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Da mudança climática à desigualdade, Lagarde torna Banco Central Europeu mais politizado

26/10/2020 10h11

Por Balazs Koranyi e Francesco Canepa e Frank Siebelt

FRANKFURT (Reuters) - Desde que assumiu o comando, um ano atrás, Christine Lagarde voltou a atenção do Banco Central Europeu (BCE) a questões sociais como a mudança climática e a desigualdade, ampliando seus horizontes mas também sujeitando-o a ataques que podem testar sua independência.

Os esforços de Lagarde de usar a alavancagem do banco para combater o aquecimento global, a desigualdade de gênero e a disparidade de renda podem ter sido ofuscados pela pandemia de coronavírus e a recessão profunda que ela desencadeou.

Mas eles ainda podem remodelar a instituição mais poderosa da união monetária e ajudar a redefinir o papel do BC em uma era na qual a ameaça da inflação desenfreada saiu de cena.

Como instituição, o BCE é único. Sua presidente tem um poder incomparável para influenciar a formulação de políticas monetárias e o debate econômico mais abrangente – como o antecessor de Lagarde, Mario Draghi, demonstrou em 2012 ao dizer que o banco faria "todo o necessário" para salvar o euro, pegando mercados e alguns colegas de surpresa.

O papel do banco também está aberto a interpretações por causa de um tratado cuja redação é vaga.

Diferentemente do Fed norte-americano, que tem o mandato duplo de zelar pela estabilidade dos preços e do emprego, o BCE precisa primeiro manter os preços estáveis e depois apoiar as "políticas econômicas gerais" da União Europeia.

Contrastando fortemente de seus antecessores, todos homens com diplomas em economia e décadas de experiência em bancos centrais, a ex-política Lagarde mostrou disposição para usar este espaço de manobra para promove o bem-estar social mais amplo da zona do euro.

"Além do ângulo estreito do qual, historicamente, olhamos a política monetária ao longo das últimas décadas, precisamos ampliar o horizonte e ser corajosos ao enfrentar algumas destas questões, embora elas não sejam as áreas tradicionais paras as quais os economistas monetários olham", disse Lagarde na semana passada.

Para o BCE, trata-se de uma missão nova. Seu ex-chefe Jean Claude Trichet diria que combater a inflação é o único ponteiro da bússola do banco, e Draghi alertou muitas vezes para os perigos de burocratas sem cargos eletivos irem além da definição de seu mandato – mas Lagarde diz que o BCE precisa evoluir com o tempo.