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Com fila nos postos, Reino Unido quer fim de dependência de combustíveis fósseis até 2035

5.out.2021 - O primeiro-ministro Boris Johnson sentado dentro de um carro movido a hidrogênio em uma feira em Manchester, na Inglaterra - Paul Ellis/AFP
5.out.2021 - O primeiro-ministro Boris Johnson sentado dentro de um carro movido a hidrogênio em uma feira em Manchester, na Inglaterra Imagem: Paul Ellis/AFP

Vivian Oswald

Correspondente da RFI em Londres

05/10/2021 07h36

Ainda sem data para acabar, a crise dos combustíveis no Reino Unido assusta o cidadão comum, que tem recorrido às redes sociais atrás de postos de gasolina para encher o tanque. O caos é mais uma confirmação de quanto os países ainda dependem de fontes de energia não renováveis. Londres convocou 200 soldados do exército para reforçar o contingente de motoristas que precisam conduzir os caminhões-tanque necessários para repor os estoques pelo país.

Às vésperas da conferência do Clima, sediada em solo britânico, o governo do primeiro-ministro Boris Johnson garante que a partir de 2035 toda a eletricidade produzida no reino virá de matrizes limpas de energia — meta que é vista com ceticismo por especialistas.

A meta pode até ser factível. Mas é preciso uma nova agenda de medidas para torná-la viável, segundo especialistas. A meta em si agrada. E Johnson tem razão quando afirma que vai proteger o consumidor das oscilações dos preços de importação de petróleo e gás no futuro próximo. No entanto, o governo não diz com clareza como ela vai ser atingida e que novas medidas serão implementadas daqui para a frente. Com as ações em curso, o que se diz é que a meta não poderá ser atingida. Recentemente, o governo já havia anunciado o objetivo de suspender as vendas de veículos novos a diesel e a gasolina a partir de 2030.

O Reino Unido está apostando pesadamente na eletrificação da sua frota de veículos. No entanto, os carros elétricos ainda são caros. A insegurança do consumidor é grande, os pontos de abastecimento escassos. E há quem diga que não haverá geração de energia suficiente para carregar um país inteiro que circule em veículo elétricos.

Ceticismo às metas de Johnson

O fato é que as iniciativas deste governo, que está na presidência da COP26, que acontece no final do mês em Glasgow, são vistas com ceticismo até mesmo dentro do partido conservador de Boris Johnson. Há um comitê no parlamento britânico, conduzido por um conservador, que vem criticando as metas. Recentemente, mal foi lançada, uma nova política criada pelo governo atual para subsidiar a melhora do isolamento térmico das residências foi interrompida abruptamente.

A crise dos combustíveis prova que o nó é ainda maior. E confirma que, como a grande maioria dos países mundo afora, o Reino Unido ainda depende das energias não renováveis. Foram quilômetros de filas nos postos de gasolina nos últimos dias. Houve gente fazendo home-office enquanto esperava um bomba vaga para encher o tanque. Muita gente tem identificado a disponibilidade de combustíveis a partir de grupos nas redes sociais. Houve uma corrida aos postos quando se percebeu o risco de desabastecimento.

Consequências do Brexit

Desde o Brexit, que acabou com a livre circulação de trabalhadores entre o Reino Unido e o continente europeu, não há caminhoneiros em quantidades suficientes para transportar combustíveis e muitos alimentos. Embora a situação comece a se normalizar em várias partes do país, o problema continua grave especialmente em Londres e no sudeste da Inglaterra, áreas mais densamente povoadas. Até domingo, cerca de 20% dos postos nessas regiões estavam secos. A crise começou no último dia 23 de setembro, quando alguns postos de gasolina anunciaram que permaneciam fechados por falta de caminhoneiros para distribuir combustível.

O problema não será resolvido no curto prazo. Serão necessárias mais do que medidas emergenciais para garantir que haverá mão de obra para fazer fretes. O próprio Johnson admitiu que problemas nas cadeias de suprimento podem continuar até o Natal. Há quem diga que faltará presunto e embutidos para os festejos de fim de ano, as datas preferidas do calendário britânico. O governo até reconhece que a escassez de mão de obra tem a ver com o Brexit, mas tenta vender o discurso de que o país vive um período de transição entre um modelo desgastado da União Europeia de baixos salários e a nova era britânica em que os serviços passarão a ser mais bem remunerados.

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