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Para economista do BNP, não há espaço para complacência na AL

17/01/2018 08h56

Marcelo Carvalho, economista-chefe para a América latina do BNP Paribas, pondera que o cenário econômico é favorável para a América Latina, que deve se beneficiar da combinação do forte crescimento econômico global, baixa inflação e dólar desvalorizado.


Carvalho alerta, no entanto, que não há espaço para complacência, e que os países precisam seguir com as suas reformas estruturais para poder tirar proveito do cenário global positivo. Veja a seguir os principais trechos da entrevista:


Valor: O Ibovespa ultrapassou a marca dos 80 mil pontos, acompanhando a melhora dos mercados internacionais. O que está acontecendo no Brasil está acontecendo em toda a América Latina?


Marcelo Carvalho: Sim. O verão está chegando para a região da América Latina. O cenário para a região é favorável, e o cenário global ajuda, se o local não atrapalhar. O mundo está ajudando por três fatores: em primeiro lugar, temos um cenário macroeconômico global favorável. O crescimento lá fora está forte, a inflação está baixa e a perspectiva é de um aumento dos juros muito lento e gradual, particularmente para o Federal Reserve americano.


O segundo ponto é que o dólar está se desvalorizando, inclusive em relação às moedas de países emergentes, como é o caso da América Latina. Depois de muitos anos de um dólar forte, o enfraquecimento da moeda é uma boa notícia para os mercados emergentes.


O terceiro fator que ajuda lá fora são os preços das commodities. Com o mundo se recuperando, em particular a China indo bem, e o dólar se desvalorizando, isso tudo ajuda a empurrar os preços das commodities para cima, o que, obviamente ajuda os exportadores de commodities, como é o caso da América Latina.


Valor: Quem são os grandes favorecidos? Quem ganha, quem perde, e quem é a estrela do momento na América Latina, na sua opinião?


Carvalho: Eu acho que temos uma maré cheia que levanta todos os barcos. Todo mundo está se beneficiando. É claro que, quando a maré baixar, e um dia ela vai baixar, aí veremos realmente quem está melhor e quem não está. Quem estava nadando pelado ou não.


Lá na frente teremos uma diferenciação, sim, e essa diferenciação entre os países vai depender da política econômica de cada país. Por isso o foco deste ano, pensando no mercado local, são as eleições. Teremos eleição na Colômbia, em maio, eleição no México, em julho, e, obviamente, a eleição de outubro no Brasil. Dependendo dos resultados destas eleições e da política econômica de cada país, teremos ganhadores e perdedores na região. Mas, por ora, a maioria dos países está no campo dos ganhadores.


Depois das eleições, sairá mais bem posicionado o país que for capaz de avançar nas reformas estruturais. A gente acha que o Brasil segue nesta linha e o México, cujas reformas já foram implementadas lá atrás, se mantém. Olhando as nossas projeções de crescimento para o ano que vem, elas estão na faixa de 2% a 3%. A Argentina, em particular, pode até crescer mais do que isso, mas isso porque a Argentina passou por muitos anos de aperto, então o ponto de partida é muito baixo.


Valor: Você acha que o risco político é o mais significativo, para a América Latina?


Carvalho: Acho que sim. Na nossa avaliação, as eleições em todos os países que eu falei - e como foi no Chile, no ano passado - serão apertadas, o que significa que, até chegar lá, a incerteza será grande e pode causar volatilidade nos mercados financeiros.


Valor: Ao mesmo tempo, parece haver uma certa complacência nos mercados de ações. Com tudo o que está acontecendo no Brasil, assim como em outros países, os índices acionários seguem em alta. Por que você acha que isso acontece?


Carvalho: Eu acho que esse ponto é importante. Não há espaço para complacência. De fato, há avanços na região. Você olha a situação de todos estes países hoje e encontra vários indicadores que estão melhores do que no passado, mas há muitos desafios. Ainda tem muita lição de casa pela frente e, portanto, não há espaço para complacência. Aqueles países que continuarem a fazer a lição de casa, esses sim vão se sair melhor.


No caso do Brasil, por exemplo, a lição de casa é avançar com a questão da previdência. Para a América Latina em geral é avançar com as reformas estruturais.


Valor: Além do político, quais são os outros riscos em potencial?


Carvalho: Além dos riscos domésticos, que são basicamente as incertezas em torno das eleições, temos, sim, vários riscos globais. Temos os suspeitos usuais, que é um problema geopolítico. Algum conflito militar em alguma parte do mundo, isso obviamente não é boa notícia. Se tivermos um aumento do protecionismo global, em particular por parte dos EUA, obviamente isso também não é boa notícia.


Um outro risco, mais específico para o mercado financeiro, é a inflação lá fora surpreendendo e ficando acima do esperado, forçando os bancos centrais a subir os juros muito mais rapidamente do que se imagina, sobretudo nos EUA. Eu comecei dizendo que o cenário está favorável lá fora, porque o crescimento está vindo, mas sem muita inflação, o que permite que os bancos centrais, sobretudo o Federal Reserve, subam os juros muito devagar. Mas se isso mudar, por alguma razão, com a inflação acima do esperado, isso forçaria os bancos centrais e o Fed, em particular, a subir os juros mais rapidamente, e isso poderia ser um choque externo.


Valor: Você acha provável que isso aconteça? E o dólar, também pode causar um choque?


Carvalho: Nós achamos que o cenário base é favorável, e que os riscos que eu mencionei são de baixa probabilidade. Eles existem, é claro, mas não são o que consideramos mais provável.


O cenário base para o dólar é de desvalorização. O dólar se move em ciclos de longo prazo, que duram vários anos, e nós achamos que o dólar está passando agora por um ponto de inflexão. A valorização do dólar que tivemos nos últimos anos está chegando ao fim e, daqui para a frente, o cenário para o dólar, na nossa avaliação, é de desvalorização.


O México, aqui na América Latina, é o que talvez esteja hoje em maiores dificuldades. Eu digo isso porque, nas nossas projeções, todos os países da América Latina terão um crescimento maior neste ano do que em 2017. A exceção é o México. Nós vemos uma desaceleração da economia mexicana, porque, ao contrário dos outros países, que vêm cortando os juros, o banco central mexicano teve que subir bastante os juros nos últimos anos. Isso tende a desacelerar a economia mexicana, além de outros dois riscos que o México enfrenta, sendo um externo e o outro local.


O risco externo é a proximidade muito maior que eles têm com a economia americana. No caso de um protecionismo maior dos EUA, o México é quem mais seria prejudicado, sobretudo no contexto das negociações do Nafta [Tratado Norte-Americano de Livre Comércio]. Se não chegarmos a um bom acordo no Nafta, isso é ruim para o México. E internamente temos, é claro, a eleição lá, que também é muito incerta.


Valor:Voltando às commodities, o que afetará os preços neste ano, além do dólar?


Carvalho: Um ponto fundamental para as commodities é a China, que está se saindo aparentemente muito bem. A China vem crescendo a um ritmo entre 6% e 7% e a gente acha que ela continua crescendo nesta faixa. Isso ajuda muito a sustentar os preços das commodities no mercado internacional.

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