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MPT: 1/3 dos casos de coronavírus no RS são de empregados de frigoríficos

Ueslei Marcelino/Reuters
Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Porto Alegre

02/06/2020 12h21

Os trabalhadores de frigoríficos correspondem a 34% do total de casos oficiais de coronavírus no Rio Grande do Sul. Ao todo, 3.201 funcionários de 24 unidades, localizadas em 18 municípios, testaram positivo para a doença, segundo levantamento do Ministério Público do Trabalho (MPT-RS). No estado foram registrados até ontem 9.332 casos oficiais e 224 mortes.

Segundo a procuradora do MPT Priscila Dibi Schvarcz, os 28 municípios do estado com maior índice de casos por 100 mil habitantes são sedes de frigoríficos ou abrigam moradia de trabalhadores do setor. Na lista constam 13 empresas, entre elas a BRF, dona da Sadia e da Perdigão, e a JBS, dona da Seara e da Friboi —a empresa diz que nenhuma unidade do RS produz para a marca Friboi.

A BRF registrou casos positivos de coronavírus em funcionários nas cidades de Marau, Lajeado e Serafina Corrêa, de acordo com o MPT. A JBS tem casos da doença nas unidades de Passo Fundo, Três Passos, Seberi, Trindade do Sul, Caxias e Garibaldi.

Procurada pelo UOL, a BRF afirmou que, desde o início da pandemia, adota uma série de práticas de proteção dos funcionários, incluindo a testagem nas unidades. A JBS disse que "adotou um rigoroso protocolo de prevenção, seguindo todas as recomendações dos órgãos de saúde e também do protocolo dos Ministérios da Saúde, Agricultura e Economia".

Testagem em massa nos frigoríficos

Entre os principais fatores que auxiliam a propagação do vírus nos frigoríficos, conforme a procuradora, estão a grande quantidade de trabalhadores em uma mesma área, o transporte dos trabalhadores e a falta ou pouca renovação do ar.

O MPF chegou ao total de 3.201 casos positivos de coronavírus após realizar uma testagem em massa nas unidades. Os dados diferem dos divulgados pelo governo estadual no último boletim da Secretaria Estadual da Saúde, na sexta-feira (26), no qual constam apenas informações de "surtos de síndrome gripal em empresas". No balanço do governo estadual, foram identificados 842 funcionários contaminados em 23 frigoríficos de 17 municípios.

Até 500 contaminados por unidade

A procuradora afirmou que o MPF encontrou até 500 trabalhadores contaminados por unidade. "Nós temos muitos trabalhadores assintomáticos [que não apresentam sintomas]. Então não sei qual o delay [atraso] dessa informação, porque o boletim [epidemiológico do governo do Estado] é muito diferente do que acontece na prática", disse.

Priscila defendeu que as empresas implementem rotinas de testagem periódica, de rastreamento e de triagem dos trabalhadores com sintomas para que o número de casos de coronavírus seja reduzido. Além disso, enfatizou a importância de o sistema nacional de notificação de casos de coronavírus informar o local de trabalho dos contaminados.

"É inadmissível que esse sistema de notificação de casos de covid-19 não abra espaço para identificação do local de trabalho das pessoas, porque esse é um dado epidemiológico muito relevante. Não há como fazer epidemiologia sem saber onde a pessoa passa a maior parte do seu dia, que é no ambiente de trabalho", disse.

O UOL procurou o Ministério da Saúde para saber se o órgão gostaria de se manifestar sobre as críticas feitas pela procuradora. A resposta será incluída assim que chegar.

Dona da Sadia diz que segue práticas de proteção

Em nota, BRF informou que foi a primeira do setor a assinar voluntariamente um compromisso junto ao MPF, em nível nacional, que endossa práticas de proteção aos colaboradores que já vinha adotando.

"Desde o início da pandemia, a BRF vem implementando uma série de ações protetivas em todas as suas operações, contando com um Comitê Permanente de Acompanhamento Multidisciplinar, composto por executivos e especialistas, como o infectologista Esper Kallas, além da consultoria do Hospital Israelita Albert Einstein", disse a empresa.

Entre as medidas protetivas, a companhia informou que tem utilizado testagem em suas unidades. "Vale ainda ressaltar outras iniciativas, como o uso obrigatório de máscaras e demais EPIs, recomendados para proteção contra a covid-19, distanciamento mínimo entre funcionários, afastamento de colaboradores com sintomas gripais ou casos suspeitos, busca ativa de potencial contaminação, reforço de higienização em diversas áreas e nos veículos de transporte, vacinação contra gripe e atendimento médico 24 horas, sete dias por semana. Além disso, quando surgem sintomas suspeitos, a empresa não espera a aplicação do teste rápido para fazer o RT-PCR [um tipo de teste], de forma a reduzir risco de contaminação", disse.

Dona da Friboi afirma que segue protocolo de autoridades

Também em nota, a JBS informou que, desde o início da pandemia, "tem se pautado pelo absoluto foco na saúde, segurança e proteção dos seus mais de 130 mil colaboradores". A empresa disse que vem atuando em conjunto com as autoridades públicas no enfrentamento à covid-19 e que "adotou um rigoroso protocolo de prevenção seguindo todas as recomendações dos órgãos de saúde e também do protocolo dos Ministérios da Saúde, Agricultura e Economia".

A dona da Friboi informou ainda que conta com a consultoria clínica de especialistas do Hospital Albert Einstein e de médicos infectologistas que orientaram a empresa na definição das ações implantadas em suas unidades. Entre as ações adotadas estão o afastamento de todos os colaboradores do grupo de risco e também os que tenham indicação médica, monitoramento integral de 100% dos colaboradores, medição de temperatura antes do acesso às unidade, ampliação da frota de transporte e demarcação de assentos garantindo distanciamento seguro entre os passageiros, entre outros.

A JBS esclareceu ainda que, de acordo com esse protocolo, em caso de teste positivo de covid-19 em uma unidade, "cumpre com todas as medidas previstas, afastando os colaboradores conforme indicação médica e monitorando 100% da equipe da planta. Também é realizada a desinfecção adicional e geral da unidade".

Economia