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Diante do desemprego sem fim, eles topariam trabalho com menos direitos

14,4 milhões de pessoas estão desempregadas, segundo dados da Pnad Contínua, no trimestre móvel encerrado em junho - Rovena Rosa/Agência Brasil
14,4 milhões de pessoas estão desempregadas, segundo dados da Pnad Contínua, no trimestre móvel encerrado em junho Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

Isaac de Oliveira

Do UOL, em São Paulo

03/09/2021 04h00

Criar postos de trabalho, ainda que com menos direitos e garantias, era uma das apostas da nova reforma trabalhista, rejeitada no Senado. Desempregados ouvidos pelo UOL afirmam que topariam trabalhar com menos direitos, devido às dificuldades que enfrentam para se sustentar atualmente.

A medida provisória da nova reforma permitiria trabalho sem férias, 13º salário e FGTS para jovens entre 18 e 29 anos e pessoas com mais de 50 anos. Seria uma forma de facilitar a inserção dessa força de trabalho no mercado. Sindicatos disseram que isso precarizaria as relações trabalhistas, mas entidades empresariais afirmaram que seriam gerados muitos empregos.

"Acho um absurdo a pessoa não ter direito nem a férias. Isso acaba diminuindo a sua produtividade", diz Thamires Campos, 24, de São Vicente, no litoral de São Paulo.

"Mas a situação está complicada, então eu aceitaria como algo emergencial. Se aparecesse uma oportunidade de uma vaga CLT, eu com certeza ia optar por ter os meus direitos", afirma Thamires.

iPhone sorteado no Instagram vira fonte de renda

Thamires Campos, 24, procura emprego após ser demitida em janeiro de 2020 - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Thamires Campos, 24, procura emprego após ser demitida em janeiro de 2020
Imagem: Acervo pessoal
Em janeiro do ano passado, a jovem foi demitida do posto de auxiliar de loja de uma grande rede varejista brasileira. Dois meses depois, em março, ficou impossibilitada de procurar uma nova ocupação por causa de um problema o joelho, segundo ela.

Mas foi também no meio da pandemia que a jovem acabou tendo uma boa surpresa.

Ganhei um iPhone 11 sorteado no Instagram. Eu vendi e estou sobrevivendo com as parcelas dele, de R$ 350 por mês. É com esse dinheiro que eu pago o meu convênio médico e também o plano do celular para não ficar sem internet
Thamires Campos

Recentemente liberada para trabalhar, a jovem conta que tem sido desafiador se reinserir no mercado formal.

"Não está fácil. Já mandei muito currículo e só fui chamada para uma entrevista até agora", afirma Thamires.

Questionada sobre o Programa Nacional de Prestação de Serviço Social Voluntário, que propunha não criar vínculo de trabalho, a jovem também critica, mas diz que aceitaria de forma provisória, já que a remuneração é similar ao que ela tem recebido mensalmente com a venda do celular.

Em busca da carteira assinada após os 50 anos

Marivanda Garcia, 52, ficou viúva na pandemia e procura o primeiro emprego de carteira assinada - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Marivanda Garcia, 52, ficou viúva na pandemia e procura o primeiro emprego de carteira assinada
Imagem: Acervo pessoal
Quando o companheiro morreu em abril de 2020, por causa da covid-19, Marivanda Garcia, 52 anos, se tornou a responsável pelo sustento dela e dos dois filhos com quem vive na Vila Santo Antônio, na periferia de Fortaleza (CE).

Ter a carteira assinada pela primeira vez, depois dos 50 anos, ainda é um sonho, apesar da dificuldade de encontrar qualquer oportunidade.

"Sempre falei que era um sonho trabalhar de carteira assinada. No momento, só o que eu sei fazer é limpeza, trabalhar como empregada doméstica, faxineira", diz Marivanda.

A paraibana que mora há mais de 40 anos na capital cearense faz parte do universo de 14,4 milhões de pessoas desempregadas, segundo dados da Pnad contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), no trimestre móvel encerrado em junho.

O filho mais velho, que é músico, perdeu o emprego na crise. A filha adolescente ganha uma bolsa de meio salário mínimo num estágio na área administrativa. Marivanda recebe o auxílio emergencial do governo.

Marivanda também luta na Justiça para ter o reconhecimento da união estável e conseguir, assim, a pensão do companheiro, que era servidor público municipal.

Apesar de sonhar com a carteira assinada, a dona de casa também é mais um exemplo de quem aceitaria um posto de trabalho com menos direitos, devido às dificuldades que tem enfrentado na pandemia.

"As coisas estão difíceis. Com a carteira assinada, a gente tem mais direitos, pode ter INSS, essas coisas assim. Mas, com essa crise, eu toparia [uma ocupação com menos direitos], porque estou precisando mesmo", afirma Marivanda.

Jovens procuram equilíbrio no primeiro emprego

Mateus Cardoso, 19, procura o primeiro emprego na área de programação - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Mateus Cardoso, 19, procura o primeiro emprego na área de programação
Imagem: Acervo pessoal
Há cerca de um mês, Mateus Cardoso, 19, começou a procurar pelo primeiro emprego. O jovem, de São Felipe, no interior da Bahia, concluiu o ensino médio em 2019 e, um ano depois, mudou-se para a cidade vizinha, Cruz das Almas, para cursar ciências exatas e tecnológicas na UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).

"Sou muito bom em lidar com tecnologia, informática, internet, softwares de escritório e outras habilidades. Pretendo me dedicar ao máximo às oportunidades que serão confiadas a mim", escreveu o jovem em um post no Linkedin, que teve mais de 16 mil reações.

Ao UOL, Cardoso diz que já participou de algumas entrevistas de emprego e está aguardando retorno das empresas. O foco dele, no momento, é conseguir trabalhar com programação, que ele diz ter aprendido por conta própria, por meio de cursos on-line.

O estudante Júlio Ed, 18, está terminando o ensino médio, mas começou a procurar uma ocupação em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo.

Seu objetivo é encontrar uma oportunidade de trabalho que possa conciliar com o estudo preparatório para ingressar em um curso superior na área de biologia.

Os jovens fazem parte do grupo que poderia ser beneficado na MP barrada, como o Priore (Programa Primeira Oportunidade e Reinserção no Emprego), voltado para jovens entre 18 e 29 anos em busca do primeiro emprego e maiores de 55 anos sem carteira assinada há mais de um ano.

Se contratado por meio do Priore, o empregado manteria todos os direitos trabalhistas previstos na Constituição e na CLT, como férias, 13º salário, adicional de hora extra e descanso semanal remunerado, mas teria FGTS e multa do fundo menores.

"O governo pode criar essas vagas, mas que seja uma escolha dos jovens aceitar. Eu aceitaria, mas veria se a jornada de trabalho seria boa, pois, sem benefícios, eu teria que me preocupar com outras coisas além do trabalho. Então teria que haver um equilíbrio", diz Cardoso.

Ed consideraria uma proposta de primeiro emprego por meio do Priore, já que alguns direitos estariam mantidos. "Mesmo baixando a porcentagem do FGTS e da multa, ele tem mais direitos", diz Ed.

Já o Requip ou o Programa Nacional de Prestação de Serviço Social Voluntário não seriam opções para o jovem de Franco da Rocha, porque os programas, em sua avaliação, "retiram muitos direitos importantes".

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