BC vê mercado de trabalho como ponto de atenção e aponta pressão do El Niño sobre preços

Por Bernardo Caram

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central avalia que a evolução do mercado de trabalho e da ociosidade da economia é relevante para o comportamento de preços à frente, de acordo com a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) publicada nesta terça-feira, reforçando que as expectativas de inflação seguem desancoradas e são fator de preocupação.

O documento ainda passou a apontar que, após acumular mais evidências, o BC elevou um pouco o impacto inflacionário do El Niño sobre a inflação de alimentos. A avaliação representa mudança em relação a análise feita em novembro, que apontava "impacto relativamente pequeno" do fenômeno climático sobre os preços.

A ata mostrou que o mercado de trabalho segue aquecido no Brasil, com "alguma moderação na margem", ressaltando que os dados referentes à contratação no emprego formal se mantêm em níveis elevados e compatíveis com um mercado de trabalho bastante dinâmico.

"A evolução prospectiva do hiato do produto e o comportamento do mercado de trabalho foram considerados muito relevantes para determinar a velocidade com que a inflação atingirá a meta", apontou o documento.

O documento ressaltou ainda que foi observada ampliação dos ganhos reais de salários no período mais recente, o que pode refletir questões temporárias, ainda sem evidência de pressões salariais.

"É importante seguir monitorando com bastante atenção as diferentes variáveis do mercado de trabalho, em particular com um acompanhamento minucioso da dinâmica de rendimentos reais", disse.

O Comitê considerou que o mercado de trabalho aquecido e o apertado hiato do produto -- espaço que a economia tem para crescer até atingir sua capacidade máxima e começar a gerar pressão inflacionária -- é fonte de incerteza sobre a desinflação de várias economias avançadas.

SURPRESA

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Em setor considerado crucial para o processo de desinflação, o documento afirmou que o Copom notou "alguma surpresa para baixo" no componente de serviços subjacentes, dado que desconsidera itens mais voláteis, "o que ensejou um debate das razões para esse resultado".

De acordo com a ata, entre as possibilidades para esse movimento estão a normalização de preços relativos, o impacto inercial da inflação cheia, o comportamento benigno de salários, o movimento mais acentuado dos choques primários de commodities e alimentação e os impactos defasados da política monetária.

Em relação à atividade doméstica, o BC afirmou que embora seja observada desaceleração já esperada, o consumo das famílias novamente surpreendeu positivamente, podendo estar relacionado a um aumento de renda em função da expansão do mercado de trabalho, de benefícios sociais e de ganhos relacionados à desinflação.

Por outro lado, a ata disse que os investimentos observados no país seguem em queda, após uma forte elevação ao longo do período da pandemia.

"Alguns membros avaliaram que a persistência de uma conjunção de maior resiliência do consumo e queda no investimento poderia provocar, no médio prazo, um excesso de demanda em relação à oferta, com potenciais impactos sobre preços", afirmou.

O BC decidiu na semana passada fazer um quarto corte de 0,50 ponto percentual na taxa Selic, a 11,75% ao ano, e afirmou que sua diretoria antevê reduções equivalentes nas próximas reuniões.

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A decisão do colegiado, segundo o documento, envolveu a opção de se manter sua comunicação recente, "que já embute a condicionalidade apropriada em um ambiente incerto", especificando o curso de ação caso se confirme o cenário esperado.

Esse ritmo de corte da Selic, de acordo com o comunicado, conjuga o firme compromisso com a reancoragem de expectativas e a dinâmica desinflacionária e o ajuste no nível de aperto monetário em termos reais.

A ata reforçou que há necessidade de se manter uma política monetária ainda contracionista pelo horizonte relevante para que se consolide convergência da inflação.

De acordo com o BC, a incerteza, em particular no cenário internacional, que tem se mostrado volátil, prescreve cautela na política monetária, ainda que o ambiente externo demonstre estar menos adverso.

"Houve um progresso desinflacionário relevante, em linha com o antecipado pelo Comitê, mas ainda há um caminho longo a percorrer", afirmou.

Na avaliação do economista da ASA Investments Leonardo Costa, o tom da ata foi um pouco mais duro do que o apresentado no comunicado da semana passada, com o Copom vendo "pouco para celebrar" no processo de desaceleração da inflação doméstica, reforçando que ainda é preciso seguir com cautela na queda de juros.

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"A surpresa externa também não teve efeito sobre o discurso, com o BC indicando que não há relação mecânica do externo com a determinação de juros doméstica", afirmou.

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