Expectativas desancoradas ainda são "questão importante" para BC, diz Guardado

Por Fabricio de Castro

(Reuters) - A diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central, Fernanda Guardado, afirmou nesta terça-feira que as expectativas de inflação desancoradas no Brasil ainda são uma "questão importante" e que ainda há motivos que demandam cautela por parte da instituição na política monetária.

Durante evento do Morgan Stanley, em São Paulo, Guardado citou, entre os fatores que inspiram cautela, a incerteza sobre a inflação de serviços, sobre a inflação de salários e as questões externas.

Por outro lado, questionada no evento sobre o futuro da política monetária, Guardado reafirmou que os dirigentes do BC estão "confortáveis" com o ritmo de cortes de 0,50 ponto percentual da taxa básica Selic, que vem sendo sinalizado pela autoridade monetária.

"Precisaria ter surpresas relevantes para haver revisões tanto para cima quanto para baixo no ritmo de cortes", afirmou. "O ritmo atual é o que a gente está bastante confortável e o que é compatível com o que a gente está observando até agora."

O BC iniciou o atual ciclo da Selic em agosto, com corte de 0,50 ponto percentual. Este ritmo foi mantido nas duas reuniões posteriores e a instituição também sinalizou a intenção de promover mais cortes de meio ponto percentual nos próximos encontros de política monetária. Atualmente, a Selic está em 12,25% ao ano.

Embora a taxa básica se mantenha em patamares elevados, de dois dígitos, as expectativas de mercado ainda apontam para uma inflação acima dos centros das metas para este e os próximos anos. O relatório Focus indica que a mediana projetada para a inflação em 2023 é de 4,53%, ante meta de 3,25%. No caso de 2024, a projeção é de 3,91%, acima da meta de 3,00%. Para 2025, a expectativa é de 3,50%, também acima da meta de 3,00%.

Em sua fala, Guardado disse que uma das hipóteses possíveis para a desancoragem das expectativas de inflação no relatório Focus está ligada à incerteza sobre o cumprimento da meta fiscal.

O governo persegue uma meta de resultado primário zero em 2024, mas no mercado financeiro a avaliação é de que o objetivo depende de aumento considerável de receitas.

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Conforme a diretora, a política fiscal é um "input" (entrada) para os modelos do BC e gera dois impactos. Em primeiro lugar, há um impacto inicial direto sobre os preços dos ativos e as expectativas de inflação. Segundo ela, este é o impacto mais importante.

Em segundo lugar, há um impacto que depende de como a política fiscal se desenrola, o que pode influenciar ou não a demanda na economia.

"Vemos necessidade de manter o compromisso com a meta fiscal para termos impacto positivo e virtuoso em expectativas de inflação e preços de ativos", comentou Guardado.

RENDA E PIB

Ainda ao analisar o cenário doméstico, a diretora do BC pontuou que o comprometimento da renda das famílias no Brasil "ainda está bastante elevado", apesar das quedas recentes. Para ela, programas como Desenrola, do governo federal, ajudam a acomodar o endividamento.

Guardado afirmou ainda que, após o impacto positivo "importante" da agricultura sobre o Produto Interno Bruto no primeiro trimestre, já se observa uma "moderação" no ritmo de crescimento brasileiro.

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A diretora pontuou que os índices de confiança, entre o fim do terceiro trimestre e o início do quarto trimestre, deterioraram-se e que o setor de serviços tem moderado sua expansão.

"Talvez isso explique um pouco esta inflação de serviços mais benigna que temos enxergado mais recentemente", disse. "Serviços subjacentes estão comportados; está dentro da nossa expectativa", afirmou, em outro momento da apresentação.

Ao avaliar o mercado de trabalho, ela disse que a geração de empregos pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) vem desacelerando, embora ainda rode acima da média histórica.

Na tarde desta terça-feira, o Ministério do Trabalho e Previdência informou que o país abriu 190.366 vagas formais de trabalho em outubro -- um resultado bem acima da expectativa em pesquisa da Reuters de criação líquida de 123.400 empregos, mas abaixo do saldo positivo de 205.106 de setembro.

CENÁRIO GLOBAL

Guardado disse ainda que o mundo está "caminhando" em seu ciclo de desinflação, com recuos significativos dos núcleos inflacionários e sinais de melhora nos preços de serviços. No entanto, ela destacou que o mercado de trabalho resiliente ainda traz incerteza a esse cenário.

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"O mercado de trabalho está robusto e resiliente em diversos países", avaliou. "A gente observa que tem este fenômeno de taxa de desemprego baixa em vários países."

Ao tratar da trajetória recente dos juros dos títulos norte-americanos, a diretora do BC avaliou que, nas últimas semanas, houve um afrouxamento "importante" das condições financeiras. Ao mesmo tempo, disse que países emergentes que fizeram a luta contra inflação de forma mais rápida -- como o Brasil -- estão tendo comportamento "bastante benigno" durante a movimentação recente dos mercados.

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