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Nova década perdida? Pandemia expõe antigas carências do Brasil, dizem economistas

Crise do coronavírus pode provocar segunda década perdida no Brasil, segundo especialistas - Getty Images
Crise do coronavírus pode provocar segunda década perdida no Brasil, segundo especialistas Imagem: Getty Images

29/01/2021 12h24

Como imaginar o mundo pós-pandemia, não em termos dos estragos feitos, mas de olho no futuro? E qual seria a posição do Brasil nesse cenário? Foi com esse desafio, que a Universidade de Columbia, de Nova York, reuniu mais de uma dezena de painelistas no evento online "Changing Role of the State: Brazil in Global Perspective", ou a "Mudança do papel do Estado: o Brasil na perspectiva global" (tradução livre), nesta quinta e sexta-feiras (28 e 29).

Economistas renomados analisam o choque ocorrido com a covid-19, que gerou incertezas e teve impacto diferente entre países e mesmo regiões.

Após passar por uma profunda recessão, a economia brasileira pode enfrentar a sua segunda década perdida, de acordo com a visão apresentada por participantes do evento. Depois de despontar entre as maiores economias do planeta, o país perdeu o caminho do crescimento e as dificuldades impostas pela crise sanitária expuseram ainda mais antigas carências.

"O Brasil, apesar de ter um pacote de estímulo significativo, só conseguiu mitigar de forma limitada o impacto da crise da covid-19", avalia Willem Buiter, um dos convidados da série de dez encontros que a instituição de ensino americana promove, numa parceria entre o Columbia Global Centers Rio de Janeiro e a SIPA (School of Internacional and Public Affairs) para tratar dos desafios das políticas fiscal e monetária, as desigualdades e a atenção dada à saúde em diferentes países.

Considerado um dos maiores comentaristas econômicos em atividade, Buiter compara o crescimento econômico de vários países antes da pandemia e as previsões para 2021.

De acordo com o professor de Columbia e ex-economista chefe do Citigroup, "nenhuma das economias avançadas deverá crescer, até 2022, no ritmo que crescia até 2019".

Os mercados emergentes e economias em desenvolvimento, acrescenta ele, "também não voltarão aos níveis de crescimento que apresentavam em 2019". No caso do Brasil, o economista destaca que o país já vinha tendo uma performance de crescimento baixo mesmo antes da pandemia.

Apesar de esperar por uma volta à normalidade após os primeiros resultados da vacinação, Buiter afirma que "não se pode deixar de considerar, também, a hipótese de que a imunização demore e que as contaminações continuem aumentando", o que significaria mais perdas ou estagnação do crescimento em 2021.

Brasil não resolveu problemas básicos como esgoto e educação

Para o professor de Economia da Universidade de Columbia e professor emérito de Economia de Princeton, José Scheinkman, "um dos problemas do Brasil é a baixa qualidade dos serviços governamentais", afirma, citando como exemplos a educação e o saneamento

A opinião é de quem conhece o Brasil de perto. Nascido no Rio de Janeiro, onde seus pais faziam parte da comunidade judaica, Scheinkman cresceu e foi educado no Brasil antes de se mudar para os Estados Unidos para cursar PhD em Economia na Universidade de Rochester, em Nova York.

Antes, ele fez bacharelado em Economia (1969) e Mestrado em Matemática (1970) na Universidade Federal do RJ e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada, ambos na capital fluminense.

O economista destaca que "o Brasil, que sempre teve um histórico de investir pouco em educação, nos últimos anos tem gastado cerca de 6,2% do PIB em educação, o que o coloca entre os 10 países que mais investem na área, segundo dados do Banco Mundial. No entanto, o resultado é muito pior do que o esperado", lamenta.

"No passado, algumas cidades brasileiras obtinham dinheiro de royalties do petróleo que deveriam ser usados em educação. Porém, embora tenham gastado muito mais, o resultado nesses municípios é ruim, não tem diferença em relação a outros, apesar do investimento", comenta o professor.

Quanto à campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil, Scheinkman, que já recebeu o título "doutor honoris causa" da Universidade Paris-Dauphine, usa regras do mundo econômico para explicar a reação do país frente ao problema.

"Quando se tem muita incerteza sobre o fornecimento, você diversifica as fontes e compra a mais, pois não sabe quais funcionarão. Essa foi a estratégia de quase todos os países em relação à vacina. Já o Brasil encomendou pouco em relação à sua população e de poucos laboratórios", analisa. "Você não pode fazer nada mais estúpido para chegar a uma solução de um problema dessa natureza", completa.

Scheinkman, que também já atuou como consultor de diversas instituições financeiras, ainda comentou a relação entre os impostos arrecadados no Brasil e o tamanho da rede de saneamento. "Embora arrecade muito em impostos, a porcentagem da população brasileira conectada à rede de saneamento está abaixo de 50%", afirma.

Estados Unidos acertou na vacina, errou na distribuição

De maneira geral, "as condições econômicas mundiais mudaram por causa da epidemia e da crise sanitária que a acompanhou, e não em razão da trajetória da atividade econômica em si", explica o professor de Relações Internacionais da Universidade de Columbia, Jak Lew. "A recessão foi realmente causada pela pandemia", reforça.

No caso americano, Lew destaca que o crescimento econômico era constante havia uma década, até que a pandemia freou toda a atividade, gerando recessão.

Ao comentar a reação do país à Covid-19, o professor, que também já foi Secretário do Tesouro dos EUA entre 2013 e 2017 no governo de Barack Obama, diz que o "o sucesso dos Estados Unidos foi a vacina, mas a falha foi a sua distribuição".

Ou seja, enquanto a ciência faz bem o seu papel, a logística da entrega das doses deixa a desejar, de acordo com o especialista, que prevê "um segundo semestre melhor, com a expectativa do avanço das campanhas de vacinação".

Entretanto, "os números fracos do PIB estão aí para mostrar que a tarefa é difícil", acrescenta. Além disso, "os problemas no mercado de trabalho deverão acompanhar os países, mesmo depois da pandemia", completa.

Ao analisar o cenário global, Jak Lew afirma que a China, apesar de não ter gerido bem o início da pandemia, "pôde contar com uma diferença de governança e capacidade de impor soluções que não seriam aceitas em outros países, para conter a circulação do vírus" e que, no final das contas, resultaram numa reação forte e bem sucedida à crise.

Quanto ao futuro, de acordo com o especialista, tudo vai depender de uma equação que envolve a probabilidade de "as pessoas poderem voltar para o trabalho e para a escola, o que gera impacto no crescimento".

'Europa sai mais forte politica e economicamente'

Ainda de acordo com o professor de Columbia Jak Lew, "a Europa respondeu bem e coletivamente a algo que não poderia ser resolvido individualmente por cada país". O americano, disse que lhe chamou a atenção o fato de que, "pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, a Europa fez tudo sem a ajuda dos Estados Unidos".

Porém, tanto o bloco europeu quanto os EUA enfrentarão cenários parecidos no futuro, com a necessidade de experimentar lockdowns mais ou menos rígidos e o uso constante dos gestos de barreira sanitária, o que afeta diretamente a economia.

Nos Estados Unidos, acrescenta Lew, a pergunta que muita gente se faz nesse momento é "se há um grupo de Republicanos querendo trabalhar com os Democratas para colocar para frente os projetos de consenso", questiona.

Quanto aos mercados emergentes, o professor explica que com menor capacidade de oferecerem uma resposta fiscal à crise, como visto nos países desenvolvidos, eles dependerão de uma reação global ao problema da pandemia.

A boa notícia é que "o Fed (Federal Reserve), juntamente com BCE (Banco Central Europeu), o Banco do Japão e quase todas as autoridades monetárias que têm capacidade estão usando as ferramentas possíveis para tentar levantar a economia mundial", explica Jak Lew. "Isso produz um ambiente de juros baixos", completa.

"O Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta crescimento econômico para o próximo ano, até melhor do que no seu último relatório, o que é um reflexo direto da chegada da vacina e da expectativa de um retorno à normalidade em breve", afirma.

Por fim, Jak Lew ainda comentou a indicação de Janet Yellen, a quem tratou de "amiga pessoal", escolhida para ser a primeira mulher a chefiar o Departamento do Tesouro americano. Lew celebrou a escolha do presidente Joe Biden dizendo que não conhecia alguém mais preparado para o cargo.

"Temos muita sorte. Ela tem a expertise econômica necessária e traz unidade, com uma liderança forte e com presença no cenário mundial. É uma professora por excelência", definiu.