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Gabriela Chaves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Agenda sustentável das empresas precisa incluir combate a fome e desemprego

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Gabriela Chaves

Gabriela Chaves é economista e fundadora da NoFront - Empoderamento Financeiro, plataforma que ensina educação financeira a partir de músicas de RAP. Também é mestranda em Economia Política Mundial pela UFABC e pesquisadora do NEPAFRO - Núcleo de Estudos Afro-Americanos, nas áreas de gênero, raça e trabalho. Em 2020, pela Editora Senac São Paulo, lançou o livro “Economia do Setor Público”.

25/06/2021 04h00

O conceito de ESG (ambiental, social e governança, na sigla em inglês) tem se tornando uma das principais pautas empresariais, principalmente durante a pandemia. O ESG é usado, muitas vezes, como referência para pensar a sustentabilidade de um negócio ou investimento, refletindo como a atuação das empresas pode afetar a sobrevivência de diferentes ecossistemas financeira e socialmente e como isso impacta o meio ambiente.

Porém, o debate empresarial sobre ESG, muitas vezes, foca apenas na questão ambiental, desfocando a dimensão social e de governança dos debates. Isso é problemático, uma vez que, para ter sustentabilidade ambiental, é preciso que haja uma sustentabilidade social e uma governança que consiga equilibrar as suas decisões para que elas gerem o mínimo de impacto para as pessoas e para o meio ambiente.

No contexto atual da pandemia de coronavírus, as pessoas pobres têm sido impactadas de várias formas. Uma delas é com o aumento do desemprego, que já soma mais de 14 milhões de pessoas, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Sem empregos, com contas para pagar, despesas com alimentação, moradia e transporte, há o aumento do endividamento familiar que, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada em abril deste ano, o percentual de famílias endividadas em março atingiu 67,3%, o segundo maior patamar dos últimos 11 anos.

Além disso, o aumento da fome é uma situação que necessita de muita atenção, inclusive por parte do segmento empresarial. Segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), em 2020, 19 milhões de brasileiros passaram fome.

Dessa forma, é urgente que os debates sobre ESG englobem também a perspectiva social, o desemprego, a retomada econômica, as políticas de combate à fome e a geração de renda, uma vez que o 'S', de ESG, foca na sociedade como um todo. Esse é um assunto que há décadas as pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+, com deficiência, mulheres e outros grupos socialmente minorizados vêm lutando, mas que, só nos últimos anos, vem sendo percebido pelas organizações, aos poucos.

Trata-se de uma mudança estrutural e social extremamente importante, porque quando mudamos os sujeitos que tomam a decisão e conseguem abrir esse espaço de tomada de poder para outros sujeitos, com outras trajetórias, os resultados são inovadores, sustentáveis e mostram que o caminho da igualdade e da inclusão é um caminho de prosperidade para toda a sociedade.

E é por isso que esse debate é central nesse momento que estamos vivendo. Não é possível pensar o ESG focando apenas na questão ambiental (por uma ótica extremamente financeirizada, diga-se de passagem), desvinculando-o da questão social e da governança. Precisamos discutir os marcos sob os quais vamos conduzir o desenvolvimento no século 21. Nesse sentido, a integração do debate ambiental, social e de governanças sobre o mercado privado, certamente, é o início da transformação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL