sobre produtos fabricados no concorrente asiático, o que pode diminuir o comércio entre as nações.

“Trump tem se apropriado da política econômica de proteção. Ele está preocupado em garantir o que acredita ser uma proteção interna, principalmente na região centro-oeste americana, muito prejudicada pela globalização”, afirmou Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Veto a imigrações afeta mercado de trabalho

“Então o discurso do Trump sobre a política comercial é de fechamento das portas. Ele também quer proibir a mobilidade de capital humano. Assim, prega uma mudança de política migratória, afetando o mercado de trabalho e produtividade”, afirmou ela.

Com a perda de competitividade dos produtos made in China e, consequentemente, o aquecimento das indústrias sediadas nos EUA, Trump espera que a economia americana volte a gerar empregos de qualidade, principalmente em regiões que perderam postos de trabalho para outros países e onde a população rejeita a disputa dessas ocupações com imigrantes.

Além disso, as recentes disputas do presidente com o FED, o banco central americano, mostram que Trump pode fazer com que o Estado intervenha cada vez mais na política econômica do país, algo inimaginável para o partido Republicano (do qual Trump faz parte) alguns anos atrás.

Até agora, entretanto, os ataques de Trump não tiveram um impacto perceptível no Fed, que vem se atendo ao plano de elevações graduais dos juros para níveis que considera mais apropriados.

No Brasil, a proposta é se abrir ao exterior

Enquanto Trump foi eleito com essa plataforma protecionista, Bolsonaro preferiu caminhar pelo outro lado. Durante a campanha, o deputado pregou o liberalismo econômico, plataforma defendida pelo futuro ministro da Fazenda e seu guru econômico, Paulo Guedes, com uma menor intervenção do Estado nas decisões econômicas.

É preciso deixar claro, no entanto, que os EUA já têm um papel muito menor do governo na economia. “A economia americana já é muito mais liberal de fato do que a brasileira. No Brasil, temos muito dinheiro carimbado constitucionalmente, ou seja, o Orçamento tem pouco espaço para qualquer coisa. Isso não permite uma margem maior de manobra como nos EUA”, afirmou Leandro Consentino, cientista político do Insper.

Portanto, para a dupla Guedes e Bolsonaro, o Brasil deve se abrir para investimentos, desburocratizar o Estado para conseguir, então, uma janela de oportunidades, aproximando-se da política americana anterior ao governo americano atual. “É uma narrativa antagônica a Trump”, disse Fernanda.

Em seu plano de governo, Bolsonaro indica facilitar o comércio internacional. "Propomos, assim, a redução de muitas alíquotas de importação e das barreiras não tarifárias, em paralelo com a constituição de novos acordos bilaterais internacionais", diz o documento.

A medida, em tese, abriria o país a produtos importados, fazendo com que as indústrias nacionais sejam obrigadas a aumentar a produtividade para concorrer no mercado.

Privatização de empresas estatais

Além das facilidades ao capital estrangeiro, Bolsonaro também defende a privatização de empresas estatais, apesar de não mencionar quais companhias estariam à venda. Foi essa possibilidade de privatização que agradou o mercado financeiro. A Bolsa brasileira, por exemplo, vem subindo.

“Ações como Banco do Brasil e Petrobras tiveram altas expressivas, e toda essa movimentação foi causada pelo discurso mais liberal, de privatização, e da reforma da Previdência. O mercado comprou esse discurso”, disse Ivan Kraiser, gestor-chefe, da Garín Investimentos.

A desconfiança, contudo, reside no histórico como deputado de Bolsonaro. Enquanto esteve na Câmara, foi contra reformas, votou por aumentos dos gastos públicos e contra as grandes privatizações dos anos 1990.

“Na campanha, Bolsonaro se transformou no arauto do liberalismo. Se o casamento com Paulo Guedes for duradouro, ele, de fato, será diferente de Trump. Agora, se o casamento tiver problemas, as brigas de casal serão bastante ruidosas, e já assistimos a um pouco disso na campanha. Guedes poderá ser desautorizado pelo presidente”, disse Consentino.

“A trajetória dele sempre mostrou uma coisa muito mais parecida com o que Trump vendeu na campanha, intervencionista na economia. Por isso, todos ainda estão tateando para onde vai Bolsonaro”, afirmou ele.

Cortar impostos é um ponto comum de Bolsonaro e Trump

Mas nem só de diferenças vivem Bolsonaro e Trump na condução da economia. Há também alguns pontos de convergência e, talvez, o maior deles seja a promessa da diminuição de impostos.

Em dezembro do ano passado, Trump anunciou cortes de tributos que, juntos, chegaram a US$ 1,5 trilhão. Agora, afirmou querer um corte de cerca de 10% nos impostos cobrados de pessoas com renda média.

Enquanto isso, Bolsonaro afirmou que irá reduzir a carga tributária brasileira. Isentar da cobrança de Imposto de Renda o trabalhador que ganha até cinco salários mínimos, além da criação de um imposto único sobre transações financeiras para substituir outros e de uma desoneração da folha de pagamentos.

“Trump promoveu uma redução em massa dos tributos, o que pode soar até como controverso, porque ele está aumentando o gasto público e pode estar entrando em uma crise fiscal”, afirmou Fernanda. “Ao menos do ponto de vista retórico, é o que Bolsonaro promoverá no Brasil. O corte de impostos é convergência entre os dois”, disse.

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