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Comércio reabre, mas cliente está sem dinheiro, e lojas temem mais falência

João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

18/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Lojas de rua e de shopping dizem que vendas na reabertura estão abaixo do esperado
  • Medo do desemprego e da covid-19 afastam consumidores, afirmam lojistas
  • Com abertura limitada a 4h/dia, lojista não paga custos, dizem comerciantes

A reabertura do comércio em São Paulo, maior cidade do país, após quase três meses de quarentena contra o coronavírus, está frustrando os empresários. Lojistas de shopping centers e de rua dizem que as vendas desde 10 de junho mostram que o consumidor está mais avesso às compras que o esperado.

Segundo líderes das principais entidades do comércio da capital paulista, o desemprego, o receio da perda da renda e o medo de contrair a covid-19 estão atrapalhando. Se isso não mudar logo, vai haver mais falências no setor, dizem.

Depois de quase 90 dias de comércio fechado, a reabertura foi um alento, porque ainda deu para pegar um pouco do dia dos namorados. Mas ainda ficou muito longe do que era esperado
Alfredo Cotait Neto, presidente da Associação Comercial de São Paulo

Dia dos Namorados ficou 55% abaixo

Segundo o representante do comércio paulistano, em abril e maio, as vendas estavam cerca de 67% abaixo do mesmo período em 2019.

"Depois da reabertura, comparando o dia dos namorados de 2020 com o de 2019, as vendas ainda ficaram uns 55% abaixo", disse. "E as vendas estão muito concentradas em alguns setores, como primeiras necessidades ou telefonia, que virou necessidade nesses dias", afirmou.

Medo do desemprego

"As vendas ficaram aquém do que a gente esperava", disse o diretor e membro do conselho da Univinco (União dos Lojistas da Rua 25 de Março e Adjacências), Eduardo Ansarah. A entidade representa 4.500 lojas em ruas do comércio popular paulistano.

É nítido que as pessoas estão preocupadas com as contas a pagar. Quem perdeu o emprego se pergunta como vai sair do atoleiro. Ele só compra o necessário.
Eduardo Ansarah

O pessoal não está com dinheiro na mão.
Fauze Yunes, diretor da Alobrás (Associação dos Lojistas do Brás)

A Alobrás representa 20 mil estabelecimentos comerciais de um bairro em São Paulo tradicional pela comercialização de confecção, calçados, bijuterias, cama, mesa e banho, acessórios e bolsas.

Limite de 4 horas afeta shopping

Os comerciantes dizem que a regra que limita a quatro horas o funcionamento das lojas cria dois problemas: não cobre os custos fixos do negócio e provoca mais aglomeração.

"Com quatro horas de funcionamento, o lojista vai abrir sabendo que vai ter prejuízo, porque se vender 15% ou 20% do que costumava vender, não paga nem os funcionários que estão trabalhando", afirma o presidente da Ablos (Associação Brasileira dos Lojistas Satélites), Tito Bessa, que representa os comerciantes de shopping centers.

"Shopping é praticamente um hospital"

"O movimento no último fim de semana foi abaixo do esperado, apesar de ter sido o do dia dos namorados", confirma o presidente da Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping), Nabil Sahyoun, que representa as redes e cadeias de lojistas que atuam também em shopping centers.

"A gente preparou um verdadeiro hospital nos shopping centers para garantir a segurança das pessoas, uma situação mais segura que na rua. Mas as pessoas estão com medo de sair de casa", disse.

Segundo Sahyoun, outro fator ruim nos shoppings é que praça de alimentação e entretenimento continuam fechados.

Excursões de clientes de madrugada

O limite de quatro horas para funcionamento das lojas também é um entrave no comércio de rua.

Na região do Brás (centro), onde o comércio recebia uma média de 400 mil pessoas por dia antes da pandemia, boa parte do movimento é garantida pelas excursões de pequenos lojistas que compram na capital paulista para revender em outros locais.

"Recebemos em média 300 ônibus vindos de todo o país. Eles chegam de madrugada. Com o horário limitado, não tem como esse cliente se planejar para fazer as compras", afirma o representante da Alobrás, Fauze Yunes.

Na verdade, imagens da imprensa têm mostrado estabelecimentos no centro abrindo mais cedo do que o horário permitido para atender a esse público.

Ambulantes fazem aglomeração nas ruas

Os comerciantes tanto de shoppings como de rua criticam a falta de fiscalização para impedir as aglomerações.

Dizem que tomam as medidas de segurança determinadas pela prefeitura: uso de máscaras e fornecimento de álcool em gel a funcionários e clientes, limite de atendimento a 20% da capacidade do local e medição de temperatura.

Mas os ambulantes nas ruas não fazem nada disso.

Policiais de folga deveriam fiscalizar

Segundo a prefeitura, a fiscalização dos ambulantes é responsabilidade da Operação Delegada, um convênio com o governo do estado para que agentes voluntários da Polícia Militar reforcem o policiamento em suas folgas.

A prefeitura disse que foi aprovado um protocolo sanitário pela Coordenadoria de Vigilância em Saúde com as medidas a serem adotadas na reabertura dos shoppings centers, assim como as normas para reabertura do comércio de rua e do setor imobiliário na capital paulista.

"As entidades devem seguir medidas de higiene, distanciamento social, sanitização de ambientes, orientação dos clientes e dos colaboradores, compromisso para testagem de colaboradores e medição de temperatura dos clientes, horários alternativos de funcionamento, redução do expediente, sistema de agendamento para atendimento, protocolo de fiscalização e monitoramento do próprio setor (autotutela)", informou a prefeitura.

15 dias decisivos

Os próximos 15 dias serão decisivos. Muitos lojistas vão fazer as contas para saber se poderão continuar operando ou não.
Eduardo Ansarah, diretor da Univinco

Além de ampliar o limite de funcionamento para seis horas, pelo menos os executivos do comércio paulistano afirmam que o crédito liberado pelo governo para micro, pequenos e médios empresários precisa chegar à mão deles, e a Medida Provisória 936, que permite a redução de jornada e salários dos empregados, tem de ser renovada.

"O crédito ainda não apareceu", disse Ansarah.

Economia