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João Branco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Enquanto seus clientes choram, é hora de vender?

João Branco

João Branco tem mais 20 anos de experiência em grandes marcas e trabalha desde 2014 no McDonald's, onde é o Diretor de Marketing e lidera o talentoso time que está batendo todos os recordes de vendas da história do Big Mac. João estudou em algumas das melhores universidades do mundo mas aprendeu no "Méqui" o que nenhuma aula teórica foi capaz de ensinar: que o resultado sempre vem quando o consumidor ama muito tudo isso.

Colunista do UOL

07/04/2021 04h00

Nada mexe mais com uma pessoa do que um velório. Quando vemos alguém partir, é impossível não pensar no futuro. Até os jovens, que costumam ser menos preocupados com isso, dão uma balançada.

Estamos quase batendo a marca de 350 mil mortes no Brasil. Todo mundo conhece alguém que se foi. Calculo que mais de 10 milhões de pessoas tiveram que enfrentar a perda de alguém muito querido recentemente.

Isso muda muita coisa. Essa catástrofe muda sentimentos, muda perspectivas, muda comportamentos. Algo inédito e difícil de comparar com outras situações que vivemos.

Eu sou marketeiro e tudo que impacta significativamente os hábitos das pessoas me interessa. Vou deixar toda a tristeza e indignação que essas estatísticas me geram de lado por um instante, para fazer uma análise que cumpre o papel dessa coluna: o que acontece no mercado quando tanta gente passa por um luto ao mesmo tempo?

O que acontece com o consumo quando estamos tristes? O que acontece com as expectativas sobre as marcas? O que muda na cabeça do seu consumidor?

Se você tivesse certeza que o seu cliente perdeu a mãe hoje, mandaria para ele aquela mensagem com uma "promoção imperdível de borda recheada grátis na compra de 2 pizzas"? Ou isso perde totalmente o sentido?

O que é esperado que as empresas e marcas façam nesse contexto?

luto - Felipe Tomazelli - Felipe Tomazelli
Imagem: Felipe Tomazelli

Muita gente está triste, cansada, endividada. Muitos estão com fome, preocupados e sem esperança. E, ao mesmo tempo, muitos comércios estão falindo. Infelizmente estamos enterrando muitas pessoas. E muitas empresas.

Já que o máximo que consigo fazer para ajudar na área de saúde é deixar um forte incentivo para que você se proteja, deixo aqui a minha contribuição para a área dos negócios: esse é o momento de sermos humanos, empáticos e amorosos. Se você é vendedor, vejo muitos perigos naquele papo de que "enquanto uns choram, outros vendem lenços". E se você é comprador, cuidado com o jargão "cliente sempre tem razão". Estamos todos lascados. Todos. Alguns não sobreviverão se você não estender a mão. Outros lembrarão para o resto da vida o que você fez agora.

Publicitários gostam de fazer barulho. Mas, durante o luto, é hora de fazer silêncio. Vendedores querem aproveitar as oportunidades de fechar uma negociação. Mas existe um limite que demarca o oportunismo. Marketeiros querem encantar. Mas o momento é de abraçar. Clientes querem ser servidos. Mas os servidores também estão abalados.

Todos os dias eu abro minhas redes sociais e encontro despedidas. São mensagens de filhos tristes, amigos saudosos, colegas de trabalho estarrecidos. Eu leio todas elas. Quero saber as histórias, os sentimentos, os legados. Em geral, esses textos são carregados de exemplos que estão gravados na memória de quem fica. Já li dezenas de despedidas. E em nenhuma delas, repito: em nenhuma delas, encontrei algo do tipo "saudades do Fulano, que sempre batia as metas de vendas". Curioso, não? Gastamos tanto tempo fazendo isso, mas seremos lembrados por outras coisas. É dessas coisas que estou falando.

Você, vendedor, pode adotar um tom mais adequado ao momento, oferecer serviços diferentes, cobrar preços justos ou participar de algum projeto de ajuda, se conseguir. Você, consumidor, pode ser mais compreensivo, generoso e empático com quem está tentando sobreviver economicamente.

Faça por amor. Ou por interesse. Mas, por favor, faça a diferença no que você puder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL