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João Branco

O vale-tudo do marketing político

João Branco

João Branco tem mais 20 anos de experiência em grandes marcas e trabalha desde 2014 no McDonald's, onde é o Diretor de Marketing e lidera o talentoso time que está batendo todos os recordes de vendas da história do Big Mac. João estudou em algumas das melhores universidades do mundo mas aprendeu no "Méqui" o que nenhuma aula teórica foi capaz de ensinar: que o resultado sempre vem quando o consumidor ama muito tudo isso.

Colunista do UOL

11/11/2020 04h00

Se o Marketing fosse o universo das artes marciais, o marketing político seria o UFC. Todas as técnicas de persuasão mais "avançadas" são usadas em uma campanha eleitoral. Eu acho divertidíssimo.

Se você fosse candidata ou candidato, qual seria a sua frase de efeito para pedir votos? O que faria para divulgar o seu número? Como seria seu jingle? O que falaria nos 3 segundos que aparece na televisão? Isso é mais difícil do que parece. Então o pessoal apela para os golpes mais certeiros que conhece. A começar pelos nomes. Esse ano mais de 500 mil pessoas se inscreveram no TSE para concorrer ao cargo de vereador. Desses, 96% usam um nome diferente do que está no seu RG para pedir votos. Uma versão resumida do nome, um apelido, um trocadilho... cada um escolheu a sua "marca" nessa disputa.

Eu me daria mal já na largada, porque tenho um nome duplamente problemático. Há pelo menos 8 mil candidatos que também se apresentam como João. E, no meu caso, destacar o sobrenome não seria uma opção por motivos óbvios (imagine se eu tivesse que convencer os eleitores a "votarem em Branco", João Branco?).

Vamos então analisar as técnicas utilizadas. A primeira que me chamou a atenção foi a de lembrar os amigos de onde você é. Percebi que 963 candidatos usam um apelido do tipo fulano "do posto" no nome que aparecerá na urna. Outros 672 se apresentam como "da farmácia", 618 são "da padaria", 479 "do hospital", 233 "da loja" e 199 "do banco". Mas nada se compara com os 1.960 candidatos que são "do bar", enquanto apenas uma se diz "do marketing". Cuidado com as pessoas que te atendem por aí, um dia elas vão te pedir um votinho em troca dos serviços!

Há ainda os que se apresentam como super-heróis. Há 2 candidatos "James Bond", 12 "Batman", 3 "Capitão Caverna" e 4 "Superman". E agora, quem poderá nos defender? Você também pode escolher entre 49 "Chapolins".

Muitos querem reforçar suas posições profissionais. Há mais de 19.092 que se apresentam como "professores", 1.745 "doutores", 1.096 "cabeleireiros", 559 "tenentes", 541 "pintores", 400 "açougueiros", 241 "engenheiros", 199 "manicures" e até 156 "cowboys".

Outra tática comum é levantar uma bandeira. São 4.766 candidatos que colocam "saúde" no nome. Outros 206 usam educação. E 1.392 que se dizem "do povo".

O lado religioso também pega forte. São mais de 4 mil candidatos "pastores" e quase 5 mil "irmãos" ou "irmãs", além de 244 padres, entre tantos bispos, diáconos e missionários ou dos 23 que se nomeiam como "abençoados".

Há ainda quem use o nome de um famoso, apele pro time de futebol do coração ou use uma característica física (são 461 "gordos", 350 "carecas", 215 "bigodes" e 190 "loiras", por exemplo). Cada um monta a sua estratégia. Até as marcas estão presentes nos nomes. Há 11 candidatos que fazem referência a "Coca-Cola" no apelido. Outros 6 usam "Skol" e 5 usam "Bombril". Mas acho que a marca campeã em menções é o "Uber", com 189.

eleição - Felipe Tomazelli - Felipe Tomazelli
Imagem: Felipe Tomazelli

As eleições estão chegando e você deve ser bombardeado com as campanhas de marketing de cada um. Se você também acha isso divertido, aproveite. Mas faça uma escolha consciente. Não fundamente a sua decisão em quem tem a musiquinha mais bonita, a foto mais ajeitada ou o nome mais criativo. Pense o que você quer para sua cidade e vote em quem agiria mais parecido com você, baseado em informações verdadeiras. Essa é uma escolha sobre o seu futuro. Já a escolha sobre a propaganda mais divertida, isso certamente o grupo de whatsapp dos amigos vai eleger.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.