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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Expectativas pioram e números da economia já são revisados para baixo

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

14/04/2021 15h53

Recrudescimento da pandemia, colapso hospitalar, vacinação lenta. São esses os principais elementos que influenciam as revisões mais negativas para os principais indicadores da economia brasileira em 2021 e, também, em 2022. Já em meados do quarto mês do ano, as expectativas em relação ao desempenho econômico pioram.

No Boletim Focus, no qual o Banco Central organiza, semanalmente, as expectativas dos analistas de bancos e consultorias, essa piora já é captada. No ritmo de conta-gotas, que caracteriza a dinâmica da pesquisa, as projeções para a variação do PIB (Produto Interno Bruto), em 2021, recuaram de 3,41%, na primeira semana do ano, para 3,08%, em meados de abril. A tendência continua sendo de baixa nas estimativas.

No mesmo intervalo de tempo, a taxa de inflação, medida pelas oscilações do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), saíram de 3,32, em janeiro, para 4,85%, em abril. Cotação do dólar e taxa básica de juros (taxa Selic) também registram tendência de alta. As apostas para o dólar, que, no fim do ano, deveria valer R$ 5, segundo previsões de janeiro, avançaram agora para R$ 5,37. E os juros básicos, saíram, em janeiro, de alta de 3,25%, no fechamento de 2021, para 5,25%, no boletim da primeira metade de abril.

As idas e vindas das restrições à circulação de pessoas, combinadas com as resistências de pessoas e grupos, a aceitar a necessidade de distanciamento social e a não formar aglomerações, estão na base desse processo de piora nas projeções. Essas atitudes, sabidamente prejudiciais à atividade econômica, são ativamente incentivados pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, alguns governadores e prefeitos, O fator primordial para a deterioração nas previsões, contudo, é o ritmo de vacinação.

É do tempo estimado imunizar a população adulta que derivam as hipóteses de quando as restrições de mobilidade e distanciamento social serão relaxadas, e a economia terá espaço para buscar expansão. A expectativa, entre analistas, é de que a vacinação acelere em fins do primeiro semestre.

Confirmada a expectativa, uma reabertura dos negócios, alcançando inclusive os serviços, estaria prevista para meados do segundo semestre. E alguma normalização da vida econômica para a virada de 2021 para 2022.

Até lá, o "estoque" de crescimento acumulado no fim de 2020, quando a atividade apertou um pouco o passo, tenderá a ser em parte queimado, segundo as análises, em razão da retração esperada no primeiro semestre. Se fosse todo aproveitado, o "carregamento estatístico" do ano passado para 2021 resultaria num crescimento mínimo de 3,6% neste ano.

Mas o retrocesso previsto para os dois primeiros trimestres do ano está levando economistas a reduzir a alta da atividade em 2021 para 3% ou mesmo 2,5% - uma expansão insuficiente para repor as perdas depois da queda de 4,1% em 2020. Um índice ponderado de indicadores antecedentes, calculado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), mostra que o Brasil é exceção negativa entre as maiores economias do mundo, nos primeiros meses de 2021.

Indicadores que permitem antecipar o comportamento dos negócios, como a expedição de papelão ondulado, movimento em praças de pedágio de rodovias e consumo de energia, mostram que a produção avançou, no primeiro trimestre, nos Estados Unidos, China, Índia, Rússia e países europeus. Quanto ao Brasil, o quadro é de tendência de recuo na atividade.

Não só as consequências das falhas no enfrentamento da pandemia que contribuem para as revisões baixistas dos indicadores econômicos. Também a condução da política econômica tem deixado a desejar.

Sob a liderança ruidosa, mas pouco efetiva do ministro Paulo Guedes, o governo não avaliou corretamente a ameaça de uma segunda onda de covid-19. Ao vincular uma renovação restrita do bem-sucedido auxílio emergencial de 2020 a mudanças constitucionais mais complexas e demoradas, perdeu tempo. E muito menos cuidou de prorrogar os programas de sustentação de emprego e as linhas de crédito especiais para empresas, que se mostraram eficazes, no ano passado.

O auxílio afinal aprovado, por apenas quatro meses, com valores mensais entre R$ 150 e R$ 375, só começou a ser pago em abril. Alcançando 45 milhões de pessoas, 70% do conjunto de 65 milhões beneficiado com o auxílio de 2020, o novo auxílio se limitará a R$ 44 bilhões, o equivalente a 15% dos quase R$ 300 bilhões aplicados no ano anterior. É quase consenso que, diferentemente do anterior, será insuficiente para empurrar a economia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL