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Golpe da maquininha: Mulher paga R$ 2 mil por corrida de R$ 10 de app

Comprovante mostra cobrança indevida após corrida de cliente pelo aplicativo 99 - Arquivo Pessoal
Comprovante mostra cobrança indevida após corrida de cliente pelo aplicativo 99 Imagem: Arquivo Pessoal

Pietra Carvalho

Do UOL, em São Paulo

09/03/2022 10h44Atualizada em 10/03/2022 07h38

Uma mulher de 31 anos perdeu R$ 2 mil após ser vítima de um golpe de um motorista do aplicativo, que operava pela plataforma 99. Ela suspeita que o visor da máquina de cartão foi adulterado e uma viagem de R$ 10,45 foi passada como custando R$ 2.010,45.

N.M, que preferiu não ser identificada, contou ao UOL que estava em um restaurante japonês no bairro do Brooklin, em São Paulo, quando decidiu pedir o carro para voltar para casa, em um trajeto de menos de 10 minutos.

A vítima, que trabalha como funcionária pública e tradutora, diz que costuma usar o Uber e pagar as corridas em dinheiro, mas com dificuldades para encontrar um motorista na região acabou usando o 99, sendo aceita pelo motorista parceiro após algumas tentativas.

"Desde que a corrida foi aceita pelo motorista eu fui acompanhando todo o trajeto dele até nós, ele estava a uns 4 minutos de distância. Ele chegou já falando meu nome e meu endereço, então não prestei muita atenção na placa. Mas estava tudo certo no meu aplicativo, batendo com o dele, então beleza", lembra N.M, que estava acompanhada do namorado.

Durante o trajeto, o casal pediu para pagar a viagem no cartão de débito. Em um primeiro momento, após estacionar em frente à casa da cliente, o colaborador disse que sua filha havia andado no carro e mexido em suas coisas, tirando a maquininha de cartões do lugar.

Após supostamente não encontrá-la, ele disse à vítima que "iria deixar para ela pagar na próxima corrida".

"Eu ainda brinquei que não queria dar golpe nele não, mas que se ele não estava achando, beleza", lembra N.M. "Aí enquanto abrimos a porta, ele chegou a andar uns metros, como se estivesse indo [embora], mas depois deu ré falando que tinha achado a maquininha embaixo do banco."

A mulher conta que foi até a janela do carro e conferiu o valor de R$ 10,45 que deveria ser cobrado pela corrida, segundo o próprio aplicativo 99, pagando o valor no débito. Mas em questão de minutos a funcionária pública descobriu ter sofrido o golpe.

A suspeita é de que o visor da máquina de cartão foi adulterado para esconder os dígitos das casas da centena e do milhar.

"Assim que fechamos o portão, meu namorado brincou que só faltava era ele ter dado um golpe na gente - por causa da minha brincadeira. Então eu fui olhar o SMS que o banco manda, só de bobeira, e estava lá: R$ 2.010,45".

Ela e o namorado ainda tentaram correr atrás do motorista, mas o homem já havia se afastado.

"Na mesma hora eu liguei na 99, no telefone de segurança que eles têm, mas a resposta que deram é que aquele telefone era só para emergências de segurança, como agressões, e que reembolso era outro número. Eu mandei ainda à noite uma mensagem pelo aplicativo da 99 falando do ocorrido e eles falaram que como passei o cartão na maquininha do parceiro eles não podiam fazer nada, que recomendavam que eu entrasse em contato com a operadora do cartão".

N.M conta que fez todo o procedimento em uma aba do aplicativo exclusiva para reclamações sobre cobranças indevidas. Mas mesmo em meio às inúmeras mensagens da cliente, a única compensação oferecida pela empresa foram cinco cupons de R$ 10 para uso em outras viagens.

"Eu tentei responder de novo e já não dava mais, eles deram a demanda por encerrada".

Empresa ofereceu bloqueio do motorista apenas para vítima

O caso de N.M aconteceu em 24 de fevereiro, mas ganhou atenção no início desta semana depois que a mulher denunciou o golpe no Twitter.

Ela fez o boletim de ocorrência online na mesma noite da viagem com o suspeito, que se identifica como Alessandro no aplicativo. A vítima consultou a gerente de seu banco e confirmou que não conseguiria resolver a situação com a operadora do cartão, já que inseriu sua senha voluntariamente na maquininha do golpista.

"O máximo que dava pra fazer era ver a identificação da maquininha, mas só no próximo dia útil que seria quarta (2/3). Na sexta anterior eu também liguei várias vezes na 99, porque precisava dos dados do motorista para abrir o boletim físico e estava tentando uma resposta diferente sobre o reembolso. Todas as ligações foram péssimas", afirma a funcionária pública.

Segundo ela, os atendentes se recusaram a falar o nome do motorista "por motivos de segurança", mesmo com a cliente apresentando extrato, boletim de ocorrência online e a mensagem de finalização da corrida no valor de R$ 10,45.

"Todos mantiveram a posição de não poder fazer nada porque foi na maquininha do parceiro e que não podiam passar nada dele além do que já aparecia pra mim - primeiro nome e placa, que acho que devem ser falsos. O máximo que fizeram foi passar o telefone pra eu tentar falar com ele - que nunca atendeu, obviamente".

Em uma das ligações, a empresa ainda propôs que o motorista fosse bloqueado do aplicativo - mas apenas para N.M. "Como se fosse um problema só meu mesmo", afirma a vítima.

Agora, quase duas semanas depois do golpe, a mulher conta que pretende abrir um processo contra a 99. Em uma investigação própria, ela conseguiu imagens de câmeras do restaurante, que mostram o motorista chegando, e a identificação da maquininha, que está registrada no nome de um homem de Fortaleza.

N.M conta que prefere não se identificar por temer que o golpista, que a levou em casa, possa se vingar pela denúncia.

Ela concorda com a recomendação de que os clientes do aplicativo deem preferência por pagamentos em meios digitais, por Pix ou cadastro de cartão, mas critica a falta de critérios do aplicativo na seleção de seus colaboradores, já que não há comprovação de que os dados do motorista não são falsificados.

"Todo mundo está sujeito a se ver sem crédito e sem bateria ou mil e outras possibilidades que levem a pagar no cartão. Com certeza o negócio de fingir que ia embora era só pra eu sair do carro e ele finalizar a corrida de forma fraudulenta, é importante alertar as pessoas a nunca pagar depois que já tiverem saído do carro", concluiu.

99 diz que baniu motorista da plataforma

Em nota já no início da tarde de hoje, a 99 declarou que "lamenta profundamente a experiência" de N.M e afirmou que o motorista responsável foi banido da plataforma.

Ainda segundo nota enviada ao UOL, uma equipe foi formada para apurar o caso.

"A empresa ressalta que esteve em contato com a passageira para oferecer suporte. No entanto, de acordo com a Lei de Proteção Geral de Dados (LGPD), não é permitido o compartilhamento de informações pessoais dos usuários além daquelas que se encontram no app. Tais dados só podem ser fornecidos às autoridades competentes, mediante ofício. Permanecemos abertos para colaborar com todas as investigações policiais", afirmou a assessoria.

A empresa também afirmou que só consegue "agir diretamente" sobre os pagamentos de viagens caso eles sejam feitos por meio aplicativo ou por cartão cadastrado na plataforma da 99.

"Quando o passageiro opta por pagar diretamente ao motorista, que é um profissional autônomo, dentro do carro, a 99 recomenda que ele verifique o valor da cobrança e se atente para qualquer alteração, antes de efetivar o pagamento, como faria em qualquer estabelecimento comercial".

A empresa não comentou a declaração da vítima de que teria conferido o valor no visor, descobrindo o golpe apenas por um SMS do banco, o que levantou a hipótese de uma adulteração oculta na maquininha de cartão.

"Usuários que tenham vivenciado esse tipo de ocorrência devem reportar o caso para a empresa, por meio do app ou pela Central de Ajuda pelo número 0300 313 9999, que funciona 24 horas por dia e 7 dias por semana, para que as medidas necessárias previstas em nossos Termos de Usos sejam tomadas", completou a nota, sem entrar em mais detalhes sobre o futuro da apuração.

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