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Pandemia muda rotina de leituristas de energia e desafia distribuidoras

25/05/2020 17h03

Por Luciano Costa

SÃO PAULO (Reuters) - Com milhões de brasileiros trancados em casa, em quarentenas contra o coronavírus, empresas de distribuição de energia têm visto um turbilhão em suas operações que passa não só pela queda na receita devido à menor demanda, mas também por impactos na rotina de uma atividade básica do setor: a leitura e faturamento do consumo de clientes.

Enquanto nos Estados Unidos e na Europa as elétricas realizam a maioria do faturamento junto aos consumidores por meio de medidores eletrônicos, no Brasil as contas de luz dependem em grande parte da checagem manual de medidores por técnicos, o que por vezes exige autorização de pessoas para entrada em casas ou estabelecimentos comerciais.

Medidores de energia mais avançados, que permitem leitura remota, respondem hoje pela maioria das instalações no país apenas no caso de grandes consumidores, como indústrias e empresas do setor comercial, que geralmente negociam seu suprimento no chamado mercado livre de energia, junto a geradores e comercializadoras.

"Um número muito grande, cerca de 90% dos clientes das distribuidoras, é lido manualmente. A maioria das empresas faz a entrega simultânea da conta, lê e já entrega. E diversas distribuidoras pararam de fazer esse processo por causa do coronavírus", disse à Reuters o consultor Cyro Boccuzzi, ex-executivo de empresas do setor.

Boccuzzi, que é membro do Instituto de Engenheiros Eletrônicos e Eletricistas (IEEE), organização global do setor, estimou que nos Estados Unidos a telemedição de faturas de energia representa mais de 75% do total, enquanto na Europa essa penetração é ainda superior, acima de 85%.

Para se adaptar ao novo cenário com a pandemia, as distribuidoras têm adotado estratégias que vão desde a cobrança pela média de consumo de 12 meses ou demanda mínima contratada até o incentivo à auto-leitura via aplicativos, passando também por medidas de higiene e distanciamento nos casos em que leituras ainda são feitas presencialmente.

A Enel São Paulo (ex-Eletropaulo), da italiana Enel, por exemplo, maior distribuidora de energia da América Latina em faturamento, reduziu em cerca de 50% as equipes de leituristas nas ruas desde o agravamento da situação da Covid na principal metrópole brasileira.

A empresa tem emitido contas pela média de consumo, além de incentivar clientes a fazerem a leitura dos próprios medidores, com o envio de fotos dos equipamentos por meio de aplicativo.

Já a Equatorial Energia, que controla distribuidoras no Norte e Nordeste, manteve as equipes de leituristas em 100% operação, mas orientou os funcionários a não entrarem nas casas de consumidores, realizando medições apenas em equipamentos acessíveis do lado externo.

As elétricas também disseram ter treinado funcionários sobre medidas de higienização e uso de álcool em gel e máscaras, além de terem implementado monitoramento das condições de saúde das equipes e até seus familiares para evitar a propagação do vírus.

"Entre abril e maio, até o momento, no total foram realizadas cerca de 320 mil autoleituras pelos clientes da Enel Distribuição São Paulo", disse à Reuters o presidente da elétrica, Max Xavier, em nota.

O número ainda é baixo perto dos 7 milhões de clientes da empresa, que atende a região metropolitana de São Paulo, mas a adesão tem crescido.

"Apenas nos primeiros 9 dias de maio, foram realizadas  mais de 150 mil autoleituras, o que representa quase a totalidade das autoleituras ao longo do mês de abril", apontou Xavier.

AINDA NA RUA

A estatal mineira Cemig, por outro lado, manteve totalmente as leituras, apenas ampliando os cuidados de higiene, e afirmou que apenas 2% dos clientes não têm permitido o acesso de suas equipes técnicas para realização do serviço, casos em que as contas são emitidas pela média.

A unidade de distribuição da companhia, Cemig-D, é a líder em número de clientes no Brasil, com 8,5 milhões de consumidores faturados.

"A Cemig conta com 1.500 leituristas e eles estão trabalhando regularmente, tomando todas as precauções e seguindo todas as recomendações dos órgãos de saúde e de vigilância sanitárias... vale destacar que os profissionais possuem um kit de higienização contendo álcool em gel e máscara descartável", disse a empresa, em nota.

Na Neoenergia, com distribuidoras no Nordeste e em São Paulo, as equipes de rua também foram mantidas, mas uma campanha foi lançada para incentivar a adesão à autoleitura, disse o superintendente de processos comerciais, Leonardo Moura.

"Como medida de segurança adicional, nossos leituristas precisam a cada uma hora fazer higienização dos equipamentos que usam, como a mini-impressora (de contas), que é de uso individual", explicou.

CONSUMIDOR DE OLHO

A pandemia de coronavírus derrubou o consumo de energia no Brasil, principalmente devido a medidas de isolamento adotadas por governos contra a doença, que obrigaram o fechamento de lojas e shoppings, por exemplo, e à desaceleração da atividade econômica, que reduziu o ritmo em muitas indústrias.

Com isso, a associação Abrace, que representa empresas com grande consumo de energia, tem alertado para que pequenos comércios fiquem atentos para evitar despesas adicionais.

"Se o seu estabelecimento estiver fechado, ou aberto por menos tempo, você pode acabar recebendo uma fatura com preço mais alto que seu consumo real", apontou a associação, por meio da campanha "O peso da luz", nas redes sociais.

Consumidores residenciais, por outro lado, poderiam ser ligeiramente beneficiados em caso de leituras pela média, uma vez que muitas pessoas têm trabalhado de casa devido às quarentenas, consumindo mais eletricidade.

A continuidade dessas leituras pela média por mais tempo, no entanto, poderá exigir ajustes regulatórios-- as regras atuais da Aneel para as distribuidoras não permitem que o procedimento seja realizado por mais de três meses.