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Vacina atrasada afasta investidor estrangeiro do Brasil, dizem economistas

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

15/01/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Para especialistas, atividade econômica em 2020 e 2021 depende da velocidade da imunização contra covid-19
  • Atraso do Brasil para imunizar população comparado a outros países atrapalha atração de investimentos e afeta economia
  • Demora da vacinação pode levar governo a retomar auxílio emergencial e piorar contas públicas

Quanto mais o governo Bolsonaro demorar para imunizar a maior parte da população brasileira contra a covid-19, mais vai demorar para a economia brasileira retomar o crescimento de forma segura. Por isso, iniciar e avançar na vacinação contra o novo coronavírus é fundamental para as empresas retomarem as vendas e para o emprego voltar a crescer. É o que dizem economistas ouvidos pelo UOL.

O governo federal promete iniciar a vacinação agora em janeiro. Mas analistas têm dúvidas se órgãos federais, estaduais e municiais estão mesmo prontos, em termos de planejamento, equipamentos e profissionais. E, mesmo que a imunização por aqui de fato comece neste mês, o Brasil está atrás de dezenas de países que já vacinaram dezenas de milhões de pessoas. E essa diferença, dizem economistas, pode levar investidores a optarem por colocar dinheiro em outros lugares onde o cenário de isolamento social esteja de fato mais perto do fim.

As projeções de crescimento econômico para 2021 e 2022 já mostravam que o Brasil estava em desvantagem no mapa global antes mesmo de outros países começarem a vacinação, conforme estimativas para o PIB (Produto Interno Bruto) feitas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).

Fizemos então quatro perguntas a economistas sobre a importância da vacinação rápida contra a covid-19 para a economia brasileira sair da UTI.

1. O atraso na vacinação é um fator relevante em seus cenários para o desempenho da economia brasileira em 2021 e 2022?

Sim, quanto maior for o atraso, mais vai demorar a retomada da economia, dizem os economistas, de forma unânime. Para o doutor em Economia pela FEA-USP, Roberto Troster, consultor de empresas, governos e entidades como o FMI, não há mais o debate se um país deve priorizar a saúde ou a economia.

Os números mostram que os países que foram mais rápidos e mais eficientes em controlar a pandemia são os que têm apresentado o melhor desempenho econômico. O desempenho contra a pandemia será um bom termômetro para verificar o desempenho da economia.
Roberto Troster, sócio da Troster & Associados

2. Enquanto outros países já começaram a vacinação, aqui a campanha ainda está para se iniciar. Isso afeta a economia?

Segundo economistas, a má gestão da pandemia é mais um fator que se soma à ausência de uma estratégia de desenvolvimento para o país, do papel do Estado, de políticas econômicas que induzam o crescimento.

Ao deixar o tempo passar para começar a vacinação, as medidas de isolamento permanecem, as vendas das empresas seguem travadas, as dívidas de todos aumentam e o desemprego permanece alto, diz o economista Antonio Correa de Lacerda, professor doutor e diretor da Faculdade de Economia da PUC-SP.

O atraso na vacinação gera primeiro um flagelo social, com perdas de vidas. Segundo, afeta diretamente a capacidade de reação da economia, agravando as condições da população. Quanto mais tardia a imunização da população, mais lenta será a recuperação da economia.
Antonio Correa de Lacerda, diretor da FEA PUC-SP

3. Governos de todo o mundo lançaram trilhões de dólares em pacotes de ajuda para pessoas e empresas atravessarem a crise econômica provocada pela pandemia. Uma parte desse dinheiro que poderia vir para o Brasil em investimentos pode parar em outro país por causa do ritmo da vacinação?

Profissionais de mercado dizem que o mundo é uma corrida para atrair investimentos que possam gerar empregos. Outros países que já iniciaram a vacinação estão na pista correndo, enquanto o Brasil ainda está no vestiário se trocando.

Para o economista Alvaro Bandeira, ex-dirigente de Bolsas e de associações de analistas, os pacotes fiscais que inundaram o mercado global com recursos aumentou a vontade dos investidores para aplicar dinheiro em lugares mais arriscados, como países emergentes -caso do Brasil. Mas a economia brasileira poderia aproveitar melhor essa onda.

Certamente o atraso na imunização pode reduzir as expectativas dos investidores com relação ao Brasil, como já vimos a Moody's avisar. Isso interfere nos recursos de investidores estrangeiros para o Brasil. Aliás, é algo que já vem acontecendo, com uma menor participação dos estrangeiros na dívida pública e nos IPOs feitos na Bolsa. Como a liquidez é enorme, a gente vai conseguir pegar uma carona nessa onda, mas poderia ser bem melhor.
Alvaro Bandeira, economista-chefe do banco Modalmais

4. Sem imunização, o prolongamento do isolamento pode levar o governo a gastar mais, piorando as contas públicas?

Para economistas, o governo brasileiro já tem um orçamento muito restrito. Quanto mais a imunização demorar, mais a economia demora para reagir e gerar empregos. Isso pode forçar o governo a aumentar os gastos para ajudar pessoas e empresas por mais tempo.

Pode até estourar o teto de gastos, levando a aumento de juros, pressão inflacionária, destaca o doutor em Economia pela Massachusetts Institute of Technology, José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio.

O mercado de trabalho está reagindo, substituindo o auxílio emergencial. Mas ainda há muita gente fora do mercado de trabalho. A vacinação tem a função de tornar menos importante o auxílio emergencial. Se tiver vacina, a economia cresce mais no curto prazo. Mas, no longo prazo, a vacina não é tão importante quanto as reformas e o respeito ao teto de gastos.
José Márcio Camargo, economista da Genial Investimentos