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Com covid, bancos guardam mais dinheiro para cobrir calote, e lucro cai 40%

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

07/08/2020 16h27

Resumo da notícia

  • Lucro dos quatro maiores bancos do país com ações em Bolsa cai para R$ 24,3 bilhões no 1º semestre
  • Queda do lucro foi puxada por aumento de 62,4% nas despesas para cobrir eventuais calotes
  • Essas despesas atingiram R$ 56,2 bilhões no primeiro semestre

Os quatro maiores bancos com ações negociadas em Bolsa registraram no primeiro semestre deste ano uma queda de 39,5% no lucro líquido na comparação com o desempenho do mesmo período de 2019.

O principal motivo para os bancos ganharem menos, apontam analistas de mercado, foram os recursos reservados por eles para cobrir eventuais calotes de clientes, que saltaram mais de 60% no período, para R$ 56,2 bilhões.

Juntando os resultados de Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander no primeiro semestre de 2020, o lucro líquido somado atingiu R$ 24,3 bilhões. É uma queda de 39,5% ante os ganhos de R$ 40,2 bilhões no mesmo período de 2019.

As instituições financeiras até elevaram suas carteiras de empréstimos no período, com uma ampliação de 13%, para R$ 2,445 trilhões. Mas as despesas para cobertura de potenciais calotes avançaram a um ritmo mais forte.

As despesas para calotes somadas de BB, Itaú, Bradesco e Santander saltaram 62,4%, de R$ 34,6 bilhões, no 1º semestre de 2019, para R$ 56,2 bilhões neste ano.

Os bancos são obrigados a separar uma parte do capital para cobrir risco de calotes em suas operações de crédito. Quanto maior o atraso, maior a quantidade de dinheiro que precisa ficar separada. Em junho de 2020, esse montante separado atingiu R$ 158 bilhões, um crescimento de 20% sobre junho de 2019.

Custos para cobrir calotes

Esse montante que fica separado representa custos para os bancos, que precisam dar baixa no balanço por causa de receitas que deixaram de entrar conforme vão ocorrendo os atrasos nos pagamentos.

Segundo analistas de mercado financeiro ouvidos pelo UOL, essas despesas representaram um fator negativo central na queda dos lucros dos bancos este ano. As famílias e as empresas tiveram a capacidade de pagamento afetada pela crise econômica provocada pelas medidas de isolamento social tomadas pelos governos para conter o novo coronavírus no país.

Cenário para segundo semestre

O cenário traçado pelos analistas considera que esse fator deve continuar pesando nos balanços dos bancos pelo menos no terceiro trimestre de 2020, para depois começar a perder força.

Um sinal disso seria a relativa estabilidade das taxas de inadimplência, que ainda não refletiram totalmente a piora da economia.

Os bancos até apresentaram em junho deste ano uma melhora na taxa de inadimplência média para pagamentos em atraso acima de 90 dias. No Banco do Brasil, esse indicador caiu de 3,2% para 2,8%; no Itaú, de 3,5% para 3,2%; no Bradesco, de 3,3% para 3%; e no Santander, de 2,9% para 2,4%.

Segundo analistas, essa queda das taxas de inadimplência em meio à piora da economia tem relação com medidas tomadas pelos bancos, como a de prorrogar o pagamento de parcelas de diversos empréstimos ainda em dia e a de renegociar contratos em atraso. Sem essas medidas, dizem os especialistas, os indicadores de inadimplência do sistema bancário brasileiro teriam piorado.

Prorrogação de contratos

Além disso, contratos que deixaram de ser pagos no primeiro semestre deste ano só vão completar o prazo de 90 dias de atraso —e assim começar a pesar nos balanços dos bancos— ao longo do segundo semestre, um outro fator que deve pressionar os índices de inadimplência das carteiras de crédito das instituições financeiras.

Segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), os bancos renegociaram 13,5 milhões de contratos de operações de crédito em dia, com saldo devedor total de R$ 782,3 bilhões, entre 16 de março e 24 de julho, nas ações de suspensão de pagamento de parcelas como medida para o enfrentamento da pandemia de covid-19.

Os analistas destacaram ainda que a queda dos juros —a Selic de 2% ao ano é uma mínima histórica para o país— tende a suavizar essa deterioração das carteiras de crédito. Por outro lado, a taxa básica de juros mais baixa pode afetar o ganho das tesourarias dos bancos —aquele lucro proporcionado pela aplicação dos recursos no mercado financeiro.