Investidor perde R$ 14 milhões com IRB: o que dá para aprender com isso

O investidor Maurício Ferrentini, de 56 anos, viu seu patrimônio de R$ 21 milhões ser praticamente dilapidado após comprar R$ 15,9 milhões em ações do IRB, em 2021. Ele teria adquirido os papéis por orientação de Luiz Barsi, o maior investidor pessoa física da Bolsa de Valores brasileira e também conhecido como "rei dos dividendos". Entenda o caso e veja o que especialistas falam sobre concentrar patrimônio em apenas uma ação.

O que aconteceu?

Ferrentini, que tinha uma relação próxima a Barsi, o procurou para pedir uma recomendação de investimento. Ele tinha R$ 21 milhões e queria uma renda passiva mensal de R$ 150 mil. Mas, do total investido (entre 2021 e 2023), Ferrentini resgatou R$ 1,5 milhão. O prejuízo foi de R$ 14,4 milhões. A história foi revelada no dia 30 de novembro pelo site NeoFeed.

Barsi teria orientado a compra dos papéis da resseguradora IRB em junho de 2021. O megainvestidor, que sozinho detém 1,5% das ações do IRB, pediu de um "voto de confiança", porque a companhia estaria passando por um processo de reestruturação. Não é possível saber exatamente quando Ferrentini comprou as ações, mas desde junho de 2021 o papel caiu quase 70%.

Em entrevista à coluna Painel S.A., da Folha de S.Paulo, Ferrentini disse que seguiu a recomendação do amigo. Ele destacou que Barsi é visto como o maior investidor da Bolsa (tem um patrimônio de cerca de R$ 4 bilhões), e que a promessa era de que seu dinheiro seria triplicado. O assessor da carteira de Ferrentini teria ficado contrariado e demonstrado preocupação — afinal, ele quis comprar R$ 15,9 milhões em ações da resseguradora, o que correspondia a 80% do seu patrimônio total. Mesmo assim, o investimento foi feito.

Em nota divulgada à imprensa, a equipe de Barsi afirmou que o investidor sempre se manifestou publicamente sobre o "potencial reestabelecimento do IRB". Ele acredita que se trata de um investimento de longo prazo, conhecido no mercado como "buy and hold" (comprar e segurar).

Por ter mais de R$ 10 milhões investidos, Ferrenti já era considerado profissional. Isso foi ressaltado na nota, que diz que investidores profissionais gozam de "certos direitos e obrigações e têm acesso a uma gama mais ampla de produtos e investimentos no mercado financeiro".

Por que não colocar tudo em um só investimento?

Por mais que a recomendação do "rei dos dividendos" possa parecer certeira, dado seu histórico, especialistas não recomendam esse tipo de movimento. Independente do objetivo do investidor, não se deve concentrar todo (ou quase todo) o patrimônio em apenas um ativo.

A Bolsa vive um sobe e desce constante - e empresas em dificuldade ainda mais. Carol Stage, educadora financeira, pondera que a indicação "não garante que o desempenho da empresa permanecerá sempre forte". "Mercados são voláteis e empresas podem enfrentar desafios imprevistos. A diversificação é uma espécie de seguro contra tais reviravoltas", avalia.

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Ainda assim, a trajetória de nenhum investidor é totalmente linear, por mais que ele diversifique e seja cauteloso. Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos, pondera que Barsi é, de fato, um investidor de sucesso, mas muito pautado em empresas de valor, que hoje são case de sucesso e de geração de caixa. "A gente às vezes esquece que a trilha de um investidor não é de 100% de acerto, ele acerta e erra, só que às vezes ele acerta mais do que erra. Ou quando acerta, deixa aquele investimento se prolongar por mais tempo do que quando ele erra", diz ele.

A diversificação é como distribuir seus ovos em várias cestas. Se uma cesta cair, você ainda tem outras intactas. Não é uma fórmula mágica para evitar perdas. Ela é uma estratégia para gerenciar riscos e proteger seu patrimônio.
Carol Stage, educadora financeira

Antes de fazer um investimento no mercado financeiro, precisamos definir a estratégia que funciona para a nossa vida. Primeiro entender se você está no momento de construir patrimônio, consolidar ou usufruir dos recursos. No momento de consolidar e usufruir, o investimento já não pode dar errado. Além disso, a carteira de investimentos de um terceiro não pode ser 100% copiada porque são vidas diferentes, momentos diferentes.
Daiane Mohr, planejadora financeira na Warren Investimentos

Como escolher uma ação para investir?

O investidor deve saber quais são os seus objetivos antes de fazer qualquer investimento. O planejamento é a melhor forma de proteger o patrimônio de decisões potencialmente equivocadas, diz Daiane Mohr, planejadora financeira na Warren Investimentos. Ou seja, seguir indicações não seria o melhor caminho.

Nenhuma ação irá tornar alguém milionário do dia para a noite. Daiane, da Warren, afirma que lidar com o mercado financeiro pede resiliência. Mas é sempre recomendável avaliar se as ações da empresa estão alinhadas com os valores do investidor.

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No mercado de renda variável, não adianta estar "certo na hora errada". Villegas explica que muitas vezes o mercado é "ingrato" — o investidor até pode estar certo sobre uma tese, mas ela não acontece no tempo esperado.

Por isso, antes de se escolher qualquer ação, ela deve ser analisada com cautela. O economista pontua a importância de se analisar o momento em que companhia está (se mesmo em fase ruim há projeção de melhora), se é um papel muito arriscado, se tem crescimento acelerado, se seu preço está atrativo e se é uma boa pagadora de dividendos, entre outros.

Quando falo sobre renda variável, sempre parto do princípio que você precisa investir em ações de empresas das quais você seria sócio. Esse mesmo princípio deve ser pensando na hora de fazer os investimentos.
Daiane Mohr

Quem é o IRB

O IRB é líder em resseguros no Brasil e estreou na Bolsa em 2017. Mas, em 2020, divulgou "inconsistências" no seu balanço e despencou na Bolsa. Desde então, ela tenta se recuperar. Barsi, inclusive, tentou emplacar o nome de sua filha, Louise Barsi, para representá-lo no conselho da empresa, o que não deu certo.

Nos últimos anos, as ações da empresa sofreram forte desvalorização após uma fraude no balanço vir à tona em 2020. A companhia escondia alguns sinistros, fazendo os resultados parecerem mais positivos do que eram. O IRB também confirmou para a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que ex-executivos se apropriaram de R$ 60 milhões em forma de bônus pela venda de imóveis.

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Até mesmo um boato envolvendo Warren Buffet, o maior investidor do mundo, colocou a empresa na mira da Justiça. Em 2020, circulou no mercado a informação (comprovadamente mentirosa) de que o grupo Berkshire Hathaway, de Buffett, estaria comprando participações na empresa. O ocorrido foi visto como uma tentativa de fazer o preço da ação subir. O IRB teve que fazer um acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos este ano e pagar US$ 5 milhões para colocar fim às acusações sobre a história.

O que diz Barsi

Em nota divulgada à imprensa, Barsi negou a interferência nos investimentos do amigo. O comunicado reitera que o megainvestidor não possui vínculos societários com a Boa Vista Investimentos, sendo apenas um cliente da gestora, e que não cuida ou administra carteira de terceiros, além a própria.

O texto ainda destaca que o investidor tem "vasta experiência no mercado de investimentos, em especial em negócios de longo prazo". E que é sempre esteve consciente de que "o mercado de valores mobiliários é um mercado de renda oscilável, portanto sujeito a diversas variáveis, de ordem econômica, políticas, sociais, endêmicas, dentre outros múltiplos fatores".

Além disso, nunca teria prometido resultados específicos para a tomada de decisões financeiras. A nota destaca que as pessoas se espelham em Barsi, que não pode ser culpado pelo seu "sucesso notório".

Cada investidor profissional é responsável por suas próprias decisões. É importante destacar que essa classificação como investidor profissional tem o propósito de reconhecer a experiência e a capacidade financeira dos investidores e, consequentemente, permitir que eles tenham maior flexibilidade no mercado de capitais, assim como maiores autorresponsabilidades.

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