Eleição de Milei: brasileiro vai pagar mais caro para viajar à Argentina?

A Argentina tem sido um destino muito procurado pelos brasileiros pelos preços mais baixos. Especialistas ouvidos pelo UOL dizem que os turistas brasileiros não devem sentir impactos nas viagens ao país vizinho no curto prazo com a eleição do economista de ultradireita Javier Milei, mas que é possível que haja mudanças nos preços à medida que a política econômica e monetária do país mudar.

Como ficam os preços

No curto prazo, o turismo não deve ser afetado pela eleição de Milei. Nos próximos meses, a situação econômica deve continuar muito parecida e, por isso, os brasileiros que viajam à Argentina não devem sentir diferença nos preços. Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria, afirma que ainda há grande incerteza sobre as políticas econômicas que serão adotadas por Milei.

Enquanto não houver mudanças significativas na política econômica, o turismo não deve ser afetado. A Associação das Operadoras de Turismo, Braztoa, diz que ainda não há estimativas ligadas à eleição, já que demora algum tempo para o novo cenário se consolidar.

Hoje as compras de passagens e reservas de hotéis são feitas em dólares. Edmilson Romão, vice-presidente financeiro da Abav (Associação Brasileira de Agências de Viagens), diz que isso faz com que os brasileiros não sintam grandes diferenças nos preços e a Argentina deve continuar sendo um destino mais barato.

A procura por destinos argentinos neste ano está maior do que no ano passado. Ainda não há dados consolidados. Os principais destinos buscados pelos brasileiros, segundo Romão, são Buenos Aires, Mendoza, Ushuaia e Bariloche. Romão diz que, além do preço atrativo, o destino é próximo, tem uma língua mais parecida com o português e com boa infraestrutura turística.

Pensando em um ponto de vista de curto prazo, eu diria que pouco ou nada muda em relação às pessoas que vão [viajar] para lá, até porque o cenário econômico continua sendo absolutamente o mesmo.
Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria

Temos a questão do câmbio favorável, que possibilita um upgrade nos serviços, com excelentes hotéis, restaurantes, vinhos e passeios a custos abaixo do que normalmente seriam. Isso já aconteceu outras vezes e sempre que isso ocorre, nós vemos a demanda aumentar. Esses fatores fazem com que o destino tenha um atrativo a mais, além de tudo que ele já oferece e as pessoas adoram, e seja cada vez mais procurado.
Marina Figueiredo, presidente executiva da Braztoa (Associação Brasileira das Operadoras de Turismo)

Dolarização e fim do BC

Os preços podem mudar aos brasileiros caso Milei avance em propostas feitas durante a campanha presidencial. A dolarização da economia e o fim do Banco Central argentinos, por exemplo, são algumas propostas consideradas polêmicas. Campos Neto afirma que a dolarização é um processo complexo para uma economia grande, como é o caso da Argentina, e que dificilmente será colocada em prática, já que Milei precisa de aprovação do Congresso Nacional para implementar a mudança. Segundo a proposta, Milei abriria mão do peso e passaria a usar o dólar na economia argentina.

Continua após a publicidade

Quando você abre mão da sua moeda, automaticamente você abre mão da sua política monetária, de controlar a sua base monetária, de dar estímulos quando necessários, de contrair a economia quando necessário. No fundo, você fica à mercê das decisões do Banco Central norte-americano. Você perde a capacidade de atuar com essa perna fundamental da política econômica, que é a política monetária.
Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria

O modelo econômico atual da Argentina é insustentável, para Campos Neto. Dentre os problemas estão o alto déficit público, financiamento pelo Banco Central, que gera inflação e dificuldade em conseguir dólares — o que cria o mercado paralelo de taxas de câmbio, conhecido como dólar blue. E este cenário que faz com que viajar para a Argentina seja mais barato aos turistas brasileiros.

O dólar blue é o câmbio paralelo, que opera em um mercado ilegal. A moeda é vendida por um valor mais baixo entre os cidadãos, e dita os preços de consumo do país. A diferença para a taxa oficial indica a intensidade das buscas por alternativas mais acessíveis às restrições e impostos das taxas oficiais. Na prática, o dólar oficial é usado apenas nas transações financeiras e comerciais.

Para 2024, é possível que o turista sinta alguma diferença nos preços para viajar a Argentina. Campos Neto afirma que, para corrigir a inflação do país, que está próxima de 150% nos últimos 12 meses, o governo precisará fazer ajustes que podem aumentar a inflação em um primeiro momento. Se isto acontecer, tanto os argentinos como os turistas vão sentir um aumento nos preços de produtos e serviços vendidos no país.

Todo esse quadro não muda no curto prazo. O turista vai continuar tendo uma moeda mais forte, no caso o dólar e até o próprio real. Assim tem a oportunidade de adquirir seus bens e serviços lá com taxas de câmbio vantajosas, que não sejam oficiais. Quem troca dólar por pesos pela cotação oficial sai perdendo, mas pelas cotações do mercado blue existe até a expectativa de que o peso possa se desvalorizar mais no curto prazo.
Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria.

Veja também

Deixe seu comentário

Só para assinantes