Consumo de café na China dispara no embalo de cafeterias, favorece vendas do Brasil

Por Marcelo Teixeira, Casey Hall e Roberto Samora

NOVA YORK/PEQUIM/SÃO PAULO, 29 Dez (Reuters) - O consumo de café na China aumentou em dois dígitos na temporada 2022/23, impulsionado pela expansão das cafeteiras em várias das grandes cidades do país em meio a uma demanda crescente dos chineses mais jovens, o que tem favorecido embarques do Brasil, maior exportador global.

O volume de café consumido pela China na temporada 2022/23 (outubro-setembro) cresceu 15% ante o ano anterior para 3,08 milhões de sacas de 60 kg, de acordo com dados da Organização Internacional do Café (OIC) obtidos pela Reuters. Já o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) vê o consumo chinês em 5 milhões de sacas na nova temporada (2023/24).

Enquanto isso, as exportações de café brasileiro para a China superaram 1 milhão de sacas pela primeira vez em um ano, de acordo com dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), que agora coloca o gigante asiático como o oitavo principal destino do grão nacional.

"A China é uma realidade, não é algo pontual, podemos ter muitas surpresas com China ainda, sem dúvida nenhuma", disse o diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos, à Reuters.

O país asiático importou 1,152 milhão de sacas no acumulado deste ano até novembro, mais do que triplicando suas importações frente ao mesmo período de 2022, segundo dados do Cecafé.

Apesar do forte crescimento, em meio a uma disputa das redes de cafeterias pelos clientes, a China ainda tem um consumo relativamente modesto para o tamanho do país e quando se compara com os volumes dos dois maiores consumidores, os Estados Unidos e o Brasil, que demandam mais de 20 milhões de sacas por ano.

Entretanto, de acordo com o USDA, a nação asiática já será o sétimo maior consumidor mundial em 2023/24. O avanço no consumo ainda destaca o potencial da China para aumento da demanda e reflete uma mudança cultural sobre o hábito de beber café semelhante à vista em outros países asiáticos, como Japão e Coreia do Sul.

"A China tem muitos espaços... Mesmo exportar 1 milhão de sacas, pelo tamanho da China, com muitas regiões metropolitanas, cabe tanta coisa a mais", opinou Matos.

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As exportações brasileiras para a China em 2023 deverão representar um volume mais de dez vezes maior na comparação com 2017, quando o Brasil exportou apenas 82,56 mil sacas, segundo dados do Cecafé.

Esse aumento se dá muito pelas mudanças culturais relacionadas à população mais jovem, atraída por hábitos ocidentais.

"A maioria das pessoas no interior da China ainda bebe apenas chá, mas a geração mais jovem, os estudantes universitários, as pessoas que viajaram para o exterior, bebem café", disse Jeffrey Young, CEO do Grupo Alegra, uma empresa que organiza feiras de café em todo o mundo e publica dados sobre o mercado.

"É a geração jovem que vai impulsionar o consumo daqui para frente", afirmou.

Segundo o Alegra, a China superou recentemente os EUA como o país com o maior número de cafeterias de marca no mundo, crescendo surpreendentes 58% nos últimos 12 meses, para 49.691 pontos de venda.

Matos, do Cecafé, destacou que o crescimento do consumo na China é puxado pelos jovens, mulheres e por aquelas pessoas que circulam nos ambientes corporativos das grandes metrópoles.

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"O café é símbolo do Ocidente, da cultura ocidental, então por questão de status a pessoa vai à cafeteria, é um local de socialização para encontrar amigos", comentou.

Ruoxuan Zhao, uma estudante de 19 anos de Pequim, disse sentir que o café tem mais a ver com o estilo de vida acelerado dos jovens na China, onde cafeína é apreciada.

"Tomo café todos os dias. Comecei a beber quando fui para a faculdade", disse Zixi Zhao, uma estudante de Pequim de 20 anos. "Em geral, não bebo muito chá, mas minha mãe, meu pai, minha avó, todos bebem chá", disse ele.

O diretor-geral do Cecafé disse que o Brasil tem aproveitado este impulso das mudanças culturais, tendo concluído recentemente uma parceria com a rede chinesa de café Mellower para promover o grão brasileiro em áreas metropolitanas.

Ele comentou ainda que o Cecafé esteve conversando com a Luckin Coffee, maior rede de café da China, visando um projeto semelhante.

CAFÉ DE ALTA QUALIDADE

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Stephen Hurst, fundador da Mercanta, um comerciante de cafés especiais com operações na Ásia e na China, disse que além do forte crescimento em volume, outro aspecto da indústria cafeeira na China é que as lojas e os consumidores procuram grãos de alta qualidade.

"Eles procuram variedades incomuns, premiadas, raras e processos de produção inovadores", disse ele, acrescentando que esta também é uma característica do mercado asiático em geral.

"Cerca de 90% dos cafés de elite do leilão Cup of Excellence de múltiplas origens são vendidos a compradores asiáticos. Esse fenômeno existe há anos, até décadas."

"Só para você ver que este consumo é puxado por cafeterias, que vendem arábicas, querem moer, fazer a torra própria, querem desenvolver os próprios 'blends', tem um público mais seleto", acrescentou Matos, do Cecafé.

Matthew Barry, analista de bebidas da Euromonitor, disse que há uma competição acirrada entre redes locais, que tentam abocanhar a maior fatia possível do mercado em crescimento, e empresas estrangeiras como a Starbucks, que abriu mais de 700 lojas na China só no ano passado.

O Alegra estima que a chinesa Luckin Coffee adicionou 5.059 lojas nos últimos 12 meses, enquanto outra rede chinesa, a Cotti Coffee, abriu 6.004 pontos de venda no período.

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"A escala da oportunidade é tal que ambas (cadeias locais e internacionais) terão de ser muito agressivas no confronto umas com as outras e penso que isso deverá garantir um mercado muito dinâmico nos próximos anos", disse Barry.

O presidente-executivo da Luckin, Jinyi Guo, disse durante a conferência de resultados do terceiro trimestre da empresa que "conquistar participação de mercado" era um dos principais objetivos das empresas.

A Luckin abriu 2.400 lojas somente no terceiro trimestre, elevando o número total de pontos de venda no país para mais de 13.200.

(Reportagem de Roberto Samora em São Paulo; Marcelo Teixeira em Nova York; Sophie Yu, Casey Hall e redação de Pequim)

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