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Ibovespa cai com receios de recessão nos EUA e maior carga tributária no Brasil

05/04/2023 18h07

Por Paula Arend Laier

SÃO PAULO (Reuters) - O Ibovespa fechou em queda nesta quarta-feira, em meio a preocupações com o ritmo da atividade econômica norte-americana, enquanto, no Brasil, permanece a cautela com potenciais medidas para aumentar as receitas do governo.

Declarações do presidente do Banco Central (BC), porém, ajudaram a reduzir as perdas.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa caiu 0,88%, a 100.977,85 pontos. No pior momento, chegou a 99.897,78 pontos. O volume financeiro somou 23,5 bilhões de reais.

Nos Estados Unidos, dados mostraram que o setor de serviços desacelerou mais do que o esperado em março, enquanto empregadores do setor privado contrataram muito menos trabalhadores do que as estimativas de analistas no mês passado.

De acordo com Rafael Bombini, assessor de investimentos da DOM Investimentos, os dados reforçaram as preocupações com uma eventual recessão naquele país. "Isso ofuscou o contraponto positivo de uma potencial interrupção do ciclo de aperto monetário norte-americano", acrescentou.

Alan Dias Pimentel, especialista em renda variável da Blue3 Investimentos, acrescentou que dados mais fracos eram esperados, mas não "tão fracos", o que faz o mercado vislumbrar uma recessão no horizonte, não apenas uma desaceleração econômica. "Isso traz aversão a risco", reforçou.

Além do cenário norte-americano, a bolsa brasileira também continua fragilizada pela dúvida de um eventual aumento de carga tributária, na esteira dos planos do governo para elevar receitas e melhorar o resultado fiscal do país.

"Tem incerteza com relação a essa nova tributação", disse Luiz Adriano Martinez, sócio e gestor de renda variável da Kilima Asset, ponderando que o setor de consumo cíclico, por exemplo, que seria beneficiado pelo fechamento da curva de juros recente, está sofrendo por causa desse receio.

Há expectativa de que novas medidas sejam anunciadas nos próximos dias. Ao deixar o Ministério da Fazenda, em Brasília, o ministro Fernando Haddad desejou boa Páscoa aos jornalistas que o esperavam e disse que volta segunda-feira "com novidades".

Um contraponto positivo na sessão, na visão dos profissionais ouvidos pela Reuters, e que ajudou no fechamento da curva de juros, foram as declarações do presidente do BC, Roberto Campos Neto, entre elas de que a avaliação sobre o novo arcabouço é "super positiva".

Em evento do Bradesco BBI, Campos Neto afirmou que o que foi anunciado até o momento sobre o arcabouço fiscal ameniza preocupações com uma trajetória mais explosiva da dívida pública, mas ressaltou que é preciso acompanhar como a proposta vai caminhar no Congresso e que há "ansiedade" sobre as receitas.

"São aspectos favoráveis para a percepção do mercado em relação à questão do risco fiscal e também da taxa de juros", disse Luciano Costa, economista-chefe e sócio da Monte Bravo Investimentos.

Para o assessor da DOM Investimentos, Campos Neto adotou um discurso mais apaziguador, embora não tenha sinalizado um início de corte de juros, pelo menos não imediatamente.

"O que a gente viu foi um presidente do Banco Central um pouco mais alinhado com os interesses do governo e também um pouco otimista com os movimentos do governo pra convergir a inflação para a meta", acrescentou o especialista da Blue3.

Na visão de Pimentel, o governo e o BC trabalhando com interesses em comum significa que, talvez, a política monetária possa ser menos contracionista neste ano.

DESTAQUES

- VALE ON fechou em baixa de 1,47%, a 76,89 reais, principal pressão negativa, em sessão com feriado na China, um dia após a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma do país asiático afirmar que intensificará a supervisão dos mercados de minério de ferro.

- PETROBRAS PN subiu 0,33%, a 24,35 reais, revertendo as perdas registradas em parte da sessão. No pior momento, chegou a 23,27 reais, após declarações do ministro de Minas e Energia sobre mudanças na política de preços da estatal. Em comunicado na sequência, a companhia declarou que reafirma seu compromisso com a prática de preços competitivos de combustíveis e acrescentou que não recebeu nenhuma proposta do ministério a respeito da alteração da política de preços.

- BTG PACTUAL UNIT avançou 1,73%, a 20,57 reais, em sessão sem tendência única entre os bancos do Ibovespa. ITAÚ UNIBANCO PN terminou com variação negativa de 0,08%, a 24,49 reais, enquanto BRADESCO PN valorizou-se 0,84%, a 13,22 reais.

- NATURA&CO ON caiu 9,61%, a 11,85 reais, ampliando as perdas da véspera, em meio a visões divergentes relacionadas ao acordo para a venda da marca Aesop à L'Oréal por 2,53 bilhões de dólares. Apesar do alívio em termos de estrutura de capital esperado com a operação, alguns analistas avaliaram que, no curto e médio prazos, o resultado operacional da Natura&Co ficará ainda mais pressionado, uma vez que a operação da Aesop trazia uma contribuição positiva para o consolidado.

- ASSAÍ ON recuou 4,77%, a 13,97 reais. Analistas do Citi cortaram o preço-alvo dos papéis de 24 reais para 20 reais, citando que o cenário não é tão positivo neste ano, com desaceleração da inflação alimentar, processo de conversão de lojas mais gradual, entre outros. Ainda assim, eles mantiveram recomendação de "compra". No setor, GPA ON caiu 0,96%, a 14,48 reais.

- VIA ON avançou 6,36%, a 1,84 real, reagindo após atingir mínima intradia desde fevereiro de 2016, a 1,65 real. No setor, MAGAZINA LUIZA ON subiu 1,86%, a 3,28 reais.

- QUALICORP ON ganhou 2,77%, a 3,71 reais, com analistas do UBS elevando a recomendação das ações para "neutra", embora tenham reduzido o preço-alvo de 6,50 reais para 4 reais. Eles avaliaram que os papéis já precificam deterioração adicional nos fundamentos da companhia e veem risco limitado de queda nos níveis atuais. Ainda assim, destacaram que os resultados de 2022 evidenciaram recuperação ainda incerta enquanto persistem os desequilíbrios setoriais.