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Mulher indígena recebe prêmio por campanha contra empresas de mineração na Amazônia

24/04/2023 19h56

Por Anthony Boadle

BRASÍLIA (Reuters) - Alessandra Korap Munduruku, que liderou uma campanha que levou corporações mineradoras a respeitarem o território do seu povo indígena na Floresta Amazônica, recebeu o prêmio Goldman de Meio-Ambiente.

    Ela está entre seis vencedores de 2023 de diferentes partes do mundo que receberam o prêmio por feitos e liderança de ativistas ambientais de base, entregue pela Fundação Goldman, sediada em São Francisco.

    Em maio de 2021, a Anglo American concordou em retirar 27 pedidos aprovados de pesquisa para mineração em terras indígenas, segundo a fundação, inclusive no território Sawré Muybu, de Alessandra Munduruku, com 161.000 hectares de floresta tropical no rio Tapajós perto de Itaituba no Para.

    “É um reconhecimento da luta do nosso povo. Diz ao mundo que estamos aqui. As empresas internacionais e nacionais não podem entrar sem consultar o povo indígena, não podem apenas conversar com o governo do Estado, têm que conversar com a gente”, disse a indígena à Reuters, pelo telefone.

    A Fundação Goldman disse que a empresa informou o governo brasileiro na época que estava retirando os pedidos de prospecção por causa de preocupações levantadas por comunidades indígenas.

    A mineradora britânica disse que tem estado em contato nos últimos anos com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a ONG ambientalista Amazon Watch para entender as preocupações indígenas.

"A Anglo American não possui nenhuma autorização de exploração em florestas originais ou em terras indígenas no Brasil. Nem temos planos de fazê-lo", disse a empresa em comunicado à Reuters.

    Após a decisão da Anglo American, outras grandes empresas de mineração anunciaram que também desistiriam de licenças de prospecção em terras indígenas no Brasil, afirmou a fundação, um fato corroborado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

    Em 2022, pela primeira vez em décadas, nenhuma das suas 130 empresas tiveram pedidos de mineração em territórios indígenas, disse um assessor do Ibram.

    “A campanha bem-sucedida de Alessandra representa uma mudança significativa na responsabilidade do setor privado em relação à mineração destrutiva no Brasil, em meio a uma pressão governamental intensa pela extração na Amazônia”, disse a fundação, em um comunicado.

    O que tornou a campanha mais notável foi ter cumprido seu objetivo durante o governo do então presidente Jair Bolsonaro, que reduziu proteções ambientais e defendeu a permissão para mineração comercial e agricultura em grande escala em terras indígenas.

    Empresas mineradoras internacionais pararam de prospectar em terras Munduruku, mas Alessandra disse que o seu povo ainda está ameaçado por garmpeiros que invadiram ilegalmente seu território em uma quantidade crescente durante o governo Bolsonaro, enquanto a destruição da Amazônia disparou para o seu pior patamar em 15 anos.

    O território Sawré Muybu permanece ameaçado pelo garimpo e mineradoras porque sua demarcação como terra indígena ainda não foi homologada. Ela pediu que o novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o faça com urgência.

    Alessandra, de 38 anos, usará o dinheiro do prêmio para terminar seu curso de direito na faculdade.