Países em desenvolvimento gastaram recorde de US$443,5 bi com serviço de dívida em 2022, diz Banco Mundial

Por Andrea Shalal

WASHINGTON (Reuters) - Países em desenvolvimento gastaram quase meio trilhão de dólares para pagar o serviço de suas dívidas públicas ou com garantia pública em 2022, drenando recursos de setores criticamente necessários como saúde, educação e clima, e colocando países mais pobres em risco crescente de "cair em uma crise de dívida", disse o Banco Mundial nesta quarta-feira.

Em seu mais recente relatório sobre a dívida internacional, o banco disse que os pagamentos do serviço da dívida -- incluindo principal e juros -- aumentaram 5% para um recorde de 443,5 bilhões de dólares em relação ao ano anterior, em meio à maior alta das taxas de juros globais em quatro décadas. O banco disse que os pagamentos poderiam aumentar 10% no período 2023-2024.

Os 75 países mais pobres foram os mais atingidos, segundo o relatório, que está em seu 50º ano. Os pagamentos do serviço da dívida pública externa desses países atingiram um recorde de 88,9 bilhões de dólares em 2022 e devem aumentar 40% no período 2023-2024. Somente os pagamentos de juros quadruplicaram desde 2012, chegando a 23,6 bilhões de dólares, segundo o relatório.

"Esta é a década do ajuste de contas", disse o economista-chefe do Banco Mundial, Indermit Gill, em uma entrevista à Reuters. "Os níveis recordes de endividamento e as altas taxas de juros colocaram muitos países em um caminho para a crise", disse ele, alertando que a continuidade das altas taxas de juros levará mais países em desenvolvimento a se endividarem.

Gill disse a repórteres que os custos elevados do serviço da dívida, os altos encargos da dívida e a desaceleração do crescimento em muitos países levantaram preocupações sobre uma nova crise da dívida e o risco de contágio, mas disse não ver esse risco como "iminente".

Ele disse que a situação permanecerá difícil para os países em desenvolvimento, com a experiência passada indicando que as taxas de juros provavelmente não baixarão "tão cedo", especialmente porque os choques de oferta podem elevar a inflação novamente com rapidez.

Gill pediu uma "ação rápida e coordenada" por parte dos países devedores, credores privados e oficiais e instituições financeiras multilaterais para melhorar a transparência, desenvolver melhores ferramentas de sustentabilidade da dívida e acelerar as reestruturações da dívida.

O relatório afirma que um em cada quatro países em desenvolvimento está agora fora dos mercados de capital internacionais e que houve 18 episódios de inadimplência de dívidas soberanas em 10 países nos últimos três anos, mais do que nas duas últimas décadas juntas.

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Os pagamentos do serviço da dívida consumiram uma parcela cada vez maior das receitas de exportação, com alguns países agora "a apenas um choque de distância de uma crise da dívida", escreveu Gill no relatório, observando que cerca de 60% dos países de baixa renda já estão em dificuldades com a dívida ou correm o risco de ficarem em dificuldades com a dívida.

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