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'Não fazer o Censo é uma tragédia', diz ex-presidente do IBGE

Com a aprovação da Lei Orçamentária Anual de 2021, o Censo teve um corte de quase 90% na verba destinada a pesquisa - Reprodução
Com a aprovação da Lei Orçamentária Anual de 2021, o Censo teve um corte de quase 90% na verba destinada a pesquisa Imagem: Reprodução

Colaboração para o UOL

23/04/2021 17h58

O ex-presidente do IBGE Roberto Luis Olinto, que esteve à frente do órgão entre 2017 e 2019, disse que com a mudança de realidade do Brasil provocada pela pandemia, não realizar o Censo deste ano é uma "tragédia". Para o engenheiro, o cancelamento anunciado pelo governo federal representa a perda da cidadania.

"Todo planejamento do país necessita a cada dez anos de um detalhe minucioso no nível do município. O que está acontecendo não é apenas um apagão. Tá eliminando do país a possibilidade da cidadania. Cidadania significa tomar decisões onde você tem capacidade de olhar o detalhe. O que vai acontecer sem o Censo é uma destruição completa do país se conhecer. A pandemia mudou muito esse país. Você não pode abrir mão desse Censo. É uma tragédia, um apagão, uma coisa inaceitável. A que ponto nós chegamos?", critica.

A declaração foi dada em entrevista à Globonews.

No mês passado, um dia após aprovação da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2021, que cortou quase 90% da verba destinada a pesquisa, a então presidente do IBGE, Susana Cordeiro Guerra, pediu exoneração do cargo alegando motivos pessoais e de família.

Olinto destaca que não há implicações ou problemas na execução do Censo em 2022, ano de eleições.

"O Censo tem sua qualidade baseada na capacidade de convencimento das pessoas. Ou seja, explicar para população que é importante participar, dar informação. A questão é que o Censo tem que ser feito. Quando você sai de uma discussão técnica de ter em 2021 ou 2022 e cai em ter ou não o Censo é uma catástrofe. Você criou uma visão do Censo que é inaceitável. Hoje nós temos que planejar o SUS pós-pandemia. Como vai planejar o SUS, no futuro, se você não sabe o que aconteceu na pandemia? A gente está saindo do que eu chamo de obviedade do Censo para uma discussão de verba. Isso não existe. Parece uma brincadeira, que estamos lidando de maneira leviana com uma questão chave para esse país. Se perdeu a noção de país, de Brasil. Não é possível continuar dessa forma. Não é possível ter mais polêmica sobre a realização do Censo.", afirma.

Também em entrevista à emissora, o economista Sérgio Besserman Vianna, ex-presidente do instituto entre os anos de 1999 e 2003, questionou a suposta economia obtida com o embargo da pesquisa censitária.

"Sem censo e sem bom senso. Só com a perda de eficácia das políticas públicas representará muito mais dinheiro do que será economizado nesse corte dos recursos para o Censo. Esse foi um orçamento elaborado sem fundamentos de racionalidade. Um processo muito tumultuado. Uma alocação sem qualquer tipo de prioridade. O retrato do Brasil será perdido para a história", adverte.

O que é o Censo Demográfico?

A pesquisa tem por objetivo contar os habitantes do território nacional, identificar suas características e revelar como vivem os brasileiros, produzindo informações para a definição de políticas públicas e a tomada de decisões de investimentos da iniciativa privada ou de qualquer nível de governo.

O Censo também constitui a única fonte de referência sobre a situação de vida da população nos municípios e em seus recortes internos, como distritos, bairros e localidades, rurais ou urbanas, cujas realidades dependem de seus resultados para serem conhecidas e terem seus dados atualizados.

A coleta dos dados é realizada por meio de entrevista presencial, aplicando-se o questionário a todas as pessoas residentes em todo o território nacional.