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Gabriela Chaves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Alta oferta de crédito caro endivida famílias e mantém desigualdade social

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Gabriela Chaves

Gabriela Chaves é economista e fundadora da NoFront - Empoderamento Financeiro, plataforma que ensina educação financeira a partir de músicas de RAP. Também é mestranda em Economia Política Mundial pela UFABC e pesquisadora do NEPAFRO - Núcleo de Estudos Afro-Americanos, nas áreas de gênero, raça e trabalho. Em 2020, pela Editora Senac São Paulo, lançou o livro “Economia do Setor Público”.

10/06/2021 04h00

Desemprego, redução salarial, aumento generalizado das despesas com alimentação, moradia e transporte são alguns dos fatores que podem levar as famílias ao endividamento.

Para pagar as dívidas, muitas delas recorrem ao uso de cartões de crédito ou empréstimos bancários. Porém, as altas taxas de juros são capazes de aumentar o endividamento, gerando um ciclo de pagamentos de parcelas por mais de dois anos. Nesse período, o bem-estar familiar é comprometido, causando preocupações, aumento de estresse e impactos na saúde mental.

De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada em abril deste ano, o percentual de famílias endividadas em março atingiu 67,3%, o segundo maior patamar dos últimos 11 anos.

Um estudo do Banco Central, divulgado em junho, revela também que famílias que fazem empréstimos em momentos de maior oferta de crédito, como agora, na pandemia de covid-19, tendem a reduzir o seu poder de compra nos próximos anos para quitar os empréstimos.

Isso quer dizer que, com a alta da oferta de crédito com altos juros e sem uma expansão do emprego e da renda, existe a chance de crises econômicas mais fortes daqui a um ou dois anos.

O endividamento das famílias gera um ciclo de manutenção das desigualdades sociais, em que as pessoas mais pobres pagam as maiores taxas de juros e impostos, sustentando os mais ricos.

Por exemplo, o Brasil tem uma das taxas de juros mais altas do mundo e um sistema que é bastante excludente na questão do crédito. Quando analisamos o tipo de crédito que muitas pessoas pobres pegam, percebemos a forte presença do cartão de crédito e cheque especial, tipos de crédito extremamente caros. As outras opções mais vantajosas ficam restritas a grandes empresas.

Além disso, é importante entender que, no caso da população negra e periférica, o desconhecimento sobre os riscos da realização de empréstimos pode causar a perda do patrimônio conquistado, via endividamento.

Isso porque hoje está se difundindo muito no Brasil o crédito com garantias, que é uma modalidade com taxas menores, mas que requer algum bem em garantia, como um carro ou uma casa. Dessa forma, é muito importante que as pessoas tenham acesso a informações relacionadas às dívidas para não correrem o risco de não conseguirem sair do endividamento e ainda perderem um imóvel.

Uma das alternativas para esse momento da pandemia seria, por exemplo, que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) tivesse seu papel ampliado nesta conjuntura, financiando o desenvolvimento, a retomada econômica, as pequenas e médias empresas. Entretanto, a política que o governo escolheu foi a de distribuir crédito por meio dos bancos tradicionais, que pouco repassaram os valores aos empreendedores que mais precisavam.

Nesse sentido, precisamos entender que a expansão do crédito sem o acompanhamento de políticas sociais que se preocupem com o nível de empregos, a renda das famílias, em como as pessoas vão pagar esse valor e retomar suas vidas econômicas, deve causar um mal-estar financeiro que vai impactar a recuperação econômica das famílias nos próximos anos.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL