PUBLICIDADE
IPCA
0,47 Mai.2022
Topo

Enquanto inflação estiver alta, Bolsa terá poucas ações novas, diz entidade

Presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), Fábio Coelho, diz que volta de ofertas de novas ações depende de controle da inflação e da queda de juros - Divulgação
Presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), Fábio Coelho, diz que volta de ofertas de novas ações depende de controle da inflação e da queda de juros Imagem: Divulgação

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

21/05/2022 04h00

Resumo da notícia

  • Mesmo quando IPOs voltarem, empresas médias e de setores menos tradicionais podem não encontrar investidores interessados, diz Fábio Coelho
  • Após febre de novas ações, com 69 IPOs em dois anos, operações secaram na Bolsa
  • Apenas 14 das 69 ações de empresas que fizeram IPOs em 2020 e 2021 apresentam valorização desde estreia

O mercado brasileiro não deve ter nova onda de empresas entrando na Bolsa (fazendo IPO, na sigla em Inglês) enquanto a inflação não for controlada e o Banco Central voltar a reduzir os juros. A avaliação é de Fábio Coelho, presidente-executivo da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), doutor em Economia, professor da FGV e ex-integrante do Banco Central.

Segundo ele, com inflação alta, as incertezas com relação à duração e à intensidade do atual ciclo de juros elevados devem manter o mercado praticamente fechado para IPOs. Os juros nesse nível tornam as aplicações de renda fixa mais interessantes para os investidores, mas prejudicam o potencial de lucros das empresas, diz o especialista.

A Amec reúne 60 associados de peso do mercado brasileiro de capitais, como as gestoras dos grandes bancos (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander, BTG e XP Investimentos), marcas estrangeiras, como UBS a Franklin Templeton, além de fundações, como Petros e Funcef.

Pode haver espasmos de oportunidade. Mas ambiente mais seguro para uma nova onda sustentável de IPOs a gente deve ver apenas no próximo ciclo de atividade econômica, quando a inflação se mostrar sob controle para que o Banco Central comece a reduzir os juros.
Fábio Coelho

Ainda segundo ele, diferentemente de 2020 e 2021, quando a onda de IPOs permitiu que até empresas de médio porte, negócios recém-lançados ou ainda setores de pouca tradição na Bolsa abrissem capital, no próximo ciclo dessas operações, o mercado será mais seletivo.

Quando voltarmos a ter IPOs, não vejo esse tipo de operação continuando. Não devemos ter um alinhamento de astros como o que passou, de juros tão baixos e tanto apetite por risco por parte dos investidores. Então, talvez não tenhamos mais uma garantia de uma retomada de IPOs com esse perfil mais amplo, com entrada de mais empresas de menor porte ou de setores ainda novatos na Bolsa. Vejo um mercado mais seletivo.
Fábio Coelho

"Alinhamento de astros"

O alinhamento dos astros a que se refere o presidente da Amec foi a combinação dos menores juros no Brasil (Selic em 2%), o aumento de pequenos investidores na Bolsa e o surgimento de novas empresas. Foram 69 IPOs em 2020 e 2021.

Mas em 2022, justo no ano em que o total de pessoas físicas na Bolsa ultrapassou os 5 milhões de investidores, os juros começaram a subir para o maior patamar em mais de meia década para tentar combater a maior inflação em quase 20 anos. O cenário é de crescimento econômico menor e de incertezas domésticas, com eleições presidenciais em outubro, e externas, com guerra na Europa e aperto monetário nos Estados Unidos e Europa. Isso tudo travou novos IPOs na Bolsa.

Para piorar, das 69 de empresas que fizeram IPOs em 2020 e 2021, apenas 14 são negociadas atualmente acima do valor de oferta inicial. Mais uma razão para deixar o investidor ressabiado.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Fábio Coelho.

UOL: Nesse ambiente negativo, o que os grandes fundos de investimento do país esperam para o restante do ano e para 2023 em termos de IPOs?

Fábio Coelho: Os anos de 2020 e 2021 foram atípicos e muito aquecidos em especial por causa das políticas de estímulo dos bancos centrais para combater os efeitos da pandemia. No Brasil, com os juros baixos, os investidores buscaram a renda variável, e as empresas aproveitaram esse ambiente de maior procura.

Essa janela começou a se fechar no terceiro trimestre de 2021, encerrando esse ciclo, com uma inflação muito elevada e a sinalização de aumento mais forte dos juros. Em 2022, esse movimento de inflação mais forte piorou, levando os bancos centrais a elevarem ainda mais os juros.

Todas as condições que foram favoráveis aos IPOs em 2021 deixaram de existir. Então 2022 é um ano ruim para mercado de capitais por conta dos fundamentos econômicos e mais o ano eleitoral, que é marcado historicamente por mais incertezas.

Quando as operações de IPO poderão ser retomadas?

Não antes de 2023. Podem aparecer algumas oportunidades, espasmos de oportunidade. Mas ambiente mais seguro para uma nova onda sustentável de IPOs a gente deve ver apenas no próximo ciclo de atividade econômica, com redução de juros, quando a inflação se mostrar sob controle, que permita ao Banco Central começar a reduzir os juros.

Por que juros elevados atrapalham tanto os IPOs?

O custo de oportunidade para buscar outros projetos fora da renda fixa fica muito elevado quando os juros estão altos. Além disso, o custo de capital das empresas fica mais alto, e isso afeta o lucro das companhias na perspectiva de rentabilidade. Por isso, vimos ações de empresas que fizeram IPOs recentemente apresentando desempenhos negativos.

E a inflação, que segue acima de dois dígitos há vários meses, também representa uma ameaça à capacidade de planejamento dos gestores. O gestor fica com um duplo desafio, de entregar retorno e acima da variação da inflação, que é uma incerteza maior.

Enquanto os IPOs não recuperam o fôlego, quais devem ser as estratégias dos gestores dos fundos com os recursos que já têm captados?

O setor investe em empresas com foco no longo prazo, em empresas que geram valor ao longo do tempo. Então, esses ciclos de curto prazo não afetam as estratégias.

Mas, dito isso, as empresas estão olhando oportunidades de fusões e aquisições. Esse mercado está aquecido. Os investidores estão em busca de bons ativos, mesmo em ambiente mais desafiador.

Em 2020 e 2021, vimos chegando à Bolsa empresas de setores que não tinham casos de vendas de ações, como depilação, academia de ginástica, lojas para pets. E alguns IPOs de valores inferiores a R$ 300 milhões, bem abaixo de um histórico em que as operações somavam ao menos R$ 1 bilhão. Esse tipo de IPO pode voltar, ou teremos um mercado mais seletivo e restrito às grandes empresas?

A gente teve de fato uma diversificação muito grande de novos setores na Bolsa e IPOs feitos por empresas de menor porte, algumas operações jovens acessando o mercado, é verdade. Talvez muitas empresas não estivessem prontas ainda para IPO, mas aceleraram o processo para aproveitar a onda de 2020 e 2021.

Quando voltarmos a ter IPOs, não vejo esse tipo de operação continuando. Não devemos ter um alinhamento de astros como o que passou, de juros tão baixos e tanto apetite por risco por parte dos investidores.

Então, talvez não tenhamos mais uma garantia de uma retomada de IPOs com esse perfil mais amplo, com entrada de mais empresas de menor porte ou de setores ainda novatos na Bolsa. Vejo um mercado mais seletivo.

Dentre as fontes de incertezas que estão no radar —eleições no Brasil, aumento de juros nos EUA e Europa, guerra na Europa—, quais as mais preocupantes neste momento?

Os ambientes doméstico e internacional são ambos fontes importantes de incertezas que influenciam o mercado de capitais brasileiro, mas pelas característica da nossa economia e de nosso mercado, onde as estatais, por exemplo, têm grande peso na Bolsa, eu diria que os fatores internos são mais preocupantes neste momento.