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Idosa perde R$ 60 mil em golpe bancário: 'Eles conheciam dados sigilosos'

Dívida; cartão de crédito; dinheiro; pagamento - LUIS LIMA JR/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Dívida; cartão de crédito; dinheiro; pagamento Imagem: LUIS LIMA JR/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos

08/08/2021 16h04Atualizada em 08/08/2021 22h37

Uma professora aposentada de 78 anos, moradora de Santos, litoral de São Paulo, decidiu abrir um boletim de ocorrência por estelionato após ter sido vítima de um golpe bancário especializado. Após ser orientada a fazer uma série de operações no caixa eletrônico por uma suposta funcionária de banco, com a justificativa de protegê-la de uma provável invasão da conta, a idosa descobriu ter sido lesada em cerca de R$ 60 mil.

Inazeli Azevedo Nóbrega e Silva contou ao UOL que possui duas contas no Banco do Brasil. Uma que ela movimenta sozinha e outra, que o filho tem acesso, por meio de uma procuração.

No dia 20 de julho, uma pessoa se dizendo funcionária do banco entrou em contato com o filho para informar que alguém teria tentado invadir a conta. A pessoa teria explicado ao homem que ele deveria comparecer à agência, com a procuração da mãe, para fazer uma alteração de senha.

"Meu filho não desconfiou de nada. Ele confirmou que tinha uma procuração minha, mas explicou que a conta em questão só eu poderia movimentar e pediu para entrarem em contato comigo".

No mesmo dia, uma mulher entrou em contato com Inazeli. Se identificando como Débora Lemos, responsável pela segurança do banco, pediu à aposentada que baixasse um aplicativo para fazer as operações. Ao abri-lo, uma mensagem dizia para ela digitar a palavra "ajuda". Mas a professora nem teve tempo para isso, pois Débora logo telefonou novamente, solicitando que ela se dirigisse pessoalmente à agência.

Mensagem BB whataspp - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Idosa não chegou a usar o app sugerido pela suposta funcionária para conseguir ajuda via WhatsApp
Imagem: Arquivo pessoal

"Na hora, entrei em contato com os meus gerentes, mas eles não me respondiam. Decidi procurar a agência e, assim que passei pela porta, meu telefone tocou. Era a Débora. Ela tentou me orientar, por telefone, a alterar a senha, mas eu não consegui. Ela me disse para retornar no dia seguinte para falar com os funcionários, já que a agência estava fechada, para trocar a senha e realizar o cadastro da minha biometria".

No dia 21, Inazeli foi atendida por uma funcionária, que lhe indagou o motivo da troca das senhas e foi informada sobre o suposto "aviso de invasão da conta". A tentativa de acesso foi confirmada pela funcionária, que realizou o procedimento e o cadastro da biometria. Quando estava saindo do banco, o telefone tocou novamente.

"Era a Débora, dizendo que eu tinha que retornar porque eu deveria criar um tal 'módulo de segurança'. Ela falava tão claramente, com tanta segurança, que eu não desconfiei de nada. Afinal, eles conheciam dados sigilosos, que só quem trabalha dentro do banco saberia informar".

A suposta funcionária iniciou uma videoconferência e pediu à idosa que se dirigisse ao caixa eletrônico. "A câmera dela estava desligada. Enquanto me orientava a apertar um monte de botões que eu nem sabia para que serviam, eu tinha que ficar virando a tela para mostrar a operação. Quando tudo terminou, ela agradeceu e desligou".

Cartão recusado

Ao realizar compras em uma farmácia, Inazeli teve o cartão recusado no pagamento, tanto no débito quanto no crédito, por saldo insuficiente. Somenta ao chegar em casa, verificou o extrato no computador. Foi quando descobriu uma sequência de pagamentos de títulos bancários, transferências e até um empréstimo para pagar um PIX no valor de R$ 24 mil. Além disso a conta estava bloqueada.

"Imediatamente, recorri ao banco com um pedido de revisão das operações, mas foi negado. Mesmo tendo sido uma movimentação atípica, o banco não levou em consideração. Entrei novamente com o pedido e estou esperando. Mas abri um boletim de ocorrência por estelionato".

"A gente se sente impotente. Como eles sabiam de tantas informações sigilosas? Como sabiam o momento em que eu entrava e saía do banco? Claro que eu estava sendo observada. Sou uma idosa e, apesar de esclarecida, não tenho o mesmo conhecimento do mundo digital como um jovem. Se o banco não tomar uma providência, entrarei com uma ação na Justiça. E vou pedir sequência do inquérito criminal".

Procurado pela reportagem, o Banco do Brasil informou, por meio de nota, que não faz buscas de cartões dos clientes para perícia e que não solicita a digitação de senhas durante contatos telefônicos. O banco reitera ainda que não envia mensagens via SMS ou Whatsapp e que não liga nem encaminha emails com links com solicitação de dados pessoais, dados do cartão e senhas dos seus clientes.

"O Banco acolhe todas as reclamações de movimentações financeiras não reconhecidas pelos clientes, com a abertura de processo de contestação. Posteriormente, esse processo é analisado pela área técnica que define sobre a responsabilidade das partes e sobre o ressarcimento ou não dos valores contestados".