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BC está "supertranquilo" com inflação e não vê motivação para política monetária diferente, diz Kanczuk

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Fábio Kanczuk, em sabatina no Senado - Por Marcela Ayres
O diretor de Política Econômica do Banco Central, Fábio Kanczuk, em sabatina no Senado Imagem: Por Marcela Ayres

06/11/2020 15h21

Por Marcela Ayres

BRASÍLIA (Reuters) - O diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, afirmou nesta sexta-feira que há pressão inflacionária corrente na economia brasileira, mas que a autoridade monetária não vê o movimento adentrando 2021 e 2022, razão pela qual segue "supertranquilo".

"Isso não deve fazer política monetária ser diferente", disse ele em participação online no evento Itaú MacroVision. "Na nossa leitura, é algo temporário."

Kanczuk destacou que parte da inflação de curto prazo mais alta já era esperada pelo BC conforme foi comunicado em setembro. Ele reconheceu que a magnitude do avanço foi maior, mas frisou que isso não deve constituir um problema para os próximos dois anos —horizonte relevante para a política monetária—, já que o BC prevê retração da demanda "semiartificial" impulsionada pelo auxílio emergencial, com volta do hiato do produto e dos preços.

"Antes da pandemia a gente estava com hiato grande e estava com a inflação muito baixa. Então o cancelamento da pandemia voltaria para essa situação onde a inflação baixa era um problema, e não inflação alta", frisou.

"Na cabeça do Banco Central as coisas estão acontecendo meio como a gente esperava", disse. "A gente está de olho, até porque é nosso trabalho ver em que sentido isso se manifesta no resto dos preços, mas por enquanto, supertranquilo."

Em outubro, o IPCA subiu 0,86%, resultado mais elevado para o mês em 18 anos, conforme dados divulgados nesta manhã pelo IBGE. Em 12 meses, o avanço da inflação é de 3,92%, ficando praticamente no centro da meta para este ano, que é de 4% com margem de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.

Segundo Kanczuk, ao olhar a inflação, incluindo a divulgação do IPCA desta quinta-feira, o BC vê a influência da alta dos alimentos e de parte de bens industriais comercializáveis, com funcionamento do passthrough —repasse cambial do dólar mais alto aos preços.

Ele também lembrou que nos últimos "poucos meses" houve aumento das commodities em reais de mais de 20%, com impacto "relevante" na inflação.

A análise é que produtos como eletrodomésticos "subiram bem", disse o diretor, mas num movimento ligado à crise, já que houve uma demanda inchada principalmente nas classes mais baixas, que tiveram recomposição de renda provida pelo governo em níveis acima dos que eram vistos no cenário pré-pandemia.

"Isso a gente, de novo, vê como algo temporário", afirmou Kanczuk. "Com a retração desses estímulos, desses auxílios, a coisa volta à situação normal e é o que a gente espera que vai acontecer no horizonte relevante."

Em sua fala, Kanczuk também considerou que, dado o quadro atual, o estímulo monetário proveniente da Selic em 2% ao ano, combinado com a mensagem de 'forward guidance' do BC de que não subirá os juros desde que algumas condições sejam satisfeitas, "parece ok" para a autoridade perseguir o centro da meta de inflação em 2021 e 2022.

"A comunicação é alguma coisa assim: eu estou preocupado com o fiscal, quando eu olho meu balanço de riscos já está ok, não vejo motivação nenhuma para prover mais estímulo", disse.

ATUAÇÃO NO CÂMBIO

O diretor indicou que a autoridade monetária deve atuar no final do ano no mercado de câmbio em função de grande fluxo esperado no país pela questão do overhedge dos bancos.

De acordo com Kanczuk, o BC tem o tema "super bem monitorado", já que a zeragem de overhedge tem que acontecer neste ano, num ambiente com existência de amarras e restrições de capital dos bancos e fundos, que podem fazer com que o movimento crie problemas. Ele pontuou ser trabalho do BC impedir esses problemas.

"O mercado precisa ser espesso, grosso o suficiente para aguentar um fluxo muito grande que vai acontecer no finalzinho do ano, e o Banco Central (está) pensando em alternativas de como não deixar que esse fluxo seja disruptivo", disse ele.

"A gente tem dúvida se mercado tem espessura suficiente para isso e acha que vai precisar dar alguma ajuda para isso não chacoalhar e com isso o Brasil inteiro sair prejudicado", completou.