Otimismo paralisante e pessimismo criativo: lições e contra lições das COPs

Todo ano, ocorre o mesmo fenômeno (climático ou anticlimático). Grandes declarações de princípios e comemorações são feitas a cada COP, a cúpula do clima da ONU, no início e ou no fim, cada uma normalmente descrita (ou autodescrita por seus participantes) como fazendo história.

Nada, absolutamente nada se transforma em realidade. Segundo recentes alertas científicos divulgados, o mundo está no caminho para aumentos de temperatura de 3º C e não de 1,5º C até o final do século.

Essa pouca sintonia entre declarações e realidade decorre de um problema mais amplo: nossa enorme tendência a encontrar motivos - quaisquer que sejam - para comemorar, principalmente nos finais de ano. O otimismo é bom, desde que não seja descolado da realidade. Se o é, torna-se paralisante, por nos levar no nível individual e social, ao autoengano.

Questões como a da desigualdade social, da exclusão absoluta, do aumento do número de pessoas em situação de rua e da emergência climática tornam-se mais graves a cada ano.

Ser otimista em relação a elas significa nos contentarmos com declarações de princípios vazias. Afirmar por exemplo que pessoas em situação de rua tem direito a uma política pública é verdadeiro e bonito. Mas quais são os contornos dessa política pública? Como e quando ela será implementada?

Se nos contentarmos com a primeira declaração ficaremos paralisados em relação às questões concretas de como e quando. É um otimismo paralisante.

O mesmo se dá em relação ao clima. Estabelecer uma meta de redução de emissões ou de criação de um fundo para países mais pobres lidarem com as consequências da emergência climática ou mesmo estabelecer metas abstratas de substituição de combustíveis fosseis é uma declaração bela de princípios. Mas se nos contentarmos com ela ficaremos paralisados, não enfrentando as reais questões: como e quando isso será feito?

Para as duas questões (exclusão social e emergência climática), as perguntas do como e quando não podem ser enfrentadas com o otimismo paralisante das declarações de princípios. Requerem uma boa dose de pessimismo criativo.

Vejamos: não é possível enfrentar os problemas da exclusão social e mudança climática sem analisar e se dispor corajosamente a modificar as estruturas econômicas existentes.

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Monopólios globais sempre procurarão fazer free riding ambiental e social, ou seja, compartilhando os custos com todos na sociedade, nos países e nas regiões que lhes permitem. Podem assumir os mais belos compromissos por si próprios mas nada impede que, na cadeia de produção, "terceirizem" (sim, sempre a terrível terceirização) a produção que degrada o meio ambiente e utiliza trabalho escravo ou semiescravo para outras produtores ou prestadores de serviços, estrategicamente localizados em regiões de menor fiscalização ambiental ou social.

Não é o que podem fazer, mas sim o que vem fazendo.

Não se enfrenta tal situação sem frear a busca incessante pelo lucro e sem fiscalizar intensamente as cadeias de valor internacionais. Ocorre que cadeias de valor são de difícil ou quase impossível fiscalização na presença de um ou dois agentes com poder global. A verticalização dos monopólios limita em muito a transparência e fluxos de informação nas cadeias de valor.

Em matéria de exclusão social (intimamente conectada com a degradação ambiental, pois como hoje sabemos uma intensifica a outra), o mesmo ocorre. Sem emprego e moradia não é possível garantir uma situação pessoal e familiar sustentável e portanto não é possível impedir exclusão. Ora isso só se faz impedindo que a atividade econômica gere constantemente exclusão de emprego e renda, via deslocalização, substituição do trabalho humano, busca incessante pelo obtenção de eficiência produtiva via redução de custos do trabalho, etc.

Ora esses elementos não podem ser combatidos com belas declarações. Exigem um pessimismo criativo, ou seja a convicção de que é preciso mudar o funcionamento do sistema econômico.

Propostas como regulação dos bens comuns, mudanças e restrições a estruturas monopolísticas ou oligopolísticas de produção são caminhos possíveis, mas exigem a convicção de que com o que hoje temos, caminhamos para o abismo social e ambiental.

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Sim, pessimismo criativo, ainda que pessoalmente mais dolorido, é mais efetivo para mudanças que otimismo paralisante.

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