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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Petrobras tem maior lucro da história, mas combustíveis sobem de novo

Aloizio Mercadante

Aloizio Mercadante

É doutor em economia, professor universitário, ex-deputado, ex-senador, ex-ministro e presidente da Fundação Perseu Abramo

02/03/2021 04h00

É inacreditável! O país mergulha mais uma vez em uma nova recessão, a Petrobras apresenta o maior lucro da história da bolsa de valores do Brasil e, ao mesmo tempo, o preço dos combustíveis sofre o quinto reajuste, só em 2021. Com anúncio feito nesta segunda-feira (1º), só este ano, a gasolina acumula alta de 41,6%, o diesel de 33,9% e o gás de cozinha de 17,1%, percentuais muito acima da inflação no período. A adoção dessa política de preço de combustíveis é insustentável econômica e socialmente e não se justifica.

É verdade que, nos últimos anos, a Petrobras vem passando por um processo de financeirização, privatização, e desnacionalização sem precedentes. O plano de desinvestimentos da empresa tem acelerado a venda de campos de petróleo em terra e águas rasas e as reservas de petróleo provadas da empresa caíram de 14 bilhões de barris de óleo equivalente (BOE), para 8,8 bilhões de BOE, em 2020.

Ativos ligados ao gás, logística, transporte, distribuição, petroquímica e biocombustíveis estão sendo privatizados, muitas vezes com preços abaixo de mercado, como na recente venda da Refinaria Landulpho Alves na Bahia, em meio à crise e pandemia. O plano de privatização pretende vender mais 8 refinarias, comprometendo a autossuficiência e a sinergia da empresa.

Também é verdade que para viabilizar essa política as últimas gestões da Petrobras mantiveram o parque de refino funcionando com elevada capacidade ociosa, com a utilização de apenas 76,5% da capacidade de refino, promovendo a entrada de uma enxurrada de importadores no mercado brasileiro, entre 2018 e 2019, só as importações de gasolina A cresceram 62,7%.

Com menos refino e mais importação, cresceram as pressões para que o preço dos combustíveis fosse também internacionalizado e dolarizado.

Entretanto, a política Bolsonaro-Temer sobre o preço dos combustíveis, que só favorece petrolíferas estrangeiras, os acionistas minoritários, os fundos financeiros internacionais e importadores de derivados, resultou na descoordenação do abastecimento brasileiro e na perda de competitividade sistêmica da economia, com graves impactos na recuperação econômica.

Com a pressão do preço dos combustíveis vivemos sob constantes ameaças de greves de caminhoneiros e petroleiros, acelerada deterioração nas condições de vida dos trabalhadores de aplicativos, além da carestia do botijão de gás e dos alimentos.

A Petrobras, como empresa estratégica que é, precisa voltar servir aos interesses do povo brasileiro. Para isso, é fundamental que se suspendam as privatizações das refinarias, que se altere a política de preços com paridade internacional e que se proponha um novo projeto para a Petrobras. Além disso, é indispensável mudar o padrão de gestão e estratégia da empresa.

A Petrobras deve assegurar a soberania petrolífera, a autossuficiência em derivados e o adequado abastecimento de combustíveis no país.

Em uma economia do tamanho da do Brasil, uma empresa com o porte da Petrobrás não pode ser prisioneira dos seus acionistas minoritários, mas deve ser uma empresa que pode contribuir para aumentar a competitividade da economia e beneficiar o conjunto da sociedade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL