Em nova versão, brasileiro preso por suposto laço com Hezbollah diz ter recebido oferta de US$100 mil para matar

Por Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - O músico carioca Michael Messias, um dos três brasileiros presos pela Polícia Federal por suspeita de envolvimento com o Hezbollah, mudou sua versão inicial e afirmou agora que foi aliciado para realizar um atentado no Brasil, tendo recebido uma oferta de embolsar mais de 100 mil dólares para matar pessoas, segundo o novo depoimento dele, que foi visto pela Reuters.

Durante uma viagem que fez ao Líbano, segundo declarações prestadas à PF em 22 de novembro, Messias disse ter sido questionado se fazia parte de alguma facção criminosa e se seria capaz de cometer assassinatos. As abordagens teriam sido feitas por pessoas ligadas ao grupo, incluindo Mohamad Khir Abdulmajid, um sírio naturalizado brasileiro apontado pela investigação da PF como o principal elo do Hezbollah no Brasil. Abdulmajid está foragido.

Messias relatou no depoimento que respondeu às abordagens sempre negativamente. O músico disse que, em uma das ocasiões, um indivíduo insistiu perguntando se ele "não seria capaz de matar mesmo por muito dinheiro, por 100 mil dólares ou mais", no que ele respondeu "novamente que não", conforme a transcrição das declarações feitas à PF.

No novo depoimento, Messias disse que queria retificar as informações prestadas anteriormente dando detalhes da viagem ao Líbano porque ficou "muito assustado e surpreso" com a prisão.

Nas primeiras declarações à PF, no último dia 12, quando foi preso, o músico havia dito que conhecera Abdulmajid em um casamento de libaneses no Rio de Janeiro em 2022, ocasião em que ele teria sido convidado para ir ao Líbano "em razão da música".

O investigado havia dito ainda, na primeira fala à PF, que a viagem fora custeada por Abdulmajid e que, fora a música, não foi contactado para fazer atividades ilícitas e que não teria visto qualquer insígnia do Hezbollah no Brasil ou no Líbano.

Uma fonte da PF havia dito à Reuters, após o primeiro relato de Messias, que esse depoimento dele não era crível e parecia ensaiado para não implicar ele e outros envolvidos com o Hezbollah.

No dia 8 de novembro, uma operação da PF prendeu inicialmente duas pessoas em uma operação para desmembrar uma suposta célula do grupo militante libanês Hezbollah que estaria planejando ataques a alvos judaicos no Brasil. Messias foi preso na semana seguinte, em um desdobramento da primeira operação.

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Um outro preso afirmou à PF em depoimento que, em viagem que fez a Beirute em abril após ser recrutado no Brasil, encontrou-se reservadamente com o que seria um chefe da organização que lhe disse que "precisava de gente capaz de matar e sequestrar".

A agência de espionagem israelense Mossad disse em uma declaração que ajudou o Brasil a frustrar um ataque.

A PF procura avançar nas investigações sobre a eventual presença do Hezbollah no Brasil a partir da colheita de depoimentos e de provas obtidas em busca e apreensão de endereços de pessoas ligadas, bem como de informações em nuvem de aparelhos celulares e outros sistemas eletrônicos dos detidos, segundo a fonte da corporação.

Procurada, a assessoria da PF não se manifestou sobre pedido de comentário a respeito do novo depoimento de Messias. A Reuters não localizou até o momento um representante legal dele, que segue preso.

HOTEL DE LUXO E DEPÓSITO

Em seu novo depoimento, Messias afirmou que Abdulmajid pagou as passagens para Beirute, buscando-o no aeroporto e o levando a um hotel de luxo em frente ao mar.

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Ele disse que, em certo momento da viagem, Abdulmajid lhe procurou para saber se estava tudo bem. Ele respondeu que estava passando por dificuldades porque era ele quem sustentava a família e estava distante. Aproveitou para pedir a Abdulmajid que fizesse um depósito de 500 reais na conta da sua mulher.

O investigado disse então ter passado os dados bancários da conta da sua esposa para Abdulmajid e que ele posteriormente confirmou com sua esposa o crédito na conta.

O Hezbollah, um grupo fortemente armado apoiado pelo Irã, não pôde ser contactado para comentar o assunto. O grupo foi designado como organização terrorista pela Argentina, Reino Unido, Canadá, Alemanha, Honduras e Estados Unidos, bem como pela maioria dos Estados do Golfo aliados dos EUA.

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