PUBLICIDADE
IPCA
1,06 Abr.2022
Topo

Dólar fecha a R$5,051, mínima em quase 8 meses, com rotação de fluxos para Brasil

22/02/2022 17h09

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) -O dólar prosseguiu em queda nesta terça-feira, no terceiro pregão seguido de baixa e para mínimas em quase oito meses, com a moeda chegando a operar na casa de 5,04 reais à medida que investidores globais voltaram a privilegiar divisas de juros mais elevados e atreladas às commodities.

O mercado ainda teve fôlego para derrubar o dólar a novas mínimas já no fim da sessão, conforme os ativos externos melhoraram de sinal em meio a declarações do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sobre tensões geopolíticas em torno de Rússia, Ucrânia e Ocidente.

O dólar à vista fechou em queda de 1,08%, a 5,051 reais na venda. É o menor valor desde 1º de julho do ano passado (5,0447 reais). A cotação variou no dia de 5,109 reais (+0,06%) a 5,0445 reais (-1,20%).

Pelo gráfico, patamares em torno de 5,0400 reais (mínima intradiária do fim de julho de 2021) e entre 4,9500 reais e 5,0000 reais seriam importantes suportes a serem rompidos neste momento.

Em fevereiro, o dólar recua 4,80%, intensificando a queda em 2022 para 9,37%. O real tem o melhor desempenho no mês e no ano entre as principais moedas.

O dólar perdeu terreno nesta terça-feira também em outros mercados como Chile, Colômbia e África do Sul --todos países exportadores de matérias-primas, que estão em rali em meio a uma combinação de restrições ainda relacionadas à pandemia e tensões geopolíticas.

Quanto mais altos os preços das commodities, mais dinheiro tende a ingressar nos países que as exportam, aumentando, assim, a oferta de moeda estrangeira --o que joga a favor de um dólar mais baixo.

Até o rublo russo se recuperou nesta terça-feira, marcando alta de 1,9% no fim da tarde, depois de sofrer vendas devido ao acirramento dos ânimos entre Rússia, Ucrânia e o Ocidente.

Por ora, a crise geopolítica não alterou a dinâmica de rotação de fluxos para mercados emergentes, onde no momento investidores veem avaliações mais atrativas.

O Brasil tem sido destaque na rotação global de fluxos, mas o vizinho Chile --que também ostenta juro mais alto e se beneficia de preços mais altos de commodities-- está entre os mercados atraentes do momento. O peso chileno apreciava 0,7% nesta sessão e saltava 7,6% em 2022, segundo melhor desempenho global, perdendo apenas para a moeda brasileira.

A preferência por mercados específicos é explicada por uma série de fatores. Em linhas gerais, Índia por algumas contas estaria "esticada" --a rupia perde 0,3% ante o dólar no ano--, enquanto na China há temores de aperto regulatório --apenas para citar alguns exemplos.

"É direcionar fluxo para onde tem mais oportunidades de ganho", comentou um profissional da área de câmbio de um banco estrangeiro. "Isso é trivial: se o juro cobre o risco cambial que internaliza o diferencial de inflação, vale a pena --no caso, commodities em alta e oportunidades em juros para quem tem 'hedge' (proteção)", acrescentou.

Em evento nesta terça, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, referendou essa narrativa ao dizer que a taxa de câmbio brasileira tem sido amparada por uma combinação entre juro mais alto, surpresa benigna do lado fiscal e rotação de ativos, a qual tem gerado entre investidores percepção de que é "importante entrar agora".

Ele lembrou que as compras de dólares feitas no ano passado por investidores para adequação a uma mudança nas regras de tributação do overhedge também deixaram de pesar sobre o real.

O noticiário político-econômico de Brasília serviu de pano de fundo positivo ao mercado cambial nesta sessão.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou nesta terça-feira que o Congresso vai tentar manter um ritmo de votações este ano, apesar das eleições, mas não fará nenhum movimento que possa trazer instabilidade econômica, mexer com teto de gastos ou afetar a taxa de câmbio ou o crescimento do país.

Ele afirmou ainda que as Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que mexem com a tributação dos combustíveis estão descartadas no momento e o Congresso irá se concentrar na aprovação do PLP 110, que está no Senado.