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Todos a Bordo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O que os ladrões fazem com aviões roubados, como o de Almir Sater?

Avião interceptado pela FAB em 2018 transportava 300 kg de pasta-base de cocaína - Polícia Federal
Avião interceptado pela FAB em 2018 transportava 300 kg de pasta-base de cocaína Imagem: Polícia Federal

Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/09/2021 04h00

No começo de setembro, três aviões foram roubados durante um arrastão ocorrido em Aquidauana (MS). Dois pertenciam a dois empresários e outro era propriedade do cantor e compositor Almir Sater, 64.

Embora nem sempre seja amplamente divulgado, esse tipo de crime não é raro de acontecer. Em maio de 2021, um avião foi roubado em Ourilândia do Norte (PA), e a empresa proprietária da aeronave ofereceu R$ 50 mil para quem soubesse de alguma informação sobre o paradeiro dela.

Investigações apontam que os aviões são direcionados, principalmente, para países vizinhos, como Bolívia e Paraguai. Os modelos preferidos das quadrilhas são os de menor porte, mais fáceis de serem operados e mais difíceis de serem rastreados.

Em outros países, esses aviões passam a ser utilizados para levar drogas para dentro do Brasil, principalmente a cocaína. A chance de utilização dessas aeronaves para reaproveitamento de peças é praticamente nula, já que elas são rastreáveis e não há um mercado amplo para isso.

Tráfico de drogas

Segundo Allan de Abreu, jornalista e autor do livro "Cocaína: A rota caipira" (Editora Record, 826 páginas), transportar a droga por meio terrestre é mais arriscado, pois há diversas barreiras. Por isso, a via aérea é a principal escolha dos traficantes para trazer a cocaína ao país.

"Já no começo dos anos 1980 havia registros de voos com cocaína vindos de países vizinhos, como Bolívia e Paraguai, até o Brasil. Por via aérea, o risco de essa carga ser apreendida é pequeno", diz Abreu.

O jornalista ainda relata que há muitas quadrilhas de bolivianos, paraguaios e brasileiros, principalmente em Mato Grosso, que atuam em furtos de aeronaves. Isso se deve ao fato de que há uma abundância de aviões pequenos na região devido ao agronegócio e à necessidade de produtores viajarem longas distâncias.

Perto da fronteira

Outro fator que influencia na escolha da região é sua proximidade com a fronteira. Saindo rapidamente do Brasil, evita-se que essas aeronaves sejam interceptadas e, até mesmo, derrubadas.

"Normalmente, esses aviões são levados para os países vizinhos e passam a entrar nessa rota no Paraguai, principalmente na região de Pedro Juan Caballero, onde há muitas pistas clandestinas, e na região de Santa Cruz de La Sierra (Bolívia)", diz o escritor.

A partir destes locais, os aviões são carregados com cerca de 400 kg a 500 kg de cocaína, por exemplo, e voam rumo à região da rota caipira, compreendida entre o interior de São Paulo, triângulo mineiro e o norte do Paraná.

Dali, a droga é levada, em sua maioria, para o Rio de Janeiro e São Paulo, para o consumo do público interno do país, e para Santos, no litoral paulista, para ser enviada ao exterior.

Aviões adaptados

Para conseguirem voar longas distâncias com carga máxima, esses aviões que são roubados ou furtados têm de passar por algumas adaptações, segundo Abreu. Todas elas são irregulares, e colocam o voo em risco.

Adaptação - Polícia Federal - Polícia Federal
Avião adaptado para transporte de drogas é interceptado pela Aeronáutica
Imagem: Polícia Federal

A principal delas é a remoção de todos os bancos, exceto o do piloto ou, eventualmente, de um ajudante. Isso diminui o peso, e permite que mais fardos com a droga sejam colocados no voo.

Outra adaptação é o transporte de combustível em um reservatório ao lado do piloto. Durante o voo, o piloto começa a colocar o combustível no tanque do avião, permitindo que ela voe por mais tempo.

Isso é necessário para conseguir voar desde o exterior até o destino dentro do Brasil, já que, a cada pouso, aumenta o risco de o avião ser interceptado. Ao pousar, o descarregamento também tem de ser rápido, sendo realizado em poucos minutos

Muitas vezes, o piloto nem desliga o motor e já decola na sequência, tudo para evitar ao máximo ser alvo da fiscalização.

Difícil de encontrar

Não é comum que aviões menores contem com transponder, equipamento que ajuda a identificar a localização das aeronaves. Ainda assim, esse dispositivo pode ser desativado pelos criminosos.

Aviões menores também chamam menos atenção quando estão voando, tanto pelo seu tamanho quanto pelo ruído que fazem, bem menor que os modelos maiores.

Outra técnica utilizada para evitar que sejam localizados é o voo a baixa altitude. Os radares detectam melhor os aviões que voam em alturas mais elevadas em relação ao solo. Próximo ao chão, é mais difícil essa detecção, o que ajuda na fuga.

Interceptação

Tucano - Sgt. Johnson/Força Aérea Brasileira - Sgt. Johnson/Força Aérea Brasileira
Piloto da Aeronáutica se dirige a aeronave em alerta após acionamento para verificar um voo ilícito
Imagem: Sgt. Johnson/Força Aérea Brasileira

No dia 7 de setembro de 2021, um avião entrou no espaço aéreo brasileiro pela Bolívia. Aviões de ataque A-29 Super Tucano e a aeronave radar E-99 da FAB (Força Aérea Brasileira) foram empregadas na busca pela aeronave.

Após os tiros de aviso e de detenção, o avião fez um pouso forçado no norte do Mato Grosso, e a Polícia Federal iniciou as buscas no solo. A ação faz parte da operação Ostium, que atua na vigilância das fronteiras do país.

O modelo interceptado, matrícula PT-INM, é um Cessna 182, capaz de voar até 1.700 km sem precisar reabastecer. Em 2019, o mesmo avião havia sido roubado em Rondônia, e foi encontrado na Bolívia.

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