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José Paulo Kupfer

Preço de seringas só volta ao "normal" quando a pandemia estiver no fim

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

06/01/2021 15h35

À luz dos conhecimentos básicos do funcionamento de sistemas de mercado, o anúncio do presidente Jair Bolsonaro de que estão suspensas as compras de seringas "até que os preços voltem à normalidade" pode ser traduzido sem susto da seguinte forma: "não vamos comprar seringas até que a pandemia de Covid-19 der indicações claras de que está no fim".

É mais do que óbvio que não haverá "normalidade" no preço dos conjuntos de seringas e agulhas, equipamentos sem os quais as vacinas não podem ser aplicadas, enquanto a pandemia mantiver em alta a demanda por vacinação. Com o mundo inteiro estocando seringas e agulhas, ao mesmo tem em que países, responsavelmente, restringem exportações do material, os preços só voltaram à "normalidade" - pressupostamente aqueles preços vigentes antes da pandemia - quando a vacinação em massa pelo mundo tiver logrado bloquear o contágio da doença.

A "crise das seringas" é mais uma prova da falta de planejamento e da desorganização do governo. Era mais do que sabido que a corrida por vacinas resultaria em necessidade de seringas e agulhas quando imunizantes passassem a ser oferecidos. Foram pelo menos dez meses para formular um plano, definir a quantidade necessária e partir para a compra do material, negociando preços melhores, com a força do grande volume que deveria ter sido encomendado.

Mas esse tempo foi perdido e, com ele, perdeu-se também a oportunidade de negociar os equipamentos a preços mais razoáveis. Nesse período, o governo, imóvel, não fechou contratos de importação de seringas, nem muito menos acertou com a indústria local o aumento no ritmo de produção, por meio da garantia de compras firmes de conjuntos. Não houve também preocupação em vedar as exportações de seringas, que não representam mais de 10% da produção, mas chegaram a aumentar já com a pandemia instalada.

Tal paralisia é a resultante natural da insistente atitude negacionista de Bolsonaro, em relação à grave pandemia de Covid-19. Negação potencializada por um desprezo pelas medidas de segurança - uso de máscaras, distanciamento social e não aglomeração de pessoas - e um absurdo boicote às vacinas.

O problema ficou bem evidenciado no fracassado pregão de compras de seringas, nos últimos dias de 2020. O governo lançou um pregão público para a compra de 330 milhões de conjuntos de seringas e agulhas a R$ 0,13 cada conjunto, o que daria um custo de R$ 42,9 milhões. A esse preço, porém, não conseguiu mais do que 8 milhões de conjuntos, equivalentes a 2,4% do total. Os fabricantes queriam vender seus produtos a um preço de 70% a 250% mais alto.

Normalmente, no Brasil, são os governos estaduais que se encarregam das campanhas de vacinação em massa, das quais o Brasil já foi exemplo para o mundo, com o apoio do governo federal. Na pandemia, porém, a vacinação foi transformada em disputa política, fazendo o governo federal hesitar entre centralizar o combate ao Covid-19 e empurrar a tarefa aos estados.

No vazio produzido, alguns estados tomaram a dianteira, providenciando a compra de seringas e agulhas. São Paulo, por exemplo, já teria contratado o fornecimento de 50 milhões de conjuntos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.