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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Inesperado aumento do preço do petróleo indica elevada incerteza para 2021

José Luís Fiori

José Luís Fiori

Professor titular do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), coordenador do Laboratório de "Ética e Poder Global", do Nubeia (Núcleo de Bioética e Ética Aplicada) da UFRJ, e pesquisador do Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis)

25/03/2021 04h00

No começo de 2021, o preço do barril do petróleo deu um salto de quase 35%, chegando a US$ 73,38 nos primeiros dias de março, nos mercados asiáticos.

Como a atual política de preços da Petrobras tem como componente central do reajuste o valor dos combustíveis as cotações internacionais, o consumidor brasileiro passou a conviver, nos últimos meses, com aumentos frequentes do preço da gasolina e do diesel.

Segundo a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), entre o começo de janeiro e o final de fevereiro, o diesel subiu 15,1%. Mas o que está por trás das elevações do barril do petróleo no mercado internacional?

Antes de tudo, é importante lembrar que a elevação abrupta dos preços do petróleo, nestes primeiros meses de 2021, surpreendeu diversos analistas do mercado financeiro e petrolífero. Havia a expectativa, por um lado, de que a Opep+ (bloco que inclui Opep e outros grandes produtores como a Rússia) retomaria a produção de petróleo, depois do corte de cerca 10% realizado em abril de 2020.

Também havia a expectativa de que a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos criasse um afrouxamento das sanções impostas ao Irã e à Venezuela, o que permitiria o aumento da oferta global do petróleo. Por isso, o Morgan Stanley e várias agências previram uma estabilização do preço do barril, até o segundo semestre de 2021, em torno de US$ 50 ou US$ 55. Todavia, uma soma de fatores e acontecimentos econômicos, ao lado de alguns "acidentes geopolíticos", elevou o preço do barril acima dos US$ 70 neste mês de março.

Do lado econômico, a retomada da economia chinesa, cuja previsão de crescimento é de 6,5% em 2021, tem causado um efeito "controlador" mais eficiente do contágio econômico da pandemia.

Nos EUA, a aprovação pelo Congresso de um pacote de estímulo econômico no valor de US$ 1,9 trilhão, elevando para US$ 5 trilhões os gastos em programas de ajuda econômica contra a pandemia, já teria tido um efeito positivo sobre a demanda americana.

Um outro pacote econômico, no valor de 750 bilhões de euros, aprovado pelo Parlamento europeu como ajuda aos países mais atingidos pelos efeitos sanitários e econômicos da pandemia, também sinalizaria um horizonte de recuperação econômica na região.

Do lado geopolítico, novos fatos e alguns acidentes de percurso pesaram também na aceleração imprevista do preço do óleo. Entre eles:

  • a onda de frio que resultou na queda da produção de petróleo no estado americano do Texas, em fevereiro;
  • as baixas temperaturas, principalmente no Japão e no Sudeste Asiático, que fizeram a demanda por energia da região crescer excepcionalmente no início de 2021;
  • a decisão da Opep+, tomada no início do mês de março, de manter o corte da produção dos países-membros pelo menos até o mês de abril de 2021;
  • o ataque dos rebeldes Houthis do Iêmen ao porto de Ras Tanura, utilizado pela Arábia Saudita para exportação do seu petróleo;
  • os ataques de origem ainda não identificada contra instalações petrolíferas no território da Síria;
  • a perda da confiança dos analistas e investidores com relação à possibilidade de relaxamento das sanções americanas contra o Irã e a Venezuela;
  • as primeiras iniciativas do governo de Biden estarem apontando na direção da manutenção ou agravamento da competição e rivalidade com a Rússia, gerando expectativas de novas sanções, sobretudo contra o grande projeto de construção do gasoduto entre a Rússia e a Alemanha, através do mar Báltico, o Nord Stream;
  • por fim, depois da realização, no dia 12 de março de 2021, da primeira reunião do QUAD, "Diálogo de Segurança Quadrilateral", reunindo EUA, Japão, Índia e Austrália, houve um fortalecimento dos laços econômicos e militares entre esses países, construindo um novo anel militar em torno da China.

Somando e subtraindo, tudo indica que o preço do petróleo deva flutuar entre os valores de US$ 60 e US$ 65 nos próximos meses, se depender apenas dos fatores econômicos e geopolítico ocorridos até o presente momento.

Mas não é improvável que novos "soluços geopolíticos" possam elevar este preço para US$ 70 ou US$ 75. Independentemente de em que lugar o preço irá parar, não há dúvidas de que a incerteza continuará dando o "tom" no mercado de petróleo em 2021.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL