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Carla Araújo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro foge da realidade ao dizer que privatizações estão "a todo vapor"

Há estatais que poderiam ser privatizadas apenas por decisões do presidente - Pedro Ladeira/Folhapress
Há estatais que poderiam ser privatizadas apenas por decisões do presidente Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

24/02/2021 11h27

Depois de provocar um abalo no mercado financeiro ao intervir na Petrobras, ontem (23) à noite o presidente Jair Bolsonaro desceu a rampa do Palácio do Planalto (rodeado de ministros) e caminhou até Congresso Nacional para entregar o texto da Medida Provisória da privatização da Eletrobras.

O presidente queria afagar o ministro Paulo Guedes (Economia) e acreditou que o gesto de enviar pessoalmente a MP poderia sinalizar que o governo não abandonou por completo a agenda liberal do Posto-Ipiranga.

Em sua rápida fala ao lado dos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), Bolsonaro, porém, forçou a mão ao dizer que a agenda de privatizações do governo estaria andando.

"A nossa agenda de privatização, essa MP não trata disso hoje em dia, mas nossa agenda de privatização continua a todo vapor", disse o presidente.

A informação não encontra respaldo na realidade. O que o seu governo conseguiu privatizar até agora?

Em 2020, a expectativa era de que o governo arrecadasse R$ 150 bilhões com privatizações e venda de ações de empresas em 2020. Nada andou.

A lentidão no ritmo das privatizações foi duramente criticada inclusive pelo ex-secretário especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, Salim Mattar.

Em setembro do ano passado, em uma conversa em um canal virtual de Marcos Cintra, ex-secretário especial da Receita Federal, Salim afirmou que o presidente tinha outra preocupação: se reeleger.

"Se ele [Bolsonaro] quisesse, podia privatizar todas as empresas que não precisam [de aprovação] do Congresso. Depende só dele, [mas] falta vontade", disse Salim.

MP da Eletrobras é mesmo urgente?

Relevância e urgência são os requisitos para justificar a edição de Medidas Provisórias pelo presidente da República. E enquanto o Brasil se aproxima de 250 mil mortes por conta do coronavírus, Bolsonaro segue derrapando em suas prioridades. O foco do presidente não é a saúde pública e também não tem sido a economia.

Apesar de ser uma sinalização de que não abandonou a agenda de Guedes é importante lembrar: MPs caducam, perdem a validade se não forem votadas em até 120 dias. E a pauta de votações depende de uma séria de acordos.

O tema já estava no Congresso desde o governo Michel Temer e não avançou por uma série de interesse dos parlamentares, que não consideram a pauta prioritária. Além disso, há muitos cargos e postos importantes para lotear entre aliados na estatal.

Bolsonaro continua dando sinais trocados que dificultam a vida do investidor no Brasil. Como ter a segurança em investir na estatal, dias depois de o presidente ter dito que quer colocar o dedo na energia também?

Posto-Ipiranga e suas derrotas

Guedes continua em silêncio desde que o presidente decidiu demitir o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco. Está abatido e sabe que pode perder mais membros da sua equipe, já que Bolsonaro anda prometendo mais mudanças e cobra agilidade da equipe econômica.

O ministro vinha apostando suas fichas atualmente na aprovação da PEC emergencial, que vai permitir o pagamento do auxílio emergencial. A votação estava marcada para amanhã (25), no entanto, já deve ficar para a semana que vem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL