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Para FHC, pandemia ofuscou Guedes: "Se tiver consciência, vai pedir o boné"

Do UOL, em São Paulo*

08/06/2020 12h01Atualizada em 08/06/2020 14h49

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou, em participação ao UOL Entrevista, que ser chefe do Executivo tem um "peso enorme" e ele não gostaria de estar na posição neste momento de instabilidade no Brasil. Além disso, ele afirmou que acredita na saída do ministro da Economia, Paulo Guedes.

"Tem ideias fixas, que não combinam com o momento atual. É um momento que vamos gastar muito para ajudar. Ele próprio daqui a pouco, se tiver consciência, vai 'pedir o boné'", explicou o ex-presidente, que reconheceu a competência do ministro em sua vida profissional, mas acredita que não seja o momento adequado para a sua condução na pasta.

"O Paulo Guedes tem uma virtude, é competente na área dele. Agora, a meu ver, ele não tem noção do Brasil. Eu não o conheço, mas vejo o comportamento dele na Câmara. Ela é perigosíssima. Quem não a conhece, escorrega", disse FHC, ressaltando que Guedes tem seriedade, mas está em uma "posição inadequada" para colocar em prática sua agenda.

Para ele, o quadro brasileiro mostra que o ano terá um aumento da inflação. "O endividamento do Brasil comparado com outros países é baixo, agora vai chegar a 90% do PIB. A Itália ultrapassa isso. A inflação não deriva só de endividamento. O fato de defender que o governo acuda (as pessoas atingidas pelo coronavírus) não quer dizer que eu defenda que o governo seja irresponsável. Tem que dar dinheiro de uma maneira inteligente, no mundo inteiro está acontecendo", explicou.

O tucano voltou a afirmar que espera que o governo ajude a diminuir a desigualdade social. "Estamos vendo agora quem estão morrendo em massa: os negros, os pobres. Quem é rico está em casa, está bem. Agora e quem mora na favela? Essa desigualdade é muito grande no Brasil, tomara que o coronavírus sirva pelo menos para despertar a noção de que não é natural. Não se pode aceitar a desigualdade", apontou.

Na conversa conduzida pelos colunistas do UOL Thais Oyama e Tales Faria, FHC ainda disse que o atual presidente, Jair Bolsonaro (sem partido), ainda não compreendeu a magnitude de sua função.

"Minha observação mais dura que eu posso fazer, ele não sabe o tamanho da cadeira na qual está sentado, não sabe que o presidente, a voz do presidente, tem um peso enorme. É difícil ser presidente. Você pensa que eu queria estar no governo agora? Deus me livre. Crise econômica, pandemia, confusão política. Quem é que vai ser responsabilizado? É o presidente, pelo bem e pelo mal", disse.

Em sua avaliação, Bolsonaro erra ao mudar a forma de divulgação dos dados do novo coronavírus no Brasil e também condenou o fato de ele tornar secretas as razões dos vetos presidenciais. "É uma bobagem", avaliou o tucano.

Imagem no exterior

Na entrevista, Fernando Henrique Cardoso ainda fez comentários sobre outros atuais ministros do governo, como Abraham Weintraub, da Educação. "Eu não teria nomeado nunca para ministro da Educação. Eu não vejo propósito. Pode ser que ele tenha, mas eu não vejo", disse.

O ex-presidente ainda demonstrou preocupação com a condução da política externa, comandada pelo chanceler Ernesto Araújo, e com o Meio Ambiente, com Ricardo Salles à frente da pasta.

"A imagem que está sendo montada do Brasil e que corresponde infelizmente a práticas aqui é uma imagem negativa e tem consequências. Questão de meio ambiente custou muito avançar, isso para mim é uma questão clara. Nos anos 70 já estava metido nessas discussões. Acho que tem que olhar a questão do meio ambiente com mais preocupação, Tínhamos avançado, agora você vê o contrário", disse.

"Nossa tradição diplomática sempre foi o Brasil de negociador. Agora o Brasil passa a ser não negociador, antes de qualquer assunto está do lado do Trump", completou. E, em sua avaliação, o presidente dos EUA sempre defenderá o seu país, antes de outra nação. "O Trump quando fala está pouco ligando para o Brasil, America first (EUA em primeiro). O Brasil deve fazer a mesma coisa, Brasil first", analisou.

'Inútil esconder dados da pandemia'

FHC criticou as recentes atitudes do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de alterar a divulgação dos dados sobre os casos de coronavírus no Brasil e também a decisão de mexer nos vetos presidenciais.

"O brasileiro precisa saber a realidade. Quem toma decisão precisa da informação", disse FHC.

Na semana passada, o governo passou a atrasar a divulgação dos dados sobre o coronavírus das 19h para as 22h. Além disso, as entrevistas que eram concedidas diariamente sobre o tema passaram a não ter a mesma frequência. O site que divulga os dados também chegou a sair do ar, assim como o Portal da Transparência.

No fim de semana, o Ministério da Saúde divulgou que mudará a forma de divulgação dos casos e passará a informar os casos ocorridos por dia, e não pelos registros das últimas 24 horas, como vinha ocorrendo, e sem o total acumulado de casos e óbitos no país.

Questionado sobre o assunto, FHC criticou a atitude.

Vejo como um erro, é inútil hoje com a rede social. Acaba todo mundo sabendo. É preciso a gente saber a realidade. Quem toma decisões, precisa ter informação.

"A morte das pessoas é uma informação importante", diz FHC

Segundo o ex-presidente, a tentativa do Ministério da Saúde de recontar os mortos é "um desrespeito a quem está sofrendo".

Ele defendeu que a imprensa e os cidadãos tenham acesso aos dados do governo federal. "Cortar dados está errado. Tem dados que são mais discretos, isso é uma coisa. A morte de pessoas é informação importante, é um desrespeito a quem está sofrendo", completou.

O tucano ainda explicou que outra medida tomada pelo governo o preocupa. "Me assustou agora, eu vi nos jornais, não apenas a questão da covid, que já é grave, mas a preocupação em tornar secreta a motivação dos vetos presidenciais. Se veta, tem que dizer porque veta. Senão como o Congresso vai votar?", questionou o ex-presidente.

Hoje, a CGU (Controladoria-Geral da União) mudou as regras e tornou secreto os pareceres jurídicos que orientam a Presidência a vetar ou aprovar projetos do Congresso.

Lula não assinar manifesto "é bobagem", afirma tucano

FHC afirmou que o seu sucessor como presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), erra ao se recusar a assinar um movimento contra o governo Jair Bolsonaro. Ele classificou como uma "bobagem" a atitude de Lula de não incluir a sua assinatura no movimento Estamos Juntos, por causa do apoio de Fernando Henrique e do ex-presidente Michel Temer (MDB).

O tucano disse que o líder petista às vezes é intransigente e deveria ser menos radical neste ponto.

Conheci o Lula antes das greves. Uma vez foi lá ao Palácio, ele me atacava muito com 'Fora FHC', essas coisas. Lula era candidato e tinha slogan 'Lulinha paz e amor'. O Lula como pessoa é uma coisa, ele como líder às vezes é intransigente. Diz que não assina porque eu e Temer assinamos. Bobagem. Temos que estar juntos, há um risco maior. Mas o Lula pessoalmente não é assim.

O ex-presidente afirmou que também não se recusaria a participar de atos em defesa de democracia ao lado do petista. "Não tenho qualquer problema. Já participamos do Dia do Trabalho (que foi feito virtualmente)", destacou.

"Deus me livre" estar no governo agora, diz ex-presidente

Na entrevista, o ex-presidente ainda fez uma comparação com o atual presidente Jair Bolsonaro, para ele mais radical.

"Bolsonaro não conheço, mas tenho a sensação de que é mais radical. O Lula não é radical, sempre foi homem da negociação", disse.

FHC destacou ainda que esse é um péssimo momento para ser presidente da República, e que Bolsonaro não têm noção da importância do cargo que ocupa.

Ele não sabe o tamanho da cadeira na qual está sentado, não sabe que o presidente, a voz do presidente, tem um peso enorme. É difícil ser presidente. Você pensa que eu queria estar no governo agora? Deus me livre. Crise econômica, pandemia, confusão política. Quem é que vai ser responsabilizado? É o presidente, pelo bem e pelo mal.

FHC se diz contra impeachment de Bolsonaro

FHC confirmou, mais uma vez, que é contrário aos pedidos de impeachment do atual presidente.

Não defendo impeachment do Bolsonaro por razões históricas, agora quem está cavando o fosso é ele. Daqui a pouco não tem jeito.

Para o ex-presidente, o ideal é esperar novas eleições. "Se chegar a eleição é melhor, porque é democracia, o povo decide".

FHC diz acreditar que é necessário um cenário para que aconteça o impeachment. "Há razões alegadas que o presidente transgrediu, mas não basta isso. O impeachment não pode ser um ato político de um grupo. No caso da Dilma (Rousseff, do PT), foram criadas as condições", afirmou.

Apesar de citar o impeachment sofrido pela petista em 2016, que teve o apoio do tucano, FHC lembrou que a ex-presidente não saiu por corrupção. "A Dilma, que eu saiba, nunca se meteu em corrupção, sempre me tratou bem", disse. A petista deixou o cargo por causa de "pedaladas fiscais".

Artigo 142 não é tutela militar, diz Fernando Henrique

O ex-presidente afirmou que o artigo 142 da Constituição. do qual afirmou ser coautor, pode ser usado por qualquer um dos Poderes para garantir lei e ordem, mas que isso não significa tutelar militar. Apoiadores do presidente Bolsonaro evocam o artigo para pedir intervenção das Forças Armadas no Congresso Nacional e no STF (Supremo Tribunal Federal).

"Sou coautor do artigo 142. Sob a invocação de qualquer um dos três Poderes, para garantir a lei e a ordem, os militares podem intervir", afirmou o ex-presidente que participou da construção do texto constitucional.

Cardoso explicou que o artigo não foi redigido para promover algum tipo de tutela militar. "Ninguém pensava em tutela militar, ao contrário. Isso é uma leitura fascista, contra o espírito da Constituição", enfatizou.

Para FHC, a Constituição é clara ao determinar "cada macaco no seu galho".

Participaram desta cobertura Beatriz Sanz, Flávio Costa, Fabio Regula, Guilherme Mazieiro e Stella Borges (redação) e Diego Henrique de Carvalho (produção).

Economia